Frames de Ofício

Racismo científico em Django Livre

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Por Thadeu Vilas (Amante) – T XII    

“Django Livre”, de Quentin Tarantino é um filme recente, mas que já é considerado um clássico por muitos. O filme conta a história de Django, um escravo liberto que, sob a tutela de um caçador de recompensas, vai em busca de sua esposa, para achá-la e libertá-la.

O filme foi lançado em 2013 e é ambientado no sul estadunidense (uma área tradicionalmente racista) no pré-Guerra Civil. Entre toda a violência comum nos filmes de Tarantino, uma cena chama a atenção: quando o dono de escravos (e antagonista do longa), Calvin Candie, analisa o crânio de um negro e extrai um pedaço dele, sendo utilizado pelo escravagista para fundamentar a tese de que, naturalmente, a raça negra seria mais submissa e menos inteligente que a caucasiana.

Apesar de não ser apelativa como as cenas de tortura e tiroteios, essa passagem é extremamente importante para a análise da situação dos negros no século XIX. A escravidão ainda não tinha sido abolida na maior parte dos países da América, mas os movimentos abolicionistas começaram a ganhar força em diversos lugares. As elites escravagistas se aproveitaram do frenesi científico presente na época e começaram a apoiar pesquisas que fomentavam a desigualdade entre brancos e negros, não somente como um fator social, mas também biológico. Uma das pesquisas mais conhecidas sobre esse assunto foi a desenvolvida por um médico americano chamado Samuel George Morton, o qual expôs em seu livro “Crania Americana” a teoria de que o crânio de pessoas caucasianas era mais desenvolvido que o de outras raças, pondo-os em uma escala, na qual o crânio menos desenvolvido era o etiópio (que englobava pessoas de origem africana).

Ao adicionar uma justificativa biológica à segregação racial, Morton abriu margem para que os não abolicionistas se sentissem ainda mais no direito de continuar escravizando pessoas negras. Essa tese foi aceita por diversos antropólogos da época devido a qualidade técnica dos desenhos presentes no livro do autor, intensificando ainda mais a dominação branca sobre outras raças.

Infelizmente essa tese ainda se prolongou durante muitos anos e influenciou outras teorias igualmente racistas, entre elas a de Cesare Lombroso. Esse médico se inspirou na análise de crânios começada por Morton e desenvolveu sua teoria do “homem delinquente”: um homem jovem com características físicas negroides. Foi dessa forma que os estereótipos que associam a negritude a violência foram sendo fortalecidos ao longo dos séculos.

A teoria de Morton foi derrubada em 1981 quando o evolucionista Stephen Jay Gould provou que não havia relação entre um tipo de raça e sua inteligência; a de Lombroso caiu rapidamente em descrédito na Europa, mas foi muito aceita em territórios da América Latina. Países onde a escravidão havia sido abolida recentemente e que pretendiam permanecer com o sistema de desigualdade racial utilizaram a tese de Lombroso para validar o racismo, pois aparentava ter um fundo científico.

Apesar de hoje essas teorias não terem mais prestígio nas academias, vê-se que na sociedade elas ainda estão presentes, mesmo que não haja citação do nome dos autores, afinal quando se pensa em um criminoso, a imagem que vem logo à cabeça de muitos (brancos) é a de um homem negro.

Homens negros são desumanizados e transformados em seres de pura maldade e violência, como se a criminalidade já estivesse em seu DNA e se manifestasse exteriormente por meio de seus traços como forma de avisar a sociedade de que aquele indivíduo é perigoso.

Essa mentalidade está espalhada por todo o meio social, indo de uma juíza de Campinas que escreveu em sua decisão que o réu não possuía o “o estereótipo padrão de bandido, possui pele, olhos e cabelos claros, não estando sujeito a ser facilmente confundido”, aos policiais que enquadram estudantes negros voltando da faculdade e às pessoas que atravessam a rua quando veem um negro vindo em sua direção.

A mentalidade social ainda acredita no “homem delinquente” de Lombroso e na “Crania Americana” de Morton e a custo dessa crença, tem-se o sangue negro espalhado pelas ruas e corpos pretos amontoados em presídios.

Tarantino foi muito feliz em colocar essa cena, pois ela elevou o nível de violência do filme a um nível superior, mesmo que essa não tivesse sido bem a intensão do cineasta. Adepto de cenas repletas de sangue e brutalidade, uma cena onde a tensão e o medo são sentidos somente pela atuação de DiCaprio, Quentin colocou a cena de violência mais forte de todo o filme, pois ao contrário de tiroteios que matam 5 ou 6 figurantes, essa passagem mostra elementos que justificaram (e de certa forma ainda justificam) todo o sistema de opressão racial responsável pela morte de milhões de negros ao longo da história. A violência mais assustadora é aquela que não se resume a ficção, mas sim aquela que é sentida no dia a dia.

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