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A Viagem de Chihiro e a Importância do Nome

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Thadeu Vilas (Amante) – TXII

“O seu nome é Chihiro? Que espalhafatoso. A partir de agora, seu nome é Sen”. E é dessa forma que termina o primeiro diálogo entre Chihiro e Yubaba que rendeu para a pré-adolescente – e protagonista da animação- um emprego na casa de banho.

            A Viagem de Chihiro (2001) é um dos filmes mais amados do Studio Ghibli e rendeu um Oscar de Melhor Animação para o japonês Hayao Miyazaki. A animação conta a história de Chihiro, uma pré-adolescente que acaba de se mudar para um distrito diferente no Japão e por um desvio na rota, ela e sua família acabam presos em um mundo alternativo repleto de espíritos e magia (o nome em inglês, “Spirited Away”, ilustra bem a fantasia presente no filme).

            Nesse mundo paralelo, existe um casa de banho administrada por uma feiticeira, a Yubaba. Os espíritos mais famosos e cheios de prestígio vão a esse estabelecimento para relaxar e lá são atendidos por mulheres – aparentemente humanas- e criaturas encantadas, como sapos do tamanho de pessoas e com intelecto humano. Além dos funcionários regulares, há também o Haku, o ajudante de feiticeiro de Yubaba e quem acaba por servir como protetor da protagonista após os pais dela terem sido transformados em porcos por terem comido a comida dos hóspedes.

            Haku tenta ajudar Chihiro a escapar do mundo paralelo antes que fosse tarde demais, mas com a jovem tendo falhado em fugir, ele acaba por tentar proteger a humana da única forma possível: arrumando-a um emprego. Após a tentativa inicial falhar, resta para a garota negociar com a própria Yubaba para conseguir trabalhar e, dessa forma, não ser transformada em porca também. Porém, essa vaga tem um preço: Yubaba muda o nome de Chihiro para Sen.

            À primeira vista, esse detalhe parece irrelevante, até mais tarde Haku aparece para “Sen” e diz que seu verdadeiro é Chihiro e pede para que a garota nunca se esqueça dele, pois a feiticeira controla todos na casa de banho por ter seus nomes, inclusive o próprio Haku.

Interessante como algo que, aparentemente, é tão pequeno era, na verdade, a fonte do controle da feiticeira. Mas parando para se analisar bem, na verdade tal fato faz muito sentido.

Nosso nome é a forma pela qual nos reconhecemos e queremos que os outros nos reconheça. Nosso nome nos acompanha desde o nascimento e é reforçado constantemente em todas nossas interações sociais. Muitas vezes conhecemos o nome de alguém sem nem mesmo conhecer a fisionomia da pessoa – após ler tantas citações presentes em artigos científicos, quem sabe o rosto de pelo menos 80% dos autores já lidos? -. Para pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele designado em seu nascimento, o nome assume papel fundamental na forma pela qual ela deseja ser identificada, e por esse motivo a conquista do nome social é tão importante para travestis e transexuais. O nome está no centro das relações humanas e uma bruxa controlar todos os seus funcionários por meio da apreensão de seus nomes não é tão absurdo assim.

É importante também que haja a reflexão de que, metaforicamente, o que ainda ligava Chihiro ao mundo onde pertencia era seu nome, e alterá-lo era uma forma de transicioná-la para onde estava residindo.

Após experiências que obrigaram Chihiro a amadurecer, a garota viaja para encontrar a irmã gêmea de Yubaba, Zeniba, numa tentativa desesperada de salvar a vida de Haku. Após ser aconselhada pela boa feiticeira e Haku aparecer transformado em um dragão para leva-la de volta à casa de banho a fim de ajudá-la a recuperar seus pais, a jovem volta voando e no caminho de retorno, Chihiro tem flashbacks de quando era criança e se perdeu em um rio, e nisso acaba por perceber que a familiaridade que ela tem com o aprendiz de feiticeiro se dá por este ser o espírito rio que a salvou do afogamento, e que hoje não existe mais pois seu lar foi aterrado. Ao perceber tal coisa, ela diz a Haku seu real nome: “Ah! Lembrei do nome do rio! Se chamava… o nome dele era… Kohaku! Seu verdadeiro nome é Kohaku!” e nisso, o controle de Yubaba sobre Haku se quebrou de vez. Somente por saber seu nome real, Kohaku foi capaz de saber quem realmente era e conseguiu fugir da maldição da feiticeira que o manipulava.

            Com isso, vemos que, dentre todas as interpretações e analogias possíveis de se fazer com tal filme, A Viagem de Chihiro mostra como algo que muitas vezes passa como irrelevante é na verdade importantíssimo; e é estranho pensar que mesmo com toda essa importância, a maior parte dos nomes das pessoas não foi escolhida por ela própria. Apesar de causar estranheza – como é falado em Ladybird (2017) -, talvez não seja uma causa pela qual valha a pena debater para todos os casos, afinal, para pessoas cisgêneras, manter o nome dado por seus pais é mais cômodo e a mudança, muitas vezes, é vista como desnecessária e mesquinha. Contudo, para transgêneros no geral, a alteração de seu nome significa assumir o controle de quem eles realmente são, logo é uma pauta extremamente válida.

            Enfim, o filme deixa uma reflexão sobre como a nossa individualidade e pessoalidade são atreladas ao nosso nome e que nunca devemos abrir mão dele se a vontade não partir exclusivamente de nós mesmos. Afinal, é como Zeniba mesmo disse: “Chihiro é um belo nome! Cuide bem dele, ele é seu.”.

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