Fanfic

Úlcera

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Olha a vergonha que eu vou passar! Sério que vou ter que vestir essa roupa??

Claro, mano. Todo bixo que entra aqui na rep precisa; é a tradição nossa. Mas ninguém liga muito, bixo. E você já passou vergonha pior.

E fui então, meio contrariado, para a Coroação dos bixos. Só esperava não estar sendo feito de trouxa quando prometeram que iam me pagar uma breja se eu usasse aquela roupa para o trote.   

Ô, Úlcera, vê se não vai dar PT monstro, que nem no Dia Zero!

Não mano, dessa vez eu não vou beber até morrer. Já que hoje vai ser especial, eu quero me lembrar dessa Coroação daqui uns anos.

Respondi isso para ele, e ainda tive que ouvir retrospectiva minha do Dia Zero, justamente porque eu não lembrava de quase nada. Puta que pariu.

Você tava muito hiperativo, mano. Tentou subir no telhado, quase caiu; fez questão de se sujar inteiro; brincou na piscina como se não houvesse amanhã (mesmo estando um lixão líquido aquela água). Na metade da festa já estava mais loko que o Batman, e depois que a gente voltou pra rep, você ainda vomitou no chão da sala, escorregou no próprio vômito, aí…

Tá, tá bom! Só isso que eu lembro… Aí o Massa cascou o bico, e eu comecei a xingar tudo e todos com a voz mole quase morrendo, falei algo de úlcera, e por isso que ele me apelidou assim. O pior é que o apelido pegou né?

Foi a terceira vez naquela semana que precisei interromper meus amigos da rep quando resolviam contar o que fiz no Dia Zero. Foda é que eu só estava aceitando o apelido de Úlcera porque eu não gostava do meu próprio nome.

O Uber havia estacionado, a festa só estava começando. Eu estava calculando quantos copos eu conseguiria beber sem perder a memória depois, e também não apagar. Eu também queria sair da seca, já fazia alguns meses que eu só pensava em estudar para a FUVEST e me tornei aquilo que eu mais temia: o nerd antissocial pau no cu sem amigos. Pelo menos agora não preciso mais disso.

Logo eu fui vendo que a rep era uma vibe bem diferente do condomínio em que eu morava antes da faculdade. E eu tava fazendo de tudo para não parecer aquele engomadinho da canela branca. E aquelas festas já estavam me ajudando na desnutellização. Pelo menos isso.

Comecei a conversar com alguns colegas de sala que ainda nem tinha conversado. Alguns veteranos também vieram falar comigo. Resolvi esperar uma hora de festa para começar com a Balalaika, que eu ia experimentar. Eu só torcia para que ninguém viesse me falar de alguma merda que eu fiz no Dia Zero e não lembrava.

Eu, por vezes, até esquecia da roupa do trote. Só sabia que ainda ia ter muito rolê pela frente, então talvez nem ia fazer diferença o vestido que meus veteranos me colocaram, nem meu cabelo semi-raspado e as cores que o pintaram. Eu indagava comigo mesmo se eu acabei traumatizando alguém no Dia Zero com algo que fiz e não me recordo.

Quando eu já estava bem enérgico, veio uma mina com cara pintada puxar assunto comigo. A Beth Liz. Se falei com ela não me lembro, mas ela me ativou uma lembrança do Dia Zero. Ela me olhava naquela situação deplorável e ficava rindo, ela tolerava meu nível de retardo. Naquele dia bati o recorde, talvez fosse até bom que eu tivesse esquecido de quase tudo, para não ficar com as costas calejadas de tanta vergonha para carregar.

E ela veio falar justo da roupa. Já fiquei com a dignidade quase no chão. Mas já que ela compreendeu, bateu uma química. Comecei a desenrolar mais assuntos, tentando dar a impressão de que eu era minimamente sério. Mas comecei a zoar a Beth por causa da bebida; cada gole uma careta. Eu não estava conseguindo segurar o meu lado zuero.

Vira! Vira! Vira!

É forte!

Faz pouco tempo que você bebe, né?

Sim, comecei esse ano.

Eu também era assim no começo, toda bebida tinha gosto de Chernobyl. Mas depois acabei gostando.

Chernobyl hahahaha! Nossa que pesado.

Eu comecei com uns 16 anos, então já estou até meio acostumado. Então a de hoje to conseguindo apreciar.

Eu estava desenrolando bem. Achei que ela nem ia me dar moral, por causa da roupa. Mas tudo bem, ela já viu coisa pior de mim e ainda não me julgou. Depois chamaram a gente para a nossa Coroação. Eu fui para um lado e chamaram a Beth para outro lado; não prestei atenção onde ela tinha ido, mas me ajoelhei para o Massa e outro veterano me coroarem. Repeti comigo mesmo mentalmente: melhor ser chamado de Úlcera do que pelo seu nome de vedade. Vai acostumar sim.

Terminado o ritual, fui procurar a Beth Liz de novo. Senti que ela estava disposta. E os dispostos se atraem. Nem precisei falar algo genial, foi só aplicar o princípio do grupo revelação: deixa acontecer naturalmente. Às vezes funciona, né? Então se seguiu com ela aquele beijo bem gostoso, de lamber os beiços (literalmente).

Espero continuar falando com ela daqui para frente. Eu ainda estava brisando na Beth Liz, quando começaram a tretar por causa do Massa. E era de novo por causa da mesma pessoa que ele queria pegar no Dia Zero. Fiquei meio perdido, mas ele me disse que foi mal interpretado aquela vez. Eu nem sabia o que falar sobre o Massa, só que já faltava menos de uma hora para terminar a Coroação, sem contar que um amigo da rep tinha começado a dar PT, e era a minha vez de retribuir os cuidados que ele me deu no Dia Zero.

Quando ele já tinha expelido até as tripas para fora, veio a Beth Liz de novo falar comigo. Comentou justo sobre o Massa. Fiquei hesitante em defendê-lo: ao mesmo tempo que ele já foi cuzão comigo, ele me ajudou outras vezes.

Mas acho que ela não gostou do que eu falei. E ainda por cima nem deu tempo de consertar, já estava de saída. Que merda. Justo a Beth Liz, que parecia que ia dar tão certo. Nossa, que lixo que eu sou, estrago tudo!

No dia de aula depois da Coroação, resolvi puxar um pouco de conversa com a Beth, fiquei até meio vermelho achando que ia levar alguma patada gratuita, mas não. Ao invés disso, ela foi me respondendo meio seca, sem graça. O meu desejo era de repetir com ela a Coroação, mas parecia que não ia rolar mais nada. A USP não precisa destruir tão rápido assim o que o amor constrói. Deixa os mlk brincar.

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