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Tem ouro no final do arco-íris?

Por João Pedro Fazoli (Paxão) – TVIII

“O caminho é manchado de sangue. Sangue colorido, de todas as cores”

Ao leitor que aqui se encontra, peço perdão antecipado pelo teor do que lerá. Não fui requisitado a escrever sobre esperança, tampouco sobre resistência.

Confesso que em geral é assim que trato do tema. Um baque, uma surra, um desânimo avassalador, mas sempre seguido da atitude altiva de quem precisa manter-se em pé: levanta a cabeça, se recupera e toca a vida pra frente porque o caminho aos poucos está sendo traçado! Um dia a gente chega lá.

Em outras palavras – resista!

No entanto não te demorará a entender que aqui não é esse o caso. Meu propósito é o desabafo. Meu propósito é deixar que minhas dores escrevam por mim no fluxo que vierem conforme escrevo. Porque ninguém aguenta ser destratado no seu mais íntimo ser sem extravasar em algum momento na forma que for possível nem você jamais entenderá como é assim se sentir sem que, vez ou outra, não escute sobre o que sentimos.
Sobre como nos sentimos.
Sobre como isso nos afeta.

Imagine você, leitor, descobrir em algum ponto da sua vida que de duas, uma: ou o mundo ao seu redor está errado ou o errado é você. E é óbvio que quando se tem esse sentimento desde muito jovem, na infância inclusive, sendo quase tudo que te circula revestido da normalidade imposta, a resposta óbvia no sentimento imediato é que o erro é seu.

Mas como estar errado por simplesmente … simplesmente ser! Você se pega pensando se houve escolha, se algum dia aquilo irá mudar, se é passageiro, se você está vivenciando seus emoções internas de maneira extraviada, errada. Pensa, se contorce, se confunde.

É um mar límpido e cristalino que de repente se torna revolto e turvo. Porque você sabe que não é possível estar errado por sentir aquilo que sempre te foi natural! Mas nada ao seu redor acompanha essa naturalidade, suas referência de amor, romances, personalidades. Os modos de ser e estar considerados normais e não polêmicos não são os que você sente.

E você, melhor do que ninguém, conversando consigo mesmo na falta da certeza de que conversar com alguém disso não te cause mais dor, sabe que nada disso condiz com seu mundo interior.

Chega o dia, então, em que você, amadurecendo sozinho e levando como regra se esconder enquanto todos ao seu redor não sabem como é viver sendo apenas instintivamente o que são, entende que o errado está longe de ser você. Revoltantemente longe.

E os problemas começam a ser outros.

Agora você sabe quem é. Mas quem dera isso diminuísse a depressão repentina diária de tudo que você precisa ouvir, sentir e vivenciar.

Já contou para seus pais? Sua família já sabe disso? Seus amigos, verdadeiramente amigos, com certeza já sabem. Te ajudam, são muitas vezes sua base de ser e estar nos ambientes que te trazem felicidade. Você foi contanto aos poucos a eles quando às vezes nem precisava.

Mas a sociedade que te rodeia te aceita? Você está seguro quando quer ser você mesmo na rua? Quando quer sair acompanhado da pessoa que você ama como as demais pessoas fazem pelo fato de se amarem? Me olharão com os mesmo olhos que te olham, leitor?

Você tem noção, leitor, de que toda notícia de criança que apanhou até a morte pelos pais porque havia a suspeita de ela ser gay é um resgate a sua própria infância e de tudo aquilo que você sentia? Que você sabe exatamente como essa criança cheia de dores e de incertezas e precisando apenas de carinho e compreensão estava se sentindo todas as vezes que foi violentada até morrer? Desde o momento que levou as primeiras broncas até o último murro que a matou por quem ela mais esperava compreensão e amor.

Faça uma pausa e tente imaginar a retrospectiva do terror sentido até aqui. A tristeza de todas as noites antes de dormir, os gritos abafados no travesseiro todo dia em que você ouviu um absurdo que jamais seria dito se soubessem o que você sente.

