Fanfic

Muito mais do que um touro

Capítulo I (Beth Liz)

– Você vai ver, Beth, sua Coroação é algo que você nunca esquece; agora é quando sua turma realmente vai se formar. Hoje é o dia em que você conhece algumas das pessoas que vão estar mais presentes no resto da sua graduação e até mesmo da sua vida – minha veterana dizia enquanto me sujava de tinta verde.

O quão ruim é o fato de que eu ainda não sei o nome dela? Ou de qualquer outra pessoa da minha Rep ou do curso, diga-se de passagem, ainda acho que essa minha dificuldade de guardar nomes e rostos vai me causar grandes problemas. Mas está tão cedo no curso, não é possível que já aconteça algo grande que me impactaria tanto assim, certo? Espero que esteja certa, quer dizer, eu fui capaz de passar na Fuvest! Também estou capaz de ter o mínimo de noção no que diz respeito às relações humanas. Pelo menos eu espero, ou esses vão ser cinco anos de merda.

– Prontinho!- ela exclamou gesticulando para que eu olhasse para o espelho, minha aparência era deplorável.

– Eu amei! Agora sinto que realmente incorporei a bixete que eu sou! – eu disse tentando não demonstrar como a tinta escorrendo em direção ao meu olho estava me deixando preocupada com minha visão.

Me levantei, arrumando a bata da república e acertando o relógio velho no Bob Esponja que eu usava no pulso. Isso é tão surreal, essa é a minha coroação! Depois disso eu vou ser oficialmente uma estudante de direito, na USP!
-Acho que nenhuma das outras meninas vai querer ir com a gente, Beth – só eu e a veterana, de nome ainda desconhecido, fazíamos Direito na casa, a maior parte das garotas fazia biologia ou farmácia – posso chamar o Uber?
Eu assenti com a cabeça enquanto corria para a cozinha atrás de um copo d’água, não queria passar mal na primeira festa do meu curso. A viagem de Uber até a república onde a coroação seria foi bem rápida, o motorista foi o caminho todo tagarelando com minha veterana enquanto eu olhava pela janela no banco de trás, não sei se já gosto dessa cidade. Ribeirão Preto parece um queijo suíço recém saído do forno com seus buracos infinitos e calor infernal, não é meu tipo de ambiente de jeito nenhum.

Dentro da festa, ela me puxou direto para onde estavam servindo os destilados e acenou na direção de uma bebida avermelhada com um sorrisinho sádico.

– Essa, é a Balalaika. Ela é a bebida do Direito, e hoje vai ser sua melhor amiga.
Eu ri, tirei minha coroa do copo azul que haviam nos dado na entrada, e o entreguei para o garoto que servia as bebidas. Minha veterana pegou a coroa e colocou na própria cabeça como uma brincadeira, ela me deu um olhar nostálgico e depois de um longo suspiro disse:
– Passa mais rápido do que você imagina, Beth! Você tem que aproveitar mesmo esse ano, essa emoção de coisa nova, essa fome – pelas festas, pelas aulas, pela própria USP – ela some num piscar de olhos, aproveite seu momento de agora, ele vai definir o resto da sua graduação.

Um pouco constrangida pelo clima pesado, eu peguei o copo de Balalaika que meu veterano me estendia e levei a bebida aos lábios. Não era ruim; era péssima. Doce demais, como um remédio. Além do gosto forte de algo que lembrava demais aquele pozinho de Morango Tang, o que eu particularmente odiava muito. Dei outro gole maior enquanto andávamos em direção a uma rodinha de veteranos que acenavam para minha “mãe”, não era porque cada gole daquilo me fazia sentir como se eu engolisse Césio que eu pararia de tomá-la. Eu sou uma bixete, se não for agora para ficar doida e fazer merda então quando?

Senti uma mão no meu braço e me virei, acreditando ser algum dos outros bixos com quem eu tinha feito amizade no Dia Zero, infelizmente, não era.
– Sabe, nos bons tempos eu faria uma bixete linda como você pegar tantos disquetes que você não conseguiria carregar mais nada.

Era aparentemente um veterano, ele parecia bem mais velho do que a maior parte das pessoas ali e usava uma bata suja de república, seu sorriso me fez sentir a pouca Balalaika que tinha bebido voltando para minha boca.

– Vai tomar no cu, Massa. Você é absurdamente babaca, sabia disso?

O garoto riu com escárnio.

– Ficou bravinha? – ele ergueu o queixo – só porque você não é bonita o suficiente para ouvir uma cantada dessas? Relaxa! Eu sou de fazer caridade, você ainda tem uma chance comigo.

Juro que vi um relance de lágrima de formando no rosto da minha veterana, que fazia seu máximo para manter sua face impassível. Não conseguimos responder o garoto; alguém o puxou, para longe, enquanto os amigos da minha “mãe” o xingavam a plenos pulmões.

– Você tá legal? – Ela me perguntou enquanto me olhava de cima a baixo, como se a babaquice do garoto pudesse ter grudado em mim de alguma forma visível, ainda era perceptível como ela tentava ao máximo parecer alheia ao que ele tinha dito.

– Eu to ótima, e você?

