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Lady Susan e as mulheres a frente do seu tempo

lady susan

Por Flávia Gomes (Dora) – T XII

Mesmo que você nunca tenha lido ou até mesmo visto alguma das adaptações dos livros de Jane Austen, muito possivelmente já ouviu falar de algum deles. Provavelmente te contaram de “Orgulho e Preconceito” ou “Persuasão”, mas certamente não te falaram de “Lady Susan”. Que isso se encerre aqui, então.

Primeiramente, deixa eu te contar que não foi Jane Austen que lançou a história. Pelo que se sabe, a autora escreveu o livro quando estava com seus 20 anos, deixando a obra guardada em sua casa até sua morte. Somente anos mais tarde seu sobrinho resolveu publicar Lady Susan. Não se sabe porque Austen guardou a história – talvez por ser completamente diferente de todos os seus outros romances (pelo menos os que li).

Lady Susan conta a história, obviamente, de Susan Vernon, uma mulher de 30 anos que  de se tornar viúva na então Londres do início do século XIX. Se você está acostumada com Elizabeth Bennet ou Elinor e Marianne Dashwood, sinto em te dizer que Susan é completamente diferente – Jane Austen nos entrega uma protagonista ácida, manipuladora e persuasiva, que sabe o poder que tem e controla todos ao seu redor.

Não, Lady Susan não está atrás de viver uma nova paixão e ficar em casa com sua filha. O que ela quer mesmo é achar um novo matrimônio mais vantajoso possível para si. A personagem tem plena consciência que está em um local privilegiado da sociedade londrina – a alta aristocracia – e entende muito bem como utilizar isso para conseguir o que quer.

“Existe um requintado prazer em subjugar um espírito insolente e fazer que uma pessoa predisposta a te detestar reconheça sua superioridade. Proporciona um prazer delicioso!”

Outra característica que difere muito esse romance dos outros de Austen é o fato de ser todo escrito em estrutura epistolar, ou seja, em cartas. Esse fato é particularmente interessante porque o leitor não possui só o ponto de vista de Susan sobre os acontecimentos ao seu redor, mas também nos possibilita ler os relatos dos outros personagens sobre a própria Susan. Além disso, também devo destacar aqui o fato de que as críticas sociais se fazem muito claras, ácidas e diretas, o que não me lembro de ocorrer nos outros romances dela – estavam presentes, mas geralmente em forma de ironia e sarcasmo.

Lady Susan, assim como a própria Jane Austen, é uma mulher a frente do seu tempo. Ela não tem medo de frequentar espaços sociais que a sociedade do século XIX considera ser só para homens, não tem medo de falar tudo que pensa, muito menos de fazer aquilo que tem vontade.

“Não me julgue cruel por exercer um poder assim, nem me acuse de ser volúvel sem primeiro escutar minhas razões!”

Considerada bela por todos, ela acaba se envolvendo com um homem casado. Quando percebe que a aristocracia londrina estava comentando sobre o caso, ela resolve passar um tempo na casa de seu irmão, em outra cidade. Ainda assim, com sua personalidade forte e nem sempre agradável, ela detesta a cunhada e não vê a hora de voltar para Londres. Tudo muda quando o irmão da cunhada, Reginald De Courcy chega na residência. É nele que Susan reconhece seu “pote de ouro” – ele é irmão da pessoa que ela mais detesta e ainda é um herdeiro de grandes fortunas. Não demora nada para que Reginald esteja rastejando aos pés da viúva.

É assim que Jane