Frames de Ofício · LGBT · Semana temática na FDRP

Eu tô cansada da heteronormatividade.

txt da semana katniss

Por Luíza Monteiro (Katniss) – T IX

Cansada. Can-sa-da. Não tem como. É o tempo todo isso!! Você liga a TV, vai em uma festa, escuta uma música e pláu, um cara e uma mina, a história é quase sempre a mesma: se olham, dançam, bebem e transam. É muito difícil ficar mudando os pronomes dentro da sua cabeça pra conseguir se imaginar naquele cenário. Sério. É claro que devemos fazer jus a quem produz sons LGBTs, proporcionando nossa visibilidade e a oportunidade de nos identificar. Existem, relativamente, boas e variadas opções, apesar de não serem popularizadas ou tocarem em rádios e festas. Só que, infelizmente, o universo da música não é o mais preocupante.

O que eu estou realmente esgotada são com os filmes. Juro. Não existe, que eu saiba, filme LGBT no qual a sexualidade não seja a trama principal. Tudo gira em torno da sexualidade. É a pessoa se descobrindo, se aceitando, discutindo com a família, discutindo na escola, se reprimindo ou sendo reprimida, tendo primeiras relações complexas e difíceis. Tais temas são importantíssimos, por óbvio. Precisam ser tratados e discutidos.

Porém, às vezes, você não quer pensar. Às vezes, você não quer debater. Às vezes, você só quer ver um filme pra relaxar. Algo que distraia. Algo simples. Uma comédia romântica, daquelas que você já sabe o fim, ou um filme de cachorro, no qual o casal em cena, ou o casal que será formado, seja LGBT, pra você poder se identificar, pra você se apaixonar, se idealizar, se conectar.

Não precisa das dúvidas. Não precisa das problemáticas trazidas à tona toda vez que alguém não é heterossexual. Não é difícil. É um filme de fim de ano, sobre o natal, que não tem mil questões com sua identidade para serem resolvidas. Só neve, um labrador e um par romântico. Uma viagem de férias em família.

Pode até ser um filme de terror. NÃO, A SUGESTÃO NÃO É PRA FAZER UM FILME DE TERROR NO QUAL LÉSBICAS (porque espíritos são sempre mulheres ou crianças, tá na Constituição Federal) REPRIMIDAS VOLTAM PRA ASSOMBRAR ALGUM CONVENTO. A sugestão é um casal LGBT bem resolvido que viaja ou se muda pra uma casa e se depara com algum fenômeno sobrenatural, algum psicopata, etc.

Nesse sentido, tratando com leveza, normalidade e seriedade, não consigo me lembrar de nenhum filme, como já dito. No entanto, existem algumas séries que retratam de forma positiva a vivência LGBT, como Orphan Black, Sense8 e Brooklyn Nine-Nine. Mesmo que este, cuidado com o spoiler, tenha dado grande relevância à sexualidade da personagem Rosa e gerado tensão para o fato dela “esconder” isso, acaba sendo condizente com as características da personagem que ela omita sua vida pessoal. Tratamento muito diferente é dispensado ao Capitão Holt, por exemplo, que tem sua sexualidade exposta frequentemente sem que gere qualquer tipo de humilhação ou fetichização.

E para deixar tudo nítido: a “cota LGBT” que normalmente é trazida nos filmes e chamada de representatividade não é nem suficiente, quem dirá positiva. Saturada do papel de coadjuvante. Sim, temos vidas próprias e que vão além da nossa sexualidade. Não somos apenas uma fonte de conselhos e suporte para seus dramas heteronormativos. Merecemos o destaque dado ao protagonista sem que o foco principal seja a problematização da nossa sexualidade.

Mais que isso, parem, simplesmente parem, de nos fetichizar! Esses estereótipos não nos representam. E não existimos, em quaisquer circunstâncias que possam surgir, para deleite de vocês. É um absurdo quando, num filme qualquer, aparece uma cena de beijos calorosos ou sexo, completamente desnecessária de um casal LGBT não aprofundado, apenas com o intuito de prender a atenção e garantir uma falsa representatividade.

Na realidade, tais cenas não são um problema somente quando os casais não são aprofundados. Em “Azul é a cor mais quente”, conhecido filme lésbico, as atrizes foram constrangidas a repetir diversas vezes uma cena, famosa por ser longa, de sexo. Isso ocorreu por uma atitude abusiva do diretor que se mostrava insatisfeito com a atuação. O impacto nas atrizes foi tamanho que decidiram por nunca mais gravarem com o diretor novamente.

Bem, obviamente, não sou nenhuma cinéfila. Estou aqui simplesmente jogando essa ideia no ar, pois estou cansadíssima dessa falta de representatividade absurda. Demando, portanto, filmes clichês, desses de sessão da tarde, ou da nova produção em massa da Netflix, que tragam casais LGBTs para a cena sem grandes problematizações.

 

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