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Viagem de ônibus

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Flávia Gomes (Dora) – TXII

Quem me conhece sabe que eu gosto de conversar. Acho que começar dizendo isso é importante, porque se não fosse essa característica, muito provavelmente eu não estaria aqui, contando isso. Pois bem.

Era uma sexta-feira, quando a conheci. Estava sentada no ônibus para o centro, esperando o motorista voltar do ponto do HC para seguir caminho. Ela se sentou do meu lado, com uma criança de 4 anos no colo. Adoro crianças, então na mesma hora me virei para falar com o menino, muito fofo por sinal. Entre perguntas de “qual seu nome?” e “que desenhos você assiste?”, ele dormiu, o que acabou culminando no início da minha conversa com a moça sentada do meu lado.

Tinha 20 anos. O menino no seu colo era seu irmão, não moravam em Ribeirão, mas estavam ali por conta do Hospital. Sim, porque a cidade em que moram não tem hospital e a criança estava com dores fortes na barriga, já tinha tempos, e os médicos da cidade local nem sabiam o que eram, nem tinham aparelhos para descobrir. Daí para frente, foi uma sucessão de trocas entre mim e ela – e muito obrigada, moça, por isso.

Estava ali com o irmão porque a mãe trabalhava todo dia, das 8 às 20h, e o pai deles tinha morrido anos atrás. Me disse que começou a trabalhar cedo, “foi o jeito”, depois da ida do pai. “Mas pelo menos eu consegui completar o colégio, sabe moça?”, me disse, orgulhosa de si (e tinha todos os motivos para estar mesmo). Mais revelações – tinha uma filha de 3 anos, que estava com a vizinha. Engravidou durante o terceiro ano, com 17 anos. E eu, com meus 18, sem conseguir me imaginar na mesma situação. Mundos distantes. O pai da filha foi preso,pela terceira vez, quando estava com quatro meses de gravidez. 5 anos de pena. A filha nunca conheceu o pai.

Nesse ponto da conversa, eu já estava sensibilizada. Não tinha como não estar. Porque, claro, eu tenho consciência dos privilégios que me rodeiam, das realidades que outras pessoas vivem. Mas uma coisa é você ler sobre isso, ver uma reportagem, analisar uma pesquisa do IPEA. Outra coisa é sentar e ver isso ser jogado na sua cara, as 17h de uma sexta feira, quando você só estava pensando em chegar em casa, tomar um banho e descansar um pouquinho. Mas a parte mais impactante não tinha sido dita até então, porque ali, sentada do meu lado, tinha uma moça com sonhos. E me contou pelo menos um deles.

Sonha em fazer odonto. “Gosto muito da área , quem sabe um dia”. Mas me disse que só tinha feito um Enem na vida, “porque aí teve minha filha, ajudar em casa”, e não tinha ido muito bem, “o problema todo é redação, não tive aula de redação no ensino médio”. Se você chegou até aqui leitor, deixo para você essa reflexão: quantas aulas de redação para o Enem ou Fuvest você teve? No meu colégio, só durante o terceiro ano, eram 4 por mês (e depois você me diz que cota não devia existir, há!). Me disse que cursinho era caro, mas que estava pensando em assinar um online, e ver se esse ano ia. Encorajei, mas, depois, fiquei pensando: quanto tempo ela teria para estudar de fato, com trabalho, irmão e filha?

Ela desceu com o irmão no ponto da rodoviária, ainda iam enfrentar mais 2h de ônibus até chegar em casa. Me despedi com um “foi muito bom te conhecer”. E foi mesmo. Desci dois pontos depois, agradecida pelo encontro. Tem coisas que crescem a gente.

Naquele dia, repensei tudo e todos que estavam a minha volta. A USP é uma bolha. Percebi isso na minha primeira semana. Se eu e essa moça estivéssemos em uma corrida, eu estaria a 500m dá minha de chegada, e ela, a 3km. “É só ela correr mais”, você pode pensar. Mas minha pista estaria com pequenas pedras, enquanto a dela teria buracos, rochas enormes pelo meio e algumas outras coisas. E você, que está lendo isso, muito provavelmente estaria na mesma pista que eu. Minto. Caso você seja homem, provavelmente estaria uns 200m da chegada.

Moça, em certo momento da nossa conversa, você me disse que me achava muito corajosa – “você veio de tão longe? Só para estudar? Você é corajosa viu, de ficar longe de tudo” – e eu agradeci, com um sorrisinho. Mas hoje, gostaria de dizer que discordo. Você é muito mais corajosa do que eu jamais poderia ser, e espero que continue sendo. Se um dia você ler isso, espero que seu irmão esteja bem e que você esteja na faculdade. Como você mesmo disse, quando seu ponto estava chegando, “quem sabe um dia eu não te atenda, de jaleco” .

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