x

Os Monstros que Habitam o Lado de Lá

Aculturacao2.jpg

– Pedro Borda

Há pouco fui acometido por um desses deslizes cotidianos e, agora, em meio a folhas de papel, celular e notebook encontra-se uma poça d’água, resultado do meu próprio descuido. Tão logo estiquei o braço para pegar minha caneta, esbarrei no copo. Confesso que não é a primeira vez que isso acontece, como sei também que não será a última. Acontecimentos como esse nos afetam no presente e, talvez, até mesmo no futuro, a depender do líquido derramado e o local em que ele respinga: uma mancha de café, por exemplo, pode gerar um tremendo desconforto durante o resto do dia, coisa que prevemos de antemão no momento do deslize.  Em todo caso, não refletimos sobre esse fenômeno com atenção e, de imediato, afirmamos que se trata de fruto do meu descuido, ou melhor, daquilo que é socialmente concebido como “Acaso”. É importante que se atente ao socialmente concebido.

Existe um caso muito famoso na literatura antropológica, relatado pelo antropólogo E. E. Evans-Pritchard. Dentre outras coisas, ele analisa a questão da bruxaria muito presente entre os Azande, um povo do Sudão, e chega a uma conclusão fascinante ao refletir sobre o tratamento dito mágico que esse povo dá a alguns acontecimentos cotidianos, como em certa medida, é o que contei.

Os Azande constroem abrigos suspensos a alguns metros do chão sobre vigas de madeira, sendo que é um costume comum para eles o de passar um tempo embaixo dessas estruturas, hábito esse amplamente difundido também entre os cupins da região. Assim, é notável que muitos desses abrigos acabem por despencar em cima daqueles que estiverem por ali, fruto da própria ação natural. Não é exclusividade dos ocidentais o conhecimento acerca dos hábitos biológicos desses animais, ou seja, sua avidez por madeira. Pelo contrário, os Azande são grandes conhecedores do tema. Mas se tem algo que é exclusivo para nós é a noção do Acaso. O que levou determinada pessoa a estar debaixo daquele abrigo no exato momento em que ele despenca? Aquilo que estaríamos tentados a chamar de Acaso ou coincidência, os Azande poderiam classificar como produto de bruxaria, que usa a natureza, por assim dizer, para provocar certos efeitos. É ela quem provoca essas relações de coincidência que esmagam certas pessoas. Tudo isso para poder dizer que há muito de socialmente concebido em nossas noções, tal como a de Acaso, tendo em vista que ela explica tanto quanto, por exemplo, a noção azande de bruxaria nesse caso. No entanto, mesmo sabendo disso, acabamos por optar pela explicação da coincidência, mesmo que ela explique tanto quanto ou até menos sobre o “por que” desses fenômenos menores.

É aí que entramos na questão de como a ciência explora esses impasses ao lidar com as produções reflexivas desse Outro, o “primitivo”, o “irracional”, o “pré-lógico”, o “mágico… Este é o ponto central sobre o que eu gostaria de refletir aqui: é muito instaurado em nosso senso comum a ideia de um processo de “aculturação”, isto é, que os indígenas brasileiros, por exemplo, diante de um contexto de exploração dos seus recursos e “inserção” na nossa sociedade tenderiam a um processo de aculturação encerrado com a perda suas culturas. Ora, por um lado, é inegável que essas práticas cada vez mais latentes e atuais de ataque aos direitos indígenas são prejudiciais, mas por outro lado, é preciso ter em mente a capacidade de inventividade das tradições. A capacidade que elas têm de inventar e reinventar modos de vida, mundos, costumes, cosmologias. É preciso entender que nesse contato inerente dos indígenas com o Outro, o resultado não necessariamente é o apagamento da sua cultura, mas muito mais uma reinvenção. Em um breve parêntese, é importante apenas que se respeite e se assegure a possibilidade de que isso seja feito de acordo com o modo que lhes convenha. Dito isso, é fundamental não cair em nenhum destes equívocos: o primeiro, de que existe algo como cultura intocada e que ela deva ser preservada em sua forma “pura”, como se fosse possível falar de pureza cultural, e, segundo, que esse contato intercultural atua somente unilateralmente – e esse segundo ponto será basilar na análise que quero oferecer.

