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Crítica CMBYN

critica CMBYN

Por Flávia Gomes (Dora) – T XII

Meu primeiro contato com “Call me by your name” (Me chame pelo seu nome) se deu através das telas de cinema. Lembro-me de sair tocada da sala de cinema por diversos fatores, mas mais principalmente por conta da singelidade com a qual o filme é feito. Quando descobri que o filme era, na verdade, baseado no livro, não demorou muito para que eu quisesse lê-lo.
De fato, se há uma palavra para descrever o livro, essa palavra é singelo – desde a forma de escrita, até o enredo em si e todos os cenários por ele construídos -, afirmo com segurança que “Call me by your name” é poesia em forma de prosa. Se sentir tocado por Oliver e Elio é inevitável. Como o próprio Elio afirma, se referindo a Oliver, “todos haviam sido conquistados”, digo aqui que não há maneira de não se ser conquistado pelo romance de André Ciman.

Mas se tem outra palavra que define tal livro, essa poderia muito bem ser “descoberta”. É impressionante a capacidade com a qual o autor consegue relatar o processo de descobrimento, e posterior aceitação, da bissexualidade de Elio. Mais do que isso, a forma como o enredo é construído é capaz de nos transmitir todos os conflitos vividos pelo protagonista, sem perder a originalidade de um jovem de 17 anos. Para além da perspectiva de descoberta sexual a qual o livro se propõe, essa não é o único “descobrimento” feito – porque, em um segundo plano muito bem explorado, está a perspectiva de descobrimento sobre você mesmo e todo o mundo ao redor.

É importante salientar aqui que o livro se ambienta na Itália, em 1983, e é por isso mesmo que as reflexões feitas são, ao mesmo tempo, necessárias e atuais. Durante todo o percurso do livro, Elio é mostrado como um adolescente um tanto quanto prodígio. Filho de pais que são professores universitários, o quase adulto já leu praticamente todos os grandes clássicos, consegue tocar de Mozart à Brahms e é capaz de tirar uma partitura inteira de uma música, somente ouvindo-a. Apesar disso, ao conhecer Oliver, ele percebe que nem todo o conhecimento existente provém dos livros (ou da música) e que a realidade fala mais por si mesma do que qualquer autor jamais poderia fazer. Sua auto contestação sobre sua falta de conhecimento é definitiva quando o mesmo afirma, para o próprio Oliver que “se você ao menos soubesse o quão pouco sei sobre as coisas que realmente importam”. É assim que André Aciman é capaz de nos fazer refletir sobre nossos próprios conhecimentos, e mais além, até que ponto estamos focando em uma “única vista”, enquanto o mundo é um “horizonte completo”.

Acredito que a maior dificuldade ao ler o livro é entender a ordem que os fatos acontecem. Nesse ponto, o diretor do filme merece todos os Oscar’s possíveis. André Aciman faz questão de escrever o “Call me by your name” de uma maneira não linear, vagando entre os momentos de descobertas de Elio, sua relação com sua família, seu romance com Oliver, de uma maneira que você compreenda que está tudo interconectado. Para falar a verdade, só fui me dar conta que a maneira de escrita era assim proposital do meio para o final do livro, quando o próprio Elio afirma que “Eu sabia que nossos minutos eram contados; mas não ousava contá-los, assim como não sabia para onde tudo aquilo estava levando, mas não queria ler as placas. Houve um momento em que, intencionalmente não joguei migalhas para marcar o caminho do retorno; em vez disso, comi todas.”

Por fim, destaco aqui a maneira poética que “Call me by your name” envolve o leitor, fazendo com que nós não só torçamos por Elio e Oliver, mas também sejamos capazes de desfrutar igualmente de um café da manhã mal interpretado e um banho no rio bem planejado.

“Veio. Foi. Nada mais tinha mudado. Eu não tinha mudado. O mundo não tinha mudado.
Ainda assim, nada seria igual. Tudo o que nos resta é o sonho e a estranha recordação.”

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