Ela assentiu com a cabeça, me puxando pela mão para me encaixar direito na rodinha dos seus amigos. Havia alguns bixos na rodinha, todos com seus respectivos veteranos. Uma garota de quem eu havia ficado “amiga” bêbada no Dia Zero veio até mim e me abraçou, nós dançamos juntas naquela roda de veteranos por um tempo, até que – aos poucos – acabamos numa rodinha só de bixos. Um dos bixos na rodinha estava particularmente deplorável; ele usava um vestido de senhora e tinha seu cabelo pintado de cores vibrantes. Tirando isso, seu rosto era bonito, mas ele não parecia o tipo de pessoa de quem eu me aproximaria numa situação normal. Eu me lembrava vagamente desse bixo no Dia Zero; me lembro dele com seus veteranos na piscina nojenta de onde aconteceu a festa, ainda não acredito que isso não lhe deu um terceiro braço. Aquela piscina estava o puro nojo e radiação, tem que ter muita coragem pra pular naquele negocio.

Eu já estava bem bêbada, no meu quarto copo de Balalaika, e me sentia particularmente sociável.

– Oi- eu disse, chamando sua atenção – porque você está vestido assim?

-Ah, é uma coisa da minha rep – ele apontou para a bata que usava por cima do seu vestido e que dizia “República Parmalat”- é nosso trote de bixo, tipo a tinta que a sua passou em você.

Eu ri da nossa situação.

– Você ri, mas pelo menos seu apelido não é ridículo igual o meu; me chamada de Úlcera! – ele disse entre risadas.

– Acho que um apelido de merda ainda é melhor do que apelido nenhum, não? Ainda não tenho, então pode me chamar de Beth Liz!

– Prazer, companheira acadêmica Beth Liz – ele disse fingindo um semblante sério.

– O prazer é todo meu, companheiro acadêmico Úlcera – o Úlcera torceu o nariz quando eu disse seu apelido e depois gargalhou; ele também parecia muito bêbado.

Nós dois continuamos conversando e dançando juntos, eu tinha a impressão de que nos daríamos bem.

–  Atenção, bixos! – gritou uma voz por cima da multidão – hora do seu juramento!
Eu me ajoelhei ao lado da minha veterana – que parecia significativamente mais emocionada do que todas as outras pessoas ali. Eu me esforcei em vão para repetir o que meus veteranos e colegas de sala diziam, mas as palavras eram praticamente indissociavéis e eu acabei só movimento meus lábios e torcendo com todas as forças para que ninguém percebesse. Senti a coroa escorregando pela minha testa e se arrastando na tinta, eu já estava muito bêbada e, consequentemente, muito feliz.

– Beth! Beth! – Eu ouvi a voz do Úlcera gritando.

– Agora somos bixos oficialmente! – eu disse numa voz muito feliz.

Ele riu e começou a se aproximar de mim, estávamos perto de um pilar e a multidão que antes no cercava começava a se dispersar para os outros cantos da festa. Senti o pilar contra minhas costas e a boca dele já quase tocava na minha.

– Eu posso te beijar?

Olhei para cima e acenei com a cabeça, ele riu e me beijou.

Acho que já haviam se passado alguns bons minutos quando percebi uma certa comoção a nossa volta.

– Já disse que não fiz nada! – disse uma voz masculina cheia de raiva.

Me afastei do pilar e percebi que as pessoas a nossa volta pareciam chocadas com algo, era perceptível como os vários grupos de antes tornaram-se duas aglomerações distintas. Eu não conseguia ver quem era o centro de uma delas, mas estava claro que a outra organizava-se em volta do garoto babaca do começo da festa; o Massa. Me desvecilhei do Úlcera, que também parecia preocupado com a comoção.

– O que você acha que aconteceu? – eu perguntei um pouco assustada.

Ele deu de ombros com as duas sobrancelhas levantadas enquanto se dirigia ao grupo que concentrava-se em torno do Massa, eu fui para a outra roda. Com certa dificuldade, consegui desviar das cabeças que obstruíam minha visão e fui capaz de ver o que se tratava o centro da comoção; uma bixete chorava.

– Mas o que aconteceu? – indagou uma veterana com a coroa de flores brancas do Capitu.

– Ele…ele – a bixete não conseguia dizer uma sílaba sequer sem soluçar.

– É, não acredito que esse babaca assediou outra menina desse jeito – cochichou alguém próximo a mim.

– Inacreditável, será que dessa vez vai acontecer alguma coisa com ele? – respondeu uma veterana com a voz cheia de desgosto.

– Duvido – a primeira pessoa disse, quase que num suspiro.

Fiquei algum tempo na roda, até mesmo cheguei a dar um abraço na garota. Ela pareceu melhorar quando o coletivo disse que providências seriam tomadas e que tudo ficaria bem.

– Beth, temos que chamar o uber.

Era minha veterana, eu a segui a contragosto porque não queria deixar aquela menina. Mas ela não estava sozinha, então achei que ficaria tudo bem. Na entrada, o Úlcera cuidava de um bixo dando PT sentado na sarjeta, eu me sentei do lado dele.

– Que merda, né? – eu tentei puxar assunto.

– Ah sim, foda a situação do Massa – ele deu de ombros.

– Do Massa? Aquela garota foi assediada! – me indignei.

– Olha, eu conversei com ele e agora sei que a situação também não foi assim como estão contando, foram muito sensacionalistas com essa história toda. Não que o Massa não tenha sido um babaca, mas também não foi pra tanto.

Que merda aquele garoto estava falando?

– Beth, o uber está aqui temos que ir – chamou minha veterana.

Me levantei, irritada.

É, eu ia ter que desinfetar minha boca.

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