Algo que tenho percebido nas falas cotidianas é um tipo de discurso que dá um tratamento a essas narrativas que traz por base a ideia implícita de “aculturação”. Muito se discorre sobre “o que será desses índios cada vez mais deslocados do seu estilo de vida original?”, como se o acesso a computadores, celulares, roupas e coisas do gênero fosse produzir um deslocamento cultural, um processo realmente de aculturação. Não creio que funcione dessa forma, sobretudo se pensarmos o contato intercultural de maneira multilateral em que os dois lados acabam por estabelecer reflexões que colocam em cheque os paradigmas epistemológicos do outro. É claro que é natural que se acabe por pensar no apagamento da “identidade indígena” diante desse contexto, mas ao mesmo tempo é subestimar a capacidade inventiva de suas tradições e, também, de suas contribuições com relação ao nosso próprio pensamento dito científico, moderno, avançado. Além da questão dos Azande, eu gostaria de exemplificar toda essa argumentação através da análise de alguns elementos do folclore indígena e como a nossa ciência tem sido forçada a lidar com essa outra realidade para sugerir o inverso do que o senso comum tende a observar. Ao invés de pensarmos os indígenas tendo que conciliar as suas cosmologias quando encontram nossa verdade científica, eu gostaria de analisar como nossa ciência reage ao entrar em contato com esses outros conhecimentos.

Para ilustrar a situação, eu trago a lenda do Mapinguari, uma criatura mais antiga do que a própria humanidade, embrenhada nos confins da Amazônia. Os Karitiana, que habitam o norte de Rondônia, contam sobre essa criatura peluda, com garras e uma enorme boca centralizada no abdômen: “Mapinguari vive também na Serra Morais. (…) O bicho da Serra do Morais se transforma em gente quando encontra alguém, conversa com pessoa e depois come seu espírito; a pessoa volta na aldeia, fica doente e morre”. Esse caso é muito eficiente para explicar o posicionamento da ciência moderna diante dessas histórias, conforme indica o estudo de Felipe Velden, um antropólogo brasileiro. Existem duas possibilidades diante desse contato: ou a ciência aceita essas narrativas enquanto simbólicas, ou as trata como “imagem mítica de uma realidade científica”, nos termos do autor. Isso seria equivalente a dizer que está fora de questão tratar o Mapinguari enquanto real. Na verdade, se ele passa a ser tratado enquanto real só o é enquanto “imagem mítica de uma realidade científica”, tendo sua existência localizada no mundo científico, implicando que ocorre ali entre os indígenas uma espécie de má-interpretação dessa realidade por lentes mitológicas, por uma cosmologia própria.

            O Ocidente – entendido aqui como uma tradição de pensamento científico e empírico específico – ao optar pela via citada, ou seja, aquela de reconhecer o estatuto real da criatura, porém tentando explicá-lo pelos nossos saberes, funda a pseudociência da criptzoologia. Nessa verdadeira ciência dos monstros, mais do que simplesmente tentar investigar os monstros em sua real existência, o que se observa é o pressuposto implícito de que a realidade só existe enquanto nós a concebemos. E dentro de nossos paradigmas teóricos, epistemológicos e etc., monstros não existem: não há Pé-Grande, não há Monstro do Lago Ness, não há fantasmas, não há Mapinguari algum. Assim, esses relatos e transmissões ditas “folclóricas” são reduzidas a equívocos de observação e interpretação. O Mapinguari alcança o estatuto de real, mas trata-se, esses criptozoólogos diriam, dos remanescentes de uma preguiça gigante pré-histórica que habitou a região num passado remoto. Semelhante tratamento é seguido nas interpretações de diversas outras figuras do tipo, como o já citado Monstro do Lago Ness, que muitos dizem ser uma espécie de dinossauro aprisionado no lago.

            Para concluir esse texto, faço uma breve recapitulação do que defendo. Antes de mais nada, que a ideia de uma aculturação diante do contato entre povos não existe e, ainda que se entendesse essa ideia enquanto simples modificação cultural, teríamos que pensá-la enquanto uma via de mão dupla, mas é recorrente a ideia de que nesse contato entre indígenas e “nossa civilização” eles são os únicos forçados a alguma modificação, quando, na verdade, não é assim que a coisa opera. Na minha visão, essas alterações se dão em duas direções e o que tentei demonstrar através da apresentação do Mapinguari é que essas sociedades colocam questões para nossa tradição de pensamento difíceis de serem respondidas, perguntas que colocam em cheque muitos dos nossos axiomas. Pensar que isso não acontece, ou, repetindo, acontece em um único sentido, é subestimar a força e a inventividade que essas culturas têm e é também apostar demais no caráter incontestável do nosso saber, quase supondo que qualquer um que entrasse em contato com a nossa Verdade seria convencido por ela, pois aqui reside a verdadeira verdade. Em síntese, do lado de cá está a nossa ciência e do lado de lá, os monstros. Mas toda essa interpretação que damos das cosmologias outras talvez acabe por nos revelar algo ainda mais surpreendente: que é do lado de cá que estão os monstros.

            

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s