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No seu pescoço, no meu pescoço, nos nossos pescoços

no seu pescoço

Por Flávia Gomes (Dora) – T XII

“No seu pescoço” é o sexto livro de Chimamanda Ngozi Adichie que eu tenho o prazer de ler. Apesar de ter sido escrito em 2009, só foi traduzido para português em 2017, e é nele que a autora mostra sua flexibilidade em relação a escrita – sendo seus outros livros de romance social ou baseados em seus discurso, esse é um livro de contos, mas, ainda assim, ala Chimamanda.

São 12 contos (A cela um, Réplica, Uma experiência privada, Fantasmas, Na segunda-feira da semana passada, Jumping Monkey Hill, No seu pescoço, A embaixada americana, O tremor, Os casamenteiros, Amanhã é tarde demais e A história obstinada), com histórias totalmente diferentes entre si. Contudo, todos possuem uma característica em comum: os personagens principais de cada conto são nigerianos e passam por um problema social estrutural.

“Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não estudar, que as pessoas podiam mandar na vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.”

Pessoalmente, sempre tive uma dificuldade de gostar de contos da mesma maneira que gosto de prosa corrida, muito por conta da dificuldade que tinha de me conectar com os personagens, já que contos são feitos para serem curtos. Surpreendentemente, não foi isso que ocorreu quando li o livro – talvez porque gosto de tudo que tenha temática social, talvez porque é muito fácil se reconhecer nas características pessoais dos personagens.

“Ninguém sabia onde você estava, pois você não contou. Às vezes, você se sentia invisível e tentava atravessar a parede entre o seu quarto e o corredor e, quando batia na parede, ficava com manchas roxas no braço. Certa vez, Juan perguntou se você tinha um namorado violento, pois você daria um jeito nele, e você deu uma risada misteriosa.

À noite, algo se enroscava no seu pescoço, algo que por muito pouco não lhe sufocava antes de você cair no sono.”

Ler “No Seu Pescoço” é ter a possibilidade de conhecer uma cultura que você provavelmente nunca teve contato – a nigeriana -, refletir sobre nossos pensamentos socialmente construídos sobre a realidade dos países africanos, compreender que racismo, machismo, xenofobia e desigualdade de gênero ocorrem em todos os locais, cada qual com uma faceta diferente.

Chimamanda não poupa crítica a nada: desde a ilusão dos nigerianos que se mudam para os Estados Unidos e se forçam a se encaixar em um padrão cultural que não é o deles, passando para a realidade sofrida que os imigrantes vivem nos EUA, como o “sonho americano” é seletivo e não feito para Nigerianos (ou qualquer outras pessoas que não estadunidenses de classe média pra cima).

É por isso que afirmo que o livro é um conjunto de embates: de culturas diferentes, povos diferentes, Estados, de uns com os outros e de cada um com si mesmo. Chimamanda permanece fazendo aquilo que fez em todos os outros livros dela que li – uma crítica social combativa.


“Elas perguntaram onde você tinha aprendido a falar inglês, se havia casas de
verdade na África e se você já tinha visto um carro antes de vir para os Estados Unidos. Olharam boquiaberta para o seu cabelo. Ele fica em pé ou cai quando você solta as tranças? Elas queriam saber. Fica todo em pé? Como? Por quê? Você usa pente? Você sorria de um jeito forçado enquanto elas faziam essas perguntas. Seu tio lhe disse que aquilo era esperado; uma mistura de ignorância e arrogância, foi como ele definiu.”

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