x

Crítica de “Sombrou Dúvida” de Boogarins

Resultado de imagem para sombrou dúvida boogarins

Por Sócrates – TXII

Boogarins continua sua evolução em Sombrou Dúvida. Desde o primeiro disco, o elogiadíssimo As Plantas que Curam (2013), o quarteto baiano vem inovando em sua discografia, sempre buscando inovações, para não cair na repetitividade, mas ao mesmo tempo sem perder sua essência musical.

Quando comparado à obra anterior, Lá Vem a Morte (2017), o disco atual mostra-se muito mais “clean”, com uma sonoridade um pouco mais leve e que permite a compreensão integral dos versos cantados por Dinho Almeida, versos estes extremamente existencialistas, que fazem a reflexão da atualidade e as dificuldades que muitos estão sentindo.

O disco é aberto pela ótima As Chances, uma música que cresce de maneira lenta e gradual, com os acordes de guitarra guiando a poesia melancólica sobre a aceitação da própria existência (As chances de eu fugir daqui / São nulas / Eu já sou quase um encosto / E o fundo do poço é em mim).

Indo de uma psicodelia mais frenética para outra mais calma e refrescante, surge a segunda canção do álbum: Sombra ou Dúvida. Um dos momentos mais altos do trabalho possui um refrão de fácil memorização, o que ajuda a aproximar o ouvinte da obra (E eu desconfio dos hábitos / E eu boto fé no viver ávido).

Já na terceira faixa, Invenção, o ritmo acelerado volta a ganhar corpo, mas agora ele vem alternado entre momentos de euforia e de contemplação. Algo interessante nessa música é a reutilização de versos da música anterior (Existe um desgaste do novo / Se repete e dá nojo / E isso você não quer ver / Existe um deslumbre dos bobos / Fajuto e grandioso / E isso já engole você). Antes, esses versos poderiam ser sobre a superficialidade das relações humanas, mas nessa faixa eles já podem ser interpretados como a cobrança por renovação que todo artista possui. Isso só mostra a capacidade de ressignificar que esses artistas possuem.

Na quarta faixa, Dislexia ou Transe, aparece um elemento inusitado: a viola caipira, a qual dialoga com as guitarras ao longo da canção, criando uma melodia interessante e ao mesmo tempo, ligeiramente, estranha. Seguindo para a quinta faixa, A Tradição, tem-se um retorno do Boogarins antigos: produção e atmosfera pesadas com letras tristes.

A sexta música, Nós, talvez seja a mais experimental do álbum inteiro. Sons tortos e metálicos introduzem a canção e permanecem constantes durantes os 3:40 da canção. Esse instrumental acompanha uma letra que reflete sobre um relacionamento fracassado e juntos criam uma das músicas mais melancólicas, e bonitas, do trabalho inteiro (Por todo esse peso / Que existe em mim mesmo / E eu frito isso, isso, isso, isso / Isso que é nó / E é isso que somos nós).

Na sétima faixa, Tardança, as guitarras crescem e diminuem constantemente, gerando uma sensação de incerteza para o ouvinte, e ainda cobrem um diálogo em que a parte mais audível é simplesmente um “É isso?”. Quando a faixa termina, abruptamente, logo começa Desandar, a balada do álbum. Uma canção com levada guarânia, a oitava faixa traz uma poesia existencialista e perturbadora, que juntamente com a instrumentação leve (que só cresce nos momentos finais) criam um ambiente doloroso, mas paradoxalmente acolhedor. “Um gozo escondido na dor / E a vista daqui / Diz que eu posso me jogar / Ser quem eu sou / Um belo horror / Viver, eterno desandar”.

Nos aproximando do final do disco, encontramos a nona e a décima faixa. Te Quero Longe é uma música que traz a reflexão de um relacionamento que não deu certo devido as grandes diferenças entre o casal, mas o ressentimento deu lugar à compreensão, resultando em uma poesia bonita sobre maturidade emocional, que é acompanhada por um instrumental leve, mas que explode nos momentos finais. Em Passeio, a eletrônica ganha destaque, e os sintetizadores criam uma atmosfera de descontração, destoando um pouco do resto do trabalho, mas fechado bem o álbum.

Sombrou Dúvida é um trabalho repleto de sobreposições vocais, camadas instrumentais, sons tortos e ruídos assim como os antigos da banda, mas com diferenças na concepção, gravação e, até mesmo, estruturação. A falta de um conceito explícito para interligar as músicas não é sentida, pelo contrário, deixa uma obra tão sombria mais divertida. Outro detalhe da obra é a reciclagem de versos e samples (como o sample de Princesa, de Carne Doce, no refrão de Invenção), que criam uma desconfortável familiaridade no ouvinte, como se estivéssemos presos em um labirinto criativo. Enfim, qualquer trabalho desse quarteto goiano é denso e para ser apreciado e entendido, precisa ser ouvido mais de uma vez, por isso, se você já deu uma chance para Boogarins e não gostou, que tal reouvir? E para aqueles que nunca tentaram ouvir, espero que um dia vocês experimentem a neo-neo-psicodelia presente nos trabalhos desse grupo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s