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Bacurau

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Julia F. Gallo (Post) – TXII

Um caminhão pipa, um típico cenário do sertão cearense e os primeiros relances de elementos distópicos característicos do enredo compõe a cena que abre o primoroso Bacurau.
Um filme que transborda brasilidade; Bacurau é uma cidade que -mesmo já inserida num contexto tecnológico que familiariza seus moradores com elementos tecnológicos como drones, tablets e computadores avançados- orgulhosamente pulsa cultura sertaneja, algo demonstrado pelas menções frequentes do seu “Museu Histórico de Bacurau” e seu profundo respeito pelos personagens mais velhos (algo demonstrado bem no início do filme, com o velório de Dona Carmelita), são poucos os personagens que funcionam individualmente no filme -são muitos os nomes e o foco da narrativa muda de forma rápida demais para que se consiga de fato decorá-los- o protagonista é inequivocamente a cidade como um todo, os moradores da cidade consistem muito mais em estereótipos que auxiliam na sua construção do que em entidades com consciência e anima próprios.
Ainda em respeito à cidade em si, um dos diálogos mais emblemáticos do filme diz respeito ao nome da cidade (homônimo ao do filme); uma forasteira do sudeste pergunta à uma moradora o que “Bacurau” significava, o diálogo segue:
“-É um passáro.
-Passarinho?
-Não, um pássaro grande.
-Mas está extinto, não?
-Não, aqui não…ainda tem bastante, mas só sai de noite. É um pássaro muito bravo”
Um ponto muito importante do filme relaciona-se com isso; o pássaro supostamente extinto e subestimado é uma alegoria perfeita da própria cidade; subestimados e taxados como algo próximo de “selvagens indefesos” é justamente algo que todos julgavam extinto (no filme; a herança do cangaço) que dá forças para a cidade e seus moradores derrotarem os antagonistas quando saem “de noite” (na surdina) e provam a força que ainda tem.
O cangaço a que me refiro no parágrafo anterior é um elemento que deixa uma marca profunda em Bacurau; há um personagem que funciona como uma releitura de um cangaceiro: Lunga é um dos personagens chave no contra-ataque organizado pela cidade é marcado pela sua postura de anti-herói e roupas peculiares, ele é procurado pelo governo da distopia por ir contra um regime (aparentemente autoritário), ele e seus seguidores parecem compor uma célula guerrilheira e são profundamente respeitados pelos moradores do vilarejo e temidos pelos políticos da região.
Distópica ou não, Bacurau ainda é o país de hoje e sempre; os políticos fazem sua participação na cidade da forma mais conhecida pelo sertão,com práticas eleitorais ilegais e promessas de compensações em troca de votos e uma postura de absoluto poder de vida ou morte sobre os seus “súditos”. É extremamente interessante a sensação deixada pelo conjunto dessas práticas e organização social coronelista adaptadas ao século XXI (com propagandas eleitorais digitais, jingles de campanha chiclete e promessas de coisas como um melhor sinal de telefone na área) e a releitura do cangaço, é maravilhosa a forma como Dorneles e Mendonça Filho são capazes de nos escancarar como mesmo num futuro, o Brasil real – o do interior, do sertão, com suas fortes raízes culturais- ainda tem exatamente a mesma essência que tinha em 1950.
O filme também exalta esse Brasil real e sua cultura pulsante de todas as formas possíveis: se o que salva os moradores de Bacurau é o seu conhecimento -e orgulho- da própria história é a falta desses que acaba por matar os personagens brasileiros do Sul e Sudeste. Estes se veem mais nos estrangeiros brancos do que nas pessoas pardas e negras do pequeno vilarejo, inclusive chegando no ponto de um sulista dizer que era “alemão” e não como os moradores de Bacurau, não um brasileiro, e sim um filho de imigrantes. É essa falta de consciência cultural e síndrome do vira-lata que os mata. Da mesma forma que os personagens que tentam abandonar os outros moradores em tentativas egoístas de salvar a própria pele acabam.
Bacurau é, em síntese, um manifesto anti-colonialista que nos alerta; apenas com conhecimentos e orgulho da nossa cultura e com unidade temos a força para ir contra um regime carniceiro e sair vitoriosos.

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