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Crítica de “Norman F*****G Rockwell”, Lana del Rey (2019)

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Thadeu Vilas – TXII

Após 2 anos desde seu último lançamento (Lust For Life, 2017), Lana del Rey surge com o excelente Norman F*****g Rockwell. Depois de seu primeiro disco (Born To Die, 2012) ter sido um sucesso comercial, porém um fracasso de críticas e ter gerado diversos comentários negativos sobre a cantora, Lana começou a produzir trabalhos mais consistentes e a expandir sua identidade musical, mas tentando nunca perder sua essência, e é em sua mais nova obra onde seu objetivo é alcançado.

Fruto de uma parceria com o produtor Jack Antonoff (responsável pelo memorável Melodrama, 2017), Norman F*****g Rockwell mostra Lana no seu auge artístico, apresentando elementos já conhecidos, só que de uma forma não usada anteriormente – por exemplo, a mudança em relação ao patriotismo como reflexo do momento político atual do país -. Com o lançamento do primeiro single da era, Mariners Apartament Comples, del Rey afirmou que o novo álbum apresentaria elementos que lembrariam os veteranos Red Hot Chili Peppers, mas a realidade é que a obra se mostra mais como uma pintura em que Lana está no centro e tem como fundo Lou Reed e Patti Smith.

O álbum começa com a faixa que dá nome ao trabalho: Norman F*****g Rockwell, uma balada composta principalmente por piano e violino que possui uma das poesias mais intimistas da carreira da cantora. Uma faixa leve, mas que mostra um lado de Lana que nem sempre é explorado: o mais realista, o que abre mão de parte do glamour – não completamente, claro – para apresentar a mulher por trás das coroas de flores e dos cigarros. Tal proposta apresentada na faixa de abertura consegue ser sentida ao longo do restante do disco.

Graças a essa mudança de ponto de vista, temas que foram frequentemente explorados pela artista ganharam uma nova profundidade: o amor e o coração partido. Músicas como Born To Die, Blue Jeans fizeram a cantora ser famosa por seu “jeito triste” de ser e Video Games deu o apelo romântico necessário, porém, apesar de muito adoradas, nenhuma das 3 músicas consegue soar orgânica – o que não necessariamente é ruim, já que é nítido que essa não era a intenção da cantora -. Porém, tal estética continuou a ser mantida, ou levemente mudada, nos álbuns seguintes, causando certo sentimento de cansaço. Mas em Norman F*****g Rockwell esse sentimento desaparece, dando lugar para a empolgação. Versos como “There’s things I wanna say to you, but I’ll just let you live / Like if you hold me without hurting me / You’ll be first who ever did”, da caótica Cinnamon Girl ou “I said “Don’t be a jerk, don’t call me a taxi / sitting in your sweatshirt, crying in the backseat / I just wanna dance with you” de Happiness Is A Butterfly mostram uma Lana cantando para o ouvinte sobre as dificuldades de se apaixonar novamente após relacionamentos tortuosos ou de construir relações na contemporaneidade com uma veracidade raramente vista nos trabalhos anteriores.

Contudo, o que mais impressiona nesse trabalho é como a artista se distancia do amor romântico e alcança um certo amor universal, um amor empático. Em Mariners Apartament Complex, Lana canta “And who I am is a big time beliver / That people can change, but you don’t have to leave her”, mostrando possuir grande esperança nas pessoas e em California canta “You don’t have to be stronger than you really are”, mostrando apoiar suas pessoas amadas. Inclusive, uma mudança nítida nas composições é a posição masculina, pois enquanto anteriormente parceiros românticos com hábitos autodestrutivos ou tóxicos eram romantizados, dessa vez Lana reconhece os problemas do parceiro e se mostra disposta não a aceitá-los, mas sim a ajudá-lo a se libertar das amarras impostas pelos padrões de masculinidade do patriarcado. Porém, ao mesmo tempo em que Lana é apaixonada pelas pessoas, ela reconhece que elas a ferem no momento em que canta “They mistook my kindness for weakness / I fucked up, I know that, but Jeasus / Can’t a girl just do the best she can?” ainda em Mariners Apartament Complex e também mostra sua preocupação sobre os rumos que o mundo está tomando na ótima The Greatest, que reúne a nostalgia com o medo do futuro.

Ao longo de 13 faixas, a obra passeia por cacos de coração partido que se refazem e se quebram novamente num fluxo ininterrupto até chegar na derradeira Hope Is A Dangerous Thing For A Woman Like Me To Have – But I Have, onde a cantora abandona terceiros e canta somente sua vida, sem amantes ou ídolos, somente Elizabeth Grant (nome real de Lana del Rey) falando aos ouvintes sobre o que ela passou nos últimos anos, sua relação com a fama, sua relação com a mídia e, principalmente, sua relação consigo mesma. Uma balada extremamente sensível onde a artista reconhece que não é triste, mas também não é feliz, porém se mostra esperançosa de que um dia consiga ser aquilo que deseja. Após se jogada num mar de críticas negativas, ser massacrada pela mídia e por pessoas normais nas redes sociais, Lana ainda consegue manter sua esperança viva e forte.

Norman F*****g Rockwell é a obra mais completa, coesa e profunda de Lana del Rey, onde podemos observar nitidamente seu amadurecimento como artista e como pessoa. Longe de clichês – pelo menos na maior parte do tempo, salvo em alguns “deslizes” -, a cantora nos mostra uma faceta mais real e orgânica de sua personalidade, o que cai completamente bem após tantos excessos empregados nas obras anteriores. Com a poesia mais afiada do que nunca e uma produção sóbria e eficaz, Lana conseguiu entregar a apoteose de seus trabalhos e mostrou para aqueles que a chamaram de “um mero produto para as massas” o motivo de ainda continuar na carreira musical.

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