Saúde Mental · Semana temática na FDRP · Texto da semana

Como você cuida de uma planta?

cacti-gardening-grow-707194

Por Luísa Nunes Estácio – Psicologia (UFSC)

Vestia-se um dia abafado pela avenida. O típico dia em que se nota a fantasia guardada que a cidade urbana tem de ser praia: os prédios ao longo da rua pegavam mais cor para dourar seu cinza, bicicletas suavam, perambulavam óculos escuros, águas e sorvetes como artefatos preciosos em mãos e rostos. Eu tomava café no meu copo térmico. Sem açúcar, sem leite e quente – ao menos estava com os óculos escuros. Caminhava a passos preguiçosos em companhia dos passos de um amigo da faculdade, Antônio. Eis que passamos por uma vitrine larga, com seus vidros limpos, que 1 mostrava diversas plantas pintadas alegremente de verdes viçosos e amarelos pontilhados. Os passos de Antônio são capturados pela vitrine junto com seu olhar, e como bom Antônio, em 23 segundos já estava com palpites sobre o que faltava em relação ao cuidado das plantas. Com o espírito de pai que sente que seus cuidados precisam se estender, enuncia que queria mais plantas. E aí começamos um diálogo que foi basicamente assim: – Sabe que eu adoro plantas, mas não consigo cuidar delas mesmo quando tento. Posso olhar várias referências no Google, perguntar pra minha vó mas no fim elas morrem. Te juro, até cactus já matei. Após a confissão do meu crime, Antônio meio sorri, meio ri, dizendo: Mas cactos às vezes engana e pode ser que estivesse vivo, só que doente. – Será que assassinei duplamente a planta então? Porque acabei abandonando-a no fim. – Olha, é possível. Que merda. Essa é a parte em que sinto a “culpa do por pouco” – ela é pequenininha mas tem presença, e é como quando você por um pouco salga muito a comida ou quando a sessão do filme já começou no cinema e você perdeu os primeiros minutos. – E como você cuida das tuas plantas? Você aprendeu de que jeito? – Cuidando. Vendo o que ia acontecendo com as quantias de água, conversando com elas pelas manhãs, nutrindo de vez em quando a terra… – Mas como perceber esses detalhes? Realmente não sei muito ou quase nada de plantas. Nesse ponto ele já deu uma risada de toda a minha persistência neurótica dos cuidados receitados: – Olha, se você cuida todos os dias, começa a entender, a olhar com mais atenção e aprende de acordo com cada planta. Aprende a ver quais lugares da casa elas se sentem melhor experimentando lugares distintos pra elas; aprende a saber quanto de água de acordo com a terra, com o aspecto das folhas; é preciso decifrar para ir agindo. E se por um acaso algo não funciona, basta experimentar outra coisa. Mais do que ver as instruções, você tem que tentar conhecer para fazer algo.

Ah Antônio, que genial. Simples e preciso. Clac. Uma chavinha vira na cabeça. Na verdade várias. Mais do que ver as instruções, você tem que tentar conhecer para fazer algo. Sair da zona do mundo ideal e mexer o corpo, sacudir ideias e usá-las. E por isso, preciso explicar: eu adoro planos. Quase o mesmo tanto que das plantas. Tanto que às vezes faço listas de listas que tenho que fazer. Dessas já acumulei 3 no bloco de notas do celular. Mas não só adoro planos: eu me interesso por muita coisa também; os planos e a curiosidade andam juntos aqui nesse momento. Sou a pessoa que se começa um livro, digamos que vou querer saber o contexto, qual o idioma que foi escrito e planejar ler mais livros da autora ou autor, buscar sobre a vida, me satisfazer ao pensar que vai ser lindo ter todos os livros dessa criatura na estante. Não acabo o livro. Sou capaz de ler 7 livros ao mesmo tempo porque poesia é uma coisa, teóricos é outra, prosa é outra e contos outra – não acabo os livros (obviamente Antônio lê no máximo dois livros e os termina). Uma gota de suor escorre, calor ou pleno maquinamento das ideias – isso diz muito sobre mim, porque tenho em conta que o modo como nos relacionamos com as coisas pode ser reproduções do mesmo ato no fim. Começar com muito interesse, ter o desejo de cultivar uma floresta em casa, ser a louca das plantas… e matar a única que tenho. Por sorte, observo. Reflito, felizmente tenho espaço de tempo para refletir, parar e faz tempo que lido com essa vontade de mundo inteiro na cabeça e poucas ações, mas nesse dia foi importante o jeito como Antônio disse. Porque isso tem tudo a ver com saúde mental. Desconfio de como usamos esses conceitos pois é algo que vai muito mais além da mente e toma o corpo inteiro. Saúde: esse conceito complexo com o qual até hoje lutamos para que se mudem as ideias dicotômicas que abarcam suas letras. Para mim, a saúde mental depende da relação que estabelecemos com as coisas/pessoas/mundo/etc. Não são as plantas em si. Então sim, temos responsabilidade por pensar sobre como mantemos nossas relações, mas aqui é preciso dizer: reconhecer contextos, privilégios e toda a bagagem das situações. Nossos corpos são distintos em muitos aspectos e há muitas circunstâncias antes de nós que já nos aguardam para a experiência social. O reconhecimento do ambiente em que se está, o que foi dado de oportunidade para conhecer, como se aprendeu o afeto – a materialidade das coisas é imprescindível para não cair nos confins das ilusões de indivíduo como o auto-suficiente eternamente responsável por suas misérias. Lembro do que pensa Martín, personagem no filme “Medianeras”, quando aponta a cidade como responsável na nossa maneira de afeto – os arquitetos de Buenos Aires colaboradores das patologias sociais. Re-conhecer os elementos nas cenas cotidianas. Pontuo pois é tão fácil tomar o rumo de culpas sem olhar para todos os lados antes; Faz-se necessária a circunspecção. E como cuidamos então da saúde mental? Antônio deixa a pista: ao falar das plantas uniu tudo com verbos – cuidar, escutar, aprender. E quero sinalizar uma ação que me encanta: errar. “O erro é onde a sorte está”, como já dizia Rodrigo Amarante. E errar pois se está aberto para testar. Errar porque se entra em contato com algo que não se sabe. Sair da incrível jornada daqueles que buscam as receitas sem ao menos consultarem-se se há vontade de cozinhar. Porque para todo buscador de receita há sempre livros de autoajuda que montam cenas idealizadas, dicas para em tantos dias conseguir tal coisa, mas investigar as próprias vontades, compreender e pensar sobre como construímos nossas relações – é bicho que se cuida todo o dia, e esse cuidado é improvisado e incerto. Depois dessa conversa percebi que não sei se quero ter uma planta, mesmo gostando delas e da ideia de ter uma. Mas sei que posso tentar ter outra planta e ir com calma. Cuidar dessa uma planta. Consistência, outra palavra-chave. E depois dessa conversa ponho atenção especialmente nas miudezas e as realizo. Não crio leis universais, ou melhor dizendo evito-as. Depois da conversa com o Antônio devo ter errado aproximadamente 12 vezes mais e em algumas vezes esses erros me fizeram rir (a risada conta como cuidar da saúde mental também). E Antônio continua com suas plantas e eu com meu café quente em dias quentes – para mim isso não é erro, é acerto em levantar as manhãs. E enquanto escrevia esse texto tive uma vontade grande de parar para escrever poesia, mas não é que continuei e cheguei ao fim? (Obrigada pela conversa Antônio)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s