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THE HOURS E O RETRATO DA DEPRESSÃO

the hours

Por Thadeu Vilas (Amante) – T XII

           O filme The Hours (2002) retrata as 24 horas de três mulheres de gerações distintas, mas que estão conectadas de alguma forma graças ao romance Mrs Dalloway, sendo elas: a própria Virgínia Woolf (autora da obra) em 1923; Laura Brown (que lê a obra ao longo do filme) na década de 50 e Clarissa Vaughan (que além de compartilhar do mesmo nome da protagonista do livro, também possui comportamentos semelhantes a mesma) em 2001. Porém, não é somente o romance de 1925 o único ponto de ligação das personagens: todas são afetadas pela depressão e tiveram de lidar com o suicídio de alguma forma.           Virgínia (interpretada por Nicole Kidman) é a primeira personagem apresentada. Na época em que é retratada no filme (1923), ela já tinha depressão (mas devido ao período de tempo em que vivia, foi diagnosticada com “histeria”) e seu médico a receitou ficar em um lugar bem longe da agitação da capital britânica, fazendo com que seu marido se mudasse com ela para o subúrbio. Porém, essa não era a vontade da escritora. Ela queria continuar onde a vida pulsava e seu isolamento forçado somente piorou sua condição. Perda de apetite, insônia, baixa autoestima, Virgínia apresentava todos esses sintomas. Sem ter sua voz ouvida e arrastada para uma vida que não queria ter, a personagem continuou a definhar mais e mais, já tendo tentado duas vezes antes o suicídio, até que anos mais o realiza de fato. Das três mulheres, é a senhora Woolf que manifesta a depressão em sua forma mais clara, porém as duas próximas vem para mostrar que a patologia pode se manifestar de várias formas e atingir as mais diversas pessoas.

            Avançando para a década de 1950, conhecemos a personagem de Julianne Moore, Laura Brown. Laura possui uma vida comum: uma casa boa, um filho que a ama, um marido amoroso e com um bom emprego, e ela está grávida da próxima criança. Tudo parece se encaixar tão perfeitamente que seria difícil imaginar que uma pessoa com uma vida tão perfeita pudesse ser depressiva, mas essa doença tem mais motivações do que se pode imaginar. Na realidade, a senhora Brown não está satisfeita com sua atual vida, não sentindo que pertence ou que é digna de tê-la. Por mais que se esforce, ela não consegue sentir-se feliz com as coisas ao seu redor. Porém, não havia espaço para a manifestação de sentimentos de tristeza ou descontentamento, fazendo com que a personagem guardasse para si toda a sua angústia, até que todas as emoções suprimidas a afogam em um quarto de hotel. Nesse mesmo quarto, Laura pensa em cometer suicídio, mas desiste de pôr fim a sua vida e bola um plano: assim que der a luz a seu bebê, ela abandonará sua família, plano que acaba cumprindo. Enquanto Woolf foi privada de convívio, Laura optou por se isolar das pessoas ao seu redor.

            Por fim, já em 2001, temos Clarissa Vaughan, interpretada por Meryl Streep. Clarissa é uma mulher moderna casada com sua companheira Sally há 10 anos e possui uma filha. Porém, as 24h que são abordadas acontecem quando ela prepara uma festa para seu amigo (e ex-namorado) Richard, escritor que irá receber um prêmio por sua obra, mas que está morrendo de AIDS. Proativa e protetora, Clarissa aparenta estar bem, mas sofre em silêncio e sempre se ocupa para não lidar com suas emoções. Sua ligação com a obra de Woolf se dá por ela ser a personificação da protagonista do romance, fato que Richard sempre faz questão de lembrar. Assim como Clarissa Dalloway, Clarissa Vaughnan “sempre está dando festas para cobrir o silêncio”. A nostalgia, o sentimento de que nunca mais conseguirá ser feliz e a responsabilidade que sente por Richard (devido a sua frágil condição de saúde, Clarissa sempre está a cuidar dele) fazem com que ela afunde, mas ela se recusa a encarar o fato e cada vez mais se aprofunda no convívio social para evitar ficar consigo mesma. O momento em que Clarissa mais quebra é quando Richard se suicida bem em sua frente, ao se jogar da janela. Vaughnan viu uma das pessoas mais importantes de sua vida ir embora para sempre. Ela poderia terminar como Virgínia e também optando pelo suicídio, ou como Laura e acabar fugindo das demais pessoas ao seu redor, mas Clarissa possui algo que suas antecessoras não tinham: compreensão.

            Antes, sentimentos como a tristeza tinham que ser suprimidos e a depressão não era tratada como uma doença e sim como fraqueza. Porém, com o passar do tempo, começou-se a naturalizar que pessoas não são felizes constantemente e que a saúde mental é tão importante quanto a física. Clarissa encontrou em sua filha e sua esposa o apoio emocional que necessitava no momento mais crítico, enquanto as duas anteriores nunca o encontraram.

            Perto do final, é revelado que Richard é o filho mais velho de Laura. O abandono que sofreu da mãe refletiu em sua personalidade e em sua obra literária. Vivendo uma vida complicada, tomando diversos remédios para as doenças advindas do HIV, e mais comprimidos para controlar a ansiedade e depressão, Richard desempenha um papel importante, não só pelo carinho mútuo entre ele e Clarissa, mas também por ser o personagem que dá voz aos sentimentos que as protagonistas tanto guardam. Ele mostra toda a sua raiva, sua tristeza, seu descontentamento, sua dor. Porém, tendo desistido da vida e se achando um fardo para Clarissa, Richard acaba por se suicidar, apesar das súplicas de sua amiga para que não o fizesse.

            The Hours é um filme que mostra que a depressão possui diversas formas e muitas vezes está mais próxima de nós do que realmente parece. E apesar de Virgínia e Richard terem escolhido o mesmo destino, Laura e Clarissa optaram por seguir caminhos diferentes. Ao abandonar a sua família, Laura fala que precisou fazer isso, pois ela “escolheu a vida”, apesar de não ter pensado nas consequências que tal atitude geraria, e Clarissa parece que finalmente está disposta a seguir com sua vida. Laura não tomou a melhor decisão possível, mas a época em que vivia não lhe permitia procurar caminhos mais saudáveis para melhorar. Já Clarissa possui tanto apoio emocional das pessoas que ama quanto uma sociedade mais naturalizada com tal patologia e que possui meios de tratar a depressão.

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