Alguém já suspeitou que você fosse heterossexual?

Alguma vez já passou na sua cabeça, leitor, o que se sente quando sua naturalidade é exposta enquanto desumana? Sabe o que se sente quando as pessoas negam sua existência em par de igualdade com as demais? Eu respondo para você: a gente sente medo. Pavor de que nunca chegue o dia em que suas atrações, jeitos e sentimentos sejam vistos apenas como o que são da integralidade da palavra: atrações, jeitos, sentimentos!

Você acha que apenas ter muitas pessoas que te amam e jamais te rejeitariam ao seu redor impede que a gente viva um terror constante no imaginário de te acontecer o pior assim como milhares dos seus iguais já sofreram? Que isso impede que a vontade é de sumir desse planeta quando pessoas em alto poder de decisão dizem que prefeririam seus filhos bandidos e mortos a serem gays? Que o que você constrói não pode ser considerado família ou que sua existência seja uma vergonha e um risco às famílias consideradas normais?

RISCO! Você, vivendo suas internalidades, suas idiossincrasias sempre tão mais nocivas a você próprio pelos seus medos de se expor do que a qualquer pessoa externa, sendo considerado como RISCO! Abominação diante dos olhos religiosos que se dizem fraternos e de amor.

Olhos de amor e fraternidade sequer deveriam ver qualquer pessoa como abominável? É preferível extirpá-las a encontrar, na sua mente, um espaço para apenas aceitar, tolerar ou como denominar e dizer desde que viva sua vida normalmente como sempre viveu sem interferir nas demais?

Porque sua interferência discriminatória é transformada na violência física que derrama o sangue rotineiramente de uma pessoa LGBT+.
Ora, se você desumaniza alguém, o que ela vale além de um descarte? Além de saco de pancada de quem pensa exatamente igual a você. Sim, exatamente igual! Quem espanca e agride tem o passo a mais do ímpeto da truculência, mas não se engane quanto ao pano de fundo da mentalidade! É a mesma lógica da demonização, da desumanização. NÃO TENTE ME MUDAR!

A violência psicológica da não aceitação nos ambientes de trabalho. Você já viveu isso, leitor? Não poder dizer sobre sua sexualidade por medo de represália ou do julgamento de inferioridade?

A discriminação que joga as pessoas trans num limbo existencial sujo de solidão e aberto ao espancamento.

A sensação de que a família que você construirá nunca encontre terreno pacífico no plano concreto e emocional. A frustração de que as gerações futuras continuem sendo contaminadas com a discriminação e que isso só alonga a dor de quem sente esta dor de que estou te falando.

Você consegue imaginar, leitor, quantas vezes meus olhos se enxeram e quantas angústias revivi para lhe escrever isso?

É para que você sinta. Se coloque no meu lugar. Entenda que empatia tem que estar vividamente no seu dia a dia.Pratique esse exercício de ouvir e sentir. Do contrário jamais entenderá de verdade o choro dos que te rodeiam.

Lembre-se, por fim, que eu disse que você leria um desabafo. Que geralmente minha atitude é a da resistência. Então não se engane quanto a minha certeza de que vivemos momentos melhores do que um dia já se viveu.

Saiba, também, que sobrevivemos até aqui e existimos desde que o mundo é mundo. Que confio na resiliência de quem compartilha na pele meus sentimentos. Que pintamos a história e a mudamos diversas vezes durante a caminhada da humanidade.

Mas sem seu exercício de escutar meu desabafo e levá-lo adiante aos seus círculos sociais e familiares, no seu trabalho, nos embates que você pode nos ajudar a travar, estaremos, eu e meus iguais, relegados a prazo indefinido das dores que te contei.

O nosso caminho é manchado de sangue. Sangue colorido, de todas as cores.

Tem ouro no final do arco íris? Me ajude a encontrar.

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