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Sejamos justos em uma conversa franca: você já parou para pensar na solidão da mulher negra?

texto abuPor Isabela Silva (Abusada) –  T XI

Já parou para pensar que o racismo e a dominação sobre o corpo da mulher negra é tão forte e absurdo, que o comportamento padrão do “brasileiro médio” – homem cis e heterossexual – é a hipersexualização e violência dessas mulheres?

Parece abstrato demais colocar essas questões sem apresentar dados que comprovem o que parece ser impensável em pleno século XXI. Entretanto, quando se analisam as pesquisas – diga-se de passagem, muito recentes quando se pensa o recorte racial -, os números revelam que 35% de mulheres negras, a partir de 10 anos, são agredidas por pessoas conhecidas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009.  As mulheres negras representam 58% dos telefonemas para o “Ligue 180”, que visa à proteção e à segurança pública, sendo uma das principais medidas entre os serviços que integram a rede nacional de enfrentamento à violência contra a mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006).

A solidão da mulher negra é uma das mais terríveis construções que o sexismo e racismo deixaram como legado à sociedade, em especial a brasileira. Num país majoritariamente negro, a chefia das famílias não teria um perfil diferente: o número crescente de famílias lideradas por mulheres negras. O Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED) revela que, entre 2000 e 2005, dentre as famílias chefiadas por mulheres, 25,4% eram chefiadas por pretas e 58,7% por pardas, em contraposição a 15,8% chefiadas por mulheres brancas. Mas há de se pensar: por que isso acontece? É ingênuo demais acreditar que essa é a escolha de estilo de vida de milhares de mulheres negras. É simplório imaginar que, num contexto social em que se ganha 40% a menos do que qualquer pessoa (taxa baseada na pesquisa “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça – 20 anos”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea), a mulher negra queira chefiar sozinha uma família inteira, uma vez que vive uma dupla e até tripla jornada de trabalho, mesmo depois de tantas violências!

E ainda sim, questiono: quando foi dado o direito de essas mulheres estarem cansadas e assumirem um papel, não de fragilidade, mas de exaustão, na qual todo ser humano tem? O direito lhes foi negado desde que nasceram. Marcadas pelo sangue e o suor da escravidão. À mulher negra, trabalho. À mulher negra, solidão.

Como foi muito bem dito por Angela Davis em sua obra “Mulheres, Raça e Classe”, não há como falar sobre gênero sem a devida interseccionalidade: os três pilares, gênero, raça e classe não se desassociam; e abordar essa temática numa linha que não seja nesse sentido, é fazer uma leitura rasa e superficial das estruturas que conservam o patriarcado, o racismo e a desigualdade social. Enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito de trabalhar, mulheres negras há muito eram escravizadas e violentadas assiduamente: a elas, a chibatada… e o silêncio.

E nem mesmo o Estado, capaz de agir ativamente na manutenção das desigualdades e no combate à violência e ao racismo, mostra-se preocupado em atender as demandas mais básicas no sentido de garantir a dignidade à vida da mulher negra. Muitas vezes, ao procurar por ajuda, essas mulheres são revitimizadas e taxadas pelos próprios profissionais da saúde como “naturalmente mais fortes”, além de que estes, muitas vezes, se mostram incapazes de reconhecer lesões na pele negra. A elas, nem o direito à dor, ao sofrimento. A elas, o desamparo.

As políticas públicas continuam a ser insuficientes, continuam a manter o maior percentual de brasileiras à mercê de uma rotina de sobrevivência. Isso revela uma postura de descompromisso com o próprio povo, em que o Estado se ausenta de sua responsabilidade diante de uma pauta tão importante, quando deveria assumir o protagonismo de uma postura combativa. Você já imaginou as consequências da disseminação de cultura e educação pela queda do racismo e sexismo?

Estranhamente, isso me soa tão utópico, que faz parecer ridículo se pensar que a dignidade desses corpos e dessas vidas valem a pena. E então eu me recordo da dor e da miséria de analisar as estatísticas. E essa dor vai se aprofundando ao me lembrar que eu faço parte delas.

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