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Sobre Ser uma Mulher Machadiana na FDRP

mulher machadianaTamiris Lima – TXII

Poderia aqui cair no clichê brasileiro, e por vezes terrivelmente brega, de me descrever como uma mulher com “olhos de ressaca”, mas antes que caia nesse gravíssimo erro (que por sinal seria imperdoável para um texto escrito no templo do saber, no reduto do preciosismo linguístico, na última instituição que ainda valoriza o uso do “destarte” e que sentencia à morte o mau uso da retórica), gostaria de, antes de mais nada, me comparar à minha mulher machadiana favorita (desculpa se parece falta de modéstia, é que a licença poética é minha), e talvez a que menos receba fama. Sou Sofia. Li Quincas Borba pela primeira vez aos treze anos, quando ainda estava desenhando meu projeto sobre mim mesma, quando ainda olhava para as selfies orkuteiras das protoinfluenciadoras digitais do início dos anos 2000 e só via cabelo liso e olhos claros sob uma pesada camada de rímel e uma pele muito branca que refletia o flash da câmera digital Cannon parcelada em dez vezes. Eu não era isso. Eu era uma adolescente cheia de espinhas, com um T.C.N.I. (tipo de cabelo não identificado) e que começava a me revoltar por ser um tipo tão comum, por ter um rosto e um corpo que passavam despercebidos em qualquer lugar. E de repente, eu a encontrei! Encontrei Sofia, meu projeto de mulher. Eu, no meio de tantos rostos parecidos… Sim, era eu que tinha olhos grandes e escuros como os de Sofia.  Ela que não rouba a cena na obra, assim como eu não a roubo na vida; ela que é tida como apática por críticos literários (homens, claro), mas é quem move as peças do tabuleiro. Foi assim que comecei com a minha transformação em mulher machadiana: de Virgília carrego a confiança na própria sexualidade e uma vivência dos desejos de forma natural e de Capitu não trago aquele olhar de cigana, mas a coragem de enfrentar o mundo masculino de igual para igual. Elas me completam.

Claro, toda essa exposição gratuita não é tão gratuita assim, há um objetivo nisso tudo (acredite!), inclusive acompanhado de um bom café, de uma tentativa desesperada (e fracassada) de encaixar conjunções pomposas em um texto de conteúdo simples (desculpem a singeleza da linguagem, companheiros acadêmicos, ainda estou começando) e a vontade louca de colocar alguma palavra do juridiquês nesse texto. Eis que chega o objetivo: vamos parar de falar de mim e falar um pouco mais de vocês, caros leitores. A FDRP para você, leitor, é um ambiente de constante construção do saber, de projeção de voz e de total liberdade para a formação da sua imagem imponente de paladino da justiça (fica aqui a sugestão de usar cueca sobre a calça social para que realmente todos saibam que ao seu lado só anda o Super-homem). Você, ó futuro jurista, não vê seu colega de classe só interromper a fala de professoras mulheres na sala de aula e se calar diante de professores; você não vê os seus companheiros sanando as dúvidas das alunas mesmo quando a pergunta não lhes foi direcionada; você fecha os olhos para os olhares julgadores que as mulheres recebem quando rastejam suas nádegas ao chão ao som de “sapequinha mostra esse poder…” em ambiente de interação universitária.  Sabe quem vê? Exato! Mulheres machadianas.

Poderia escrever mais alguns parágrafos sobre como um curso extremamente tradicionalista e afeiçoado ao falo alheio oprime as mulheres; poderia tecer mais e mais teses sobre como todo dia é uma luta para não se deixar diminuir diante de tantos discursos que te reduzem, que te questionam; sobre não darem importância à sua complexidade, sua intelectualidade, mas elevarem à categoria de assunto a quantidade de celulites na sua coxa ou, ao contrário, sobre como sua capacidade é constantemente colocada à prova justamente por se estar dentro dos padrões esperados. Como disse, não quero cair em clichês e também não vou bradar “avante, mulheres!” ou terminar com “seguiremos resistindo”. Vou me conter a apenas dizer que eu continuo sendo Sofia.

 

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