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A importância de falar sobre outras sexualidades

Por Luiza Monteiro (Katniss) – TIX

           Bom, vamos do começo então. Sempre tive sentimentos complexos com relação a garotas. Queria as impressionar, que gostassem de mim e não compreendia o por quê. Já com garotos era diferente. Existia toda uma cultura ao redor, toda uma necessidade. Ah, os namoradinhos… Qualquer demonstração de carinho ou amizade entre crianças de sexos opostos gerava um comentário e, por óbvio, um impacto nelas.

           No meu caso, ouvir uma frase que indicava a possibilidade de um relacionamento entre mim e outra criança do sexo masculino sempre me constrangia e gerava a expectativa de que deveria existir ali um sentimento entre nós. O tempo foi passando e as meninas começaram a gostar dos meninos. Esse era o assunto do momento e eu, para me encaixar, mentia. Era muito fácil inventar que tinha uma quedinha por algum garoto qualquer da escola e isso me garantia que não era diferente das outras. Que eu era normal. Mas as coisas sempre podem complicar.

           Ficamos mais velhas e os relacionamentos não eram mais apenas bilhetes, conversas e festa junina. Agora existiam beijos, contato físico e envolvimento. E isso era muito mais difícil. Não é que eu não gostasse. É só que não vinha naturalmente. Era custoso se envolver. Por isso, só passei a me relacionar afetivamente muito mais tarde que todas as minhas amigas. Existia uma parte que vinha de dentro: o desejo de ser incluída, de entender do que falam, de entender meus sentimentos. No entanto, tinha uma parte externa, uma pressão, que depois descobri ser a heteronormatividade.

           Ou seja, muito era dito sobre meus relacionamentos ou sentimentos pelos garotos enquanto havia um silêncio sobre tantas questões internas, tantos sentimentos que queria expressar, tantas dúvidas. Será que as outras meninas também sentem vontade de se aproximar? De deixar as mãos se tocarem um pouco mais? É normal?

           E o mais absurdo de tudo isso é que levei muito tempo para cogitar que não fosse heterossexual. Por mais que eu sentisse vontade de beijar mulheres, enxergava isso como um sentimento individualizado dentro do meu eu. Não era parte de mim. Não era uma expressão do que sou. Não era uma sexualidade. Era só uma sensação. E apenas quando as emoções ficaram muito intensas conversei com outras meninas que beijavam meninas e pensei: nossa, pode ser que eu não seja hétero!

           Essa ausência de informação tirou de mim muitas oportunidades de desenvolver relacionamentos mais bem sucedidos, impediu que me conhecesse de forma mais satisfatória. É como se existisse um grande conjunto de sentimentos e momentos que apareceram na minha trajetória que eu não compreendo. Então, há a necessidade de revisitá-los constantemente, refletir sobre o que significam e significaram, dar a eles novos sentidos.

           Com isso, surge uma nova dúvida. Era mesmo isso que eu sentia? Já faz tanto tempo. Seria tão mais fácil se eu tivesse acesso a essas ferramentas para me interpretar na época. Se eu soubesse ao menos um pouco mais sobre sexualidades que divergem da norma, poderia ter me identificado mais com a sociedade, com as pessoas, comigo mesma.

           Por essas razões, é necessário que se fale sobre sexualidades diversas. Existe uma grande necessidade de se identificar dentro de um grupo, de se espelhar em pessoas, sejam elas famosas ou do nosso convívio, que reflitam o que sentimos e como nos enxergamos. Isso não é possível sem que sejam dadas ferramentas para tal. Seja ou através de representações em filmes, livros, músicas, ou através de diálogos nas amizades, nas famílias e nas escolas. Sem que se nomeie os sentimentos e compreenda a existência de outras formas de se sentir, torna-se muito mais difícil se encontrar e se entender.

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