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Hong Kong e Equador: como a “esquerda” é difícil.

Por Lucca Vinha (Jejum) – T X

É impressionante como a esquerda diverge no momento de avaliar manifestações populares. E, ao utilizar “diverge” estou sendo generoso. O correto seria: é impressionante como parte da esquerda não tem a menor capacidade de fazer uma análise de conjuntura, principalmente quando o objeto de análise são pessoas na rua reivindicando algo.

O cerne da questão, e origem de tamanha divergência, são dois pontos: o primeiro é o povo. O segundo é o ato de se manifestar. Setores da esquerda apoiam toda e qualquer manifestação popular, uma vez que, por ser algo que nasce na população, e muitas vezes pobre e periférica, automaticamente a pauta é anticapital, ou simplesmente progressista. O segundo ponto, com raízes muito autonomistas, é a análise, errônea, de que manifestações, normalmente espontâneas, são pré-revolucionárias.

O que podemos levantar dessa análise dualista exposta acima? Que a pauta da manifestação é deixada de lado, ficando centrado quem se manifesta e o ato que esta sendo realizado. Porém esta análise ainda assim esta errada, e é neste ponto que entramos no verdadeiro assunto deste texto: parte da esquerda (principalmente os morenistas e diversos grupos trotskistas – que evidentemente não entenderam o conceito de colonialismo) concorda com a pauta de manifestações populares, mesmo que a pauta seja absolutamente imperialista e pró-capital.

Tal argumento, que expõe inconsistências teóricas de diversos campos da esquerda, deve ser devidamente fundamentado. Portanto, analisemos duas situações atuais e profundamente relevantes para a conjuntura internacional que coloca a esquerda em duelo, porém evidencia aqueles que realmente possuem responsabilidade e comprometimento na atuação política e aqueles que não passam de apoiadores de pautas imperialistas: Equador e Hong Kong.

Antes da análise, porém, é basilar colocarmos o conceito, resumido, de guerra híbrida: ataque político em que governos não necessariamente utilizam de aparato militar para desestabilizar outros países ou regiões, de modo que simplesmente empreendem de outros métodos, como bloqueios econômicos, compra de empresas, fortalecimento tácito de opositores, e incentivo a manifestações, para atingir tal fim.

Voltemos para os lugares em questão. Hong Kong, cidade de origem chinesa, cultura e língua chinesa e de população chinesa, cujo único motivo de possuir status diferenciado é o fato de ser um verdadeiro espólio da infame guerra do ópio. Logo, esta cidade, chinesa, ficou anos sob domínio imperialista britânico. Independentemente de sua posição sobre a política e governo chinês é fato que a pauta anti imperialista e anti colonial é central em uma análise verdadeiramente de esquerda.

Como disse, a pauta é central e, neste caso, assim como em junho de 2013, a verdadeira face da manifestação veio depois. O que nasceu como resistência a lei de extradição rapidamente virou apoio a este passado de colônia, com pedidos de intervenção externa estadunidense e britânica. A partir do momento que a manifestação ergue bandeiras dos EUA e britânicas, toca “The Star-Spangled Banner”, evidentemente a pauta é pró imperialista, pouco importando o aspecto popular da manifestação.

Não apenas isso, lembram da questão da guerra híbrida? Diplomatas dos EUA se encontraram mais de uma vez com líderes dos protestos, assim como os consulados britânicos e estadunidenses tem sido locais centrais para as manifestações. Isso evidência interferência externa, com o único objetivo de desestabilizar a China. Nenhum país possui licença moral para intervir em outra Nação Soberana e, sempre que isso ocorre, o resultado é catastrófico, ainda mais quando este país é os EUA. De cabeça podemos citar Iraque, Vietnã e Síria como vítimas do aparato militar do Tio Sam, mas também podemos citar Honduras, Venezuela e até mesmo o Brasil, como vítimas do aparato diplomático e econômico estadunidense.

A hipocrisia é tanta que quem critica o governo chinês pelo autoritarismo pede socorro para o governo dos EUA que esta inaugurando verdadeiros campos de concentração para imigrantes dos países que eles mesmo desestabilizaram.

Já em relação ao Equador, o cenário muda completamente, uma vez que a manifestação é resposta ao estelionato eleitoral promovido por Lenin Moreno (coincidentemente a “esquerda” que sempre faz analises de conjuntura absurdas são os morenistas) que levou o país ao caos devido as recém adotadas políticas de austeridade neoliberais. Não há bandeiras estrangeiras, não há menção saudosa a nação colonizadora, há apenas a luta de um povo em defesa de uma política feita pelo povo e para o povo, uma política não neoliberal, uma política de esquerda.

O fato de ser uma manifestação popular não é o motivo de se apoiar os equatorianos, o fundamental é a pauta e as bandeiras erguidas. Por isso que a defesa das manifestações equatorianas é fundamental, da mesma maneira que a esquerda deve defender a autodeterminação dos povos e a soberania de China, Venezuela, Síria, Cuba… Não se pode se dizer de esquerda defendendo os colonizadores imperialistas.

Um viva para os companheiros e companheiras equatorianas, que estão na luta mais justa de suas vidas, assim como um viva para os chineses que entendem o papel central de seu país na geopolítica global e que não abaixam a cabeça para essa manifestação, de evidente origem de guerra híbrida. No mais, a conjuntura é difícil, todos sabemos, mas é mais do que necessário respeito e comprometimento político com a pauta, uma vez que é ela quem define os rumos de qualquer manifestação.

E para essa parte da esquerda, que apoia Hong Kong, Lula preso, Guaidó, e mais uma série de absurdos, a história não tarda a cobrar. Não são companheiros.

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