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O TERNO: ATRÁS/ALÉM

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Por Caio Tolentino (Dorival) – TX

No dia 23/04, uma terça-feira, o pessoal do trio paulistano O Terno (Tim Bernardes, Guilherme Peixoto e Biel Basile) lançou seu 4º álbum, e o primeiro que se pretende conceitual: “Atrás/Além”. Sucedendo o aclamado “Melhor do que Parece” (2016), o novo som parece tanto uma quebra do estilo clássico da banda quanto um aprofundamento das aventuras já realizadas no terceiro disco. Ainda é importante lembrar que ano passado, no meio disso tudo, o Tim, cantor, guitarrista e único compositor do “Atrás/Além”, lançou seu álbum solo “Recomeçar”.

Na verdade, o primeiro single liberado me deu um pouco de medo. “Nada/Tudo” é uma faixa bastante parecida com as músicas do Recomeçar, com ritmo lento, arranjos sinfônicos, piano, falsetes aéreos e, no geral, uma pegada intimista. O medo era de que o novo álbum soasse não como um trabalho da banda, mas sim do Tim acompanhado de figurantes. Ouvindo o disco todo, realmente há uma presença muito grande do cantor, que é autor de todas as faixas e também realiza os arranjos orquestrais, mas a pegada d’O Terno continua ali, com o baixo e a bateria assumindo um papel importante na construção das músicas.

Aliás, vamos falar sobre a pegada do “Atrás/Além”. O som é aquele de pop sinfônico dos anos 60 e 70, que já tinha aparecido no disco anterior em músicas como “Nó”, “Volta” e “Melhor do que Parece”, só que agora muito mais intensificado. As músicas têm todas arranjos orquestrais de cordas e de metais, feitos pelo Tim e belíssimos, dando sempre uma sensação de paz e plenitude. Além disso, a voz do cantor sempre parece ecoar indefinidamente e preencher toda a sala, devido ao uso do reverb. A música que melhor exemplifica esse estilo é a “Nada/Tudo”, já comentada antes.

O estilo rock, seja pop-rock, psicodélico ou blues, é quase completamente abandonado no álbum. Com efeito, nunca se ouve a distorção ou fuzz que eram muito presentes no começo da banda e estavam no “Melhor do que Parece”, mesmo com a pegada pop.

Esse estilo sonoro bem característico e que está presente em quase todas as faixas, na verdade, tem muito a ver com as escolhas líricas e até visuais da banda. Aqui, o amarelo do álbum anterior dá lugar ao branco, que invoca a sensação de alma lavada. As músicas são sempre “good vibes”, e trazem um tipo de filosofia de vida muito bonita: uma aceitação do fluxo natural do tempo que carrega a ideia de que tudo o que passou valeu à pena, mas deve ser deixado de lado para que possamos focar no que importa – o que está por vir a partir de agora. Como, por exemplo, na música “Pra Sempre Será”, na qual o cantor não se aborrece de ter terminado um relacionamento, pois se envolveu verdadeiramente enquanto durou (É bom ter tido um amor de verdade).  Essa é a própria ideia do Atrás/Além, que está presente, de um jeito ou de outro, no álbum todo, junto com outras músicas que também falam de levar a vida com tranquilidade e prestar atenção em si mesmo.

Além disso, o álbum tem um foco também na dualidade e confronto/conformação entre opostos, com músicas que se chamam, além da que dá nome ao álbum, “Profundo/Superficial”, “Nada/Tudo” e “Passado/Futuro”.

Entre as melhores faixas do disco, podemos falar de “Pegando Leve”, o segundo single. Talvez seja a música que melhor une a sonoridade nova com a alma da banda, tendo arranjos de cordas e metais convivendo com o baixo estilo Paul McCartney, a bateria que sabe alternar entre sutileza e empolgação, a voz suave do Tim e a guitarra com bastante reverb. A letra trata da pressão do “jovem anos 10” (engraçado que já exista esse conceito e que eu sinta o pessoal da banda como representantes perfeitos da classe), que tem sempre que administrar o desejo de cumprir com as responsabilidades e realizar coisas importantes com o cansaço, a ansiedade e a sobrecarga. É uma música ótima para o final de um dia de trabalho, que foi como a escutei pela primeira vez

Eu quero tudo, eu/ Quero descansar, mas também quero sair/ Quero trabalhar, mas quero me divertir/ Quero me cobrar, mas saber não me ouvir/ Quero começar, mas quero chegar no fim.

“Eu Vou” é uma música de pegada mais lenta que fala sobre um desejo de levar uma vida mais leve, além de expressar a urgência de viver e aproveitar o que o mundo oferece. É uma das letras mais bonitas, e o verso que termina o refrão é o que mais toca, pelo sentimento de resolução (eu vim pro mundo pra viver).

Não vou mais aturar / Baixo astral na minha vida / Não vou mais carregar / O peso e a dor que não são minhas.

Atrás/Além é a música homônima que expressa a ideia geral do disco (o nome do álbum veio antes da música). Tem um refrão que fala de experiências passadas (Você lembra de mim) e outro que, superando o “atrás”, fala do futuro (você tenta ir além).

No dia que eu fui embora / Resolvi / Deixar pra trás minha história / Descobrir / Entender quem sou agora / Ir e vir / Quem sabe eu vá me encontrar / Por aí

Outra música que se destaca, mas dessa vez por não ter muito a ver com a temática do álbum, é “Bielzinho/Bielzinho”, homenagem ao Biel Basile, baterista do trio e integrante mais recente (entrou em 2015). A levada é de samba/rock estilo Jorge Ben, com letras mais banais e cotidianas, mas que ainda assim dão uma sensação de companheirismo e amizade –  tenho sempre a impressão que seria muito legal dar um rolê com essa galera. E o Biel, obviamente, manda bem demais na faixa.

E quando não está fazendo piada / Agita o baile com a sua batucada / Junto com Peixera, o famoso rei do baixo / Eu canto e toco dando risada

Por final, gostaria de comentar que, apesar de ser bem-sucedido ao trazer um novo estilo para a banda, o ponto mais forte do disco é também sua maior fragilidade. Ao criarem uma obra coesa e com músicas de referências similares, as últimas faixas do disco perdem seu brilho porque o ouvinte já está cansado e tudo aquilo soa um pouco repetitivo. É justamente por isso, aliás, que “Bielzinho” é um grande alívio por quebrar o estilo pop sinfônico/melódico/existencial com uma música leve e distraída.

De qualquer jeito, como primeira tentativa de álbum conceitual é um trabalho muito polido e bem-feito tanto na música, com arranjos orquestrais muito bem colocados e uma boa dinâmica entre o trio, quanto nas letras, que giram sempre nas mesmas temáticas e têm a beleza do olhar do Tim. Uma coisa que me impressiona muito é como as músicas começam tímidas e se desenvolvem para uma intensidade compatível com a reflexão existencial que representam. É um álbum de maturidade, que se pretende mais sério do que os outros já feitos pela banda – perdendo-se, contudo, o humor jovial que lhe era característico.

No fundo, detrás de todas as tecnicidades e preciosismos, o tema do disco é simples e traz uma vitalidade que empolga, me dando por vezes vontade de ir num bar com os amigos ou simplesmente de sair pra uma caminhada. Acredito que essa urgência de viver é o segredo da poesia.

 

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