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“Before Sunrise” e o amor real

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Por Thadeu Vilas (Amante) – T XII

Before Sunrise é um filme do diretor polonês Richard Linklater que mostra as 24h que Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) vivem juntos após um encontro casual em um trem em direção a Viena. O filme não apresenta uma história propriamente dita, somente há dois personagens, os diálogos são extensos e sobre assuntos aleatórios, nada muito atraente ao espectador, não é mesmo? Mas então como esse filme conseguiu mexer com tantas pessoas a ponto de se tornar o primeiro filme de uma trilogia? Simples, pois o romance retratado entre os dois personagens não é algo que foge à realidade.

Antes de tudo, é preciso deixar claro o contexto em que o filme acontece. Retratado na Viena de 1995, o mundo não tinha passado pelo intenso processo de globalização que o caracteriza hoje. A Internet não fazia parte do cotidiano de maneira muito significativa, não existiam redes sociais e os meios de comunicação não eram tão desenvolvidos. Explicar tais fatos ajuda que aceitemos o final do filme, visto que se ele se passasse em 2019, o desfecho teria sido bem diferente.

Agora retornando ao filme. Jesse e Celine se conhecem em um trem indo para Viena. Ela é uma francesa no meio do caminho de retorno para casa e ele, um americano que precisa pegar um voo de volta para sua terra natal. Ambos começam uma conversa aleatória, mas que foi o suficiente para estabelecer uma conexão entre ambos. Tal conexão foi a responsável por fazer Celine aceitar a proposta eufórica de Jesse para que ela adiasse seu trem para o próximo dia a fim de que ambos pudessem passar o dia juntos, aproveitando a companhia do outro.

O começo pode até fazer o espectador acreditar que o filme se tratará apenas de mais um clichê romântico. Porém, não é isso o que acontece. Ao longo do dia, vamos acompanhando o passeio dos dois jovens de 23 anos pela capital austríaca e seus diálogos, que muitas vezes parecem ser atrapalhados. E é exatamente graças a isso que o filme parece ser tão real. Não há grandes gestos, ou demonstrações exageradas e dramáticas de sentimentos. Tudo é trabalhado de uma forma sutil e bem pensada, como se o filme inteiro fosse simplesmente uma gravação de um casal real, e não a performance de dois atores.

Jesse e Celine conversam sobre diversos assuntos, desde planos sobre carreira, passando sobre como pais podem ser chatos, até chegar sobre a dificuldade em ter relacionamentos saudáveis, todos assuntos extremamente palpáveis e que fazem com que quem está vendo o filme consiga se identificar. O sentimento entre os dois vai sendo construído aos poucos, conversa por conversa. Olhares tímidos, gestos contidos, a hesitação sobre falar certas coisas, eles fazem tudo aquilo que fazemos quando estamos apaixonados.

Conforme o filme avança, mais vemos como ambos tentam se entregar, mas que ainda há certa resistência, certo medo de amar. Ambos haviam saído de relacionamentos recentemente e se jogar em um novo romance tão rapidamente era assustador, principalmente para Celine, que já não tinha um histórico bom de paixões. Ela sentia a necessidade de ser amada por aqueles que estavam ao seu redor, mas se sentia insegura em relação a mais um romance, ainda mais um que estava destinado ao fracasso, já que os dois moravam em continentes diferentes. Contudo, ainda que a insegurança existisse, ela não deixou de aproveitar o dia com o americano, vivendo juntos vários pequenos e comuns momentos, mas extremamente significativos.

Porém, cada vez mais apaixonados, a conversa sobre a iminente separação era inevitável. Em uma cena agridoce, eles decidem que o melhor a se fazer era somente aproveitar o presente e aceitar a despedida da manhã seguinte. Aceitar que nunca mais se veriam foi complicado, mas ao mesmo tempo funcionou para se libertarem e passassem a aproveitar tudo aquilo que o sentimento oferecia, afinal, segundo Jesse, “por que todos pensam que relacionamentos devem durar para sempre?”.

No dia seguinte, o casal se separa, mas voltam atrás na decisão de nunca mais se ver e combinam de se encontrar no mesmo lugar após 6 meses. Se esse encontro realmente aconteceu ou não, não é falado no filme (somente no seu sucessor é nos revelado tal desfecho, em Before Sunset), mas ele não importa tanto assim. Jesse e Celine experienciaram um sentimento verdadeiro e que todos um dia poderão experienciar ou já experienciaram. Eles não viveram algo completamente irreal e fantasioso. Tudo pelo o que passaram foi graças a uma conexão intensa, e quem nunca passou pelo mesmo? Às vezes achamos pessoas com as quais nos ligamos tão violenta e rapidamente que chegamos a nos assustar e pensamos que fomos feitos um para o outro, mas no final acabamos nos separando, ou nunca ao menos ficamos juntos. Jesse e Celine não terminaram juntos no filme – assim como muitos de nós -, mas eles viveram algo único naquele dia, que ficou na lembrança de ambos por bastante tempo.

Before Sunrise é o primeiro filme da trilogia Before, sendo os outros Before Sunset e Before Midnight. Todos os três são sobre o mesmo casal e ambos retratam o amor de uma forma extremamente real, e é por isso que são tão bons. Nós conseguimos nos enxergar nos personagens e nas situações que vivem. A relação com a morte, a relação com os pais, a relação com Deus, medo de amar, medo de comprometimento, expectativas e decepções, tudo nesse filme é exposto de forma verossímil e é isso que faz com que Before Sunrise não seja somente mais um filme de romance.

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