x

As Cigarras Avisam

Resultado de imagem para pinturas de cigarras

Phillippe Rouffy Muniz

Sob um céu de verão que se apaga aos poucos, as cigarras cantam a chegada dessas belas mulheres a esse pequeno e charmoso parque dedicado a um certo Saint-Saëns, e decorado pelos desejos sensíveis de um dirigente grandiloquente perdido nos séculos da história. As duas moças caminham de braços dados. A primeira é ruiva e tem os olhos cor de opalina. As flamas que saem de seus cabelos mostram que ela não é daqui. A segunda, menor de tamanho e com os cabelos castanhos, enfeitiça sem esforços um passante com seus olhos cor de ametista. Uma brisa leve levanta delicadamente as pontas de seus vestidos coloridos que seguem o movimento de seus cabelos ao vento.

– O que você tem? Você não tem certeza de sua escolha?, Marguerite pergunta inquieta.

– Não sei se é possível ter certeza de nossas escolhas. Eu sou apaixonada por ele, é por isso que tenho dúvidas. Não sei se é possível confiar cegamente em nossas paixões. Eu preciso me confessar, Margot diz emocionada.

– Não, não precisa. Não devemos nunca revelar os negócios do coração, nem que seja a um padre. Seu futuro marido é uma pessoa incrível.

– Eu sei, eu sei. Ele é. É que tenho medo do futuro. Eu tenho medo de me arrepender, não porque não tenho confiança nele, mas porque não sei se eu tenho confiança em mim.

Foi então que as belas moças perceberam que um homem de tamanho médio e com cabelos castanhos as observava. Elas passaram na frente de uma velha acácia que servia de apoio ao rapaz. Ele as cumprimentou.

– Boa noite, moças. Vocês são muito jovens para passearem sozinhas. Ainda por cima, é perigoso com todos esses doentes no mundo. Vocês querem que eu as acompanhe?

– Não é necessário, moço, Margot lançou de maneira polida mas fria.

– Não, Margot! O rapaz deseja nos acompanhar. É muito gentil de sua parte, não podemos recusar a honra, disse Marguerite pegando o braço do homem: e então, o que você faz dessa vida danada?, a bela ruiva sorriu para o rapaz.

– Bem, eu sou aprendiz de curtidor. Trabalho com curtume.

– Que emprego interessante!, entusiasmou-se Marguerite e ainda sorridente ela acrescentou maliciosamente: você gosta de peles?

– Não aquelas de onde trabalho. O cheiro é difícil de suportar, moça. Eu não te convidaria para esse lugar, ele lançou uma piscadela.

– Ah, nem mesmo se eu colocar folhas de menta em meu nariz?, a bela ruiva fingiu estar envergonhada. 

– Você realmente conhece o trabalho, exclamou o jovem rapaz.

– Porque eu adoro as peles. Ainda mais quando elas estão livres dos pelos para virarem couro! Eu adoro os animais!, disse a bela ruiva enquanto acariciava delicadamente os finos pelos do braço de seu interlocutor.

 O garoto sorriu um pouco incomodado e disse a elas:

– Perdão, eu não perguntei qual era o nome de vocês.

– Eu que tenho que pedir perdão, como sou mal-educada, Marguerite respondeu colocando a mão sobre a boca, eu sou Marguerite e a muda é a Margot. E você se chama Henri. E você é um bon vivant. Enfim, você acha que é. O bon vivant não precisa violentar as mulheres e matá-las.

Depois dessa última palavra, Marguerite desatou a rir. De repente, o barulho das cigarras, até então harmonioso, tornou-se ensurdecedor. O violino natural delas lançou uma orquestra majestosa. Um leve barulho de xilofone que parecia sair de debaixo da terra acompanhava a música. Os cabelos ruivos dessa bruxa brilharam como se tivessem substituído o papel de um sol que já havia partido. Margot, até então discreta, tocou as notas no ar com seus dedos finos e delicados.

O estuprador soltou um grito e correu em direção a uma das entradas do parque. Mas as acácias se multiplicaram pelos lados e uma enorme figueira apareceu na saída do local. As pálpebras do assassino começaram a pesar, e virando para a única saída – onde estava a primeira acácia – ele avistou um lago que não estava lá antes. As duas belas moças, tão pudicamente vestidas, estavam agora nuas e mexiam seus corpos com sensualidade na água límpida e banhada de vitórias-régias dançantes. A orquestra atingia seu clímax. O maldito gritou com toda as suas forças e se jogou na água.

Enfim, o canto de um galo ressoou na água e tudo voltou ao status quo, mas sem o som das cigarras.

– Só você para me animar, Marguerite! Margot riu lançando seu olhar violeta em direção ao primeiro raio de sol.

– Você vai se casar, minha bela!

E as duas belas moças saíram do parque de braços dados, sob um olhar distraído de um sapo marrom que estava ao abrigo do sol pois uma velha acácia o protegia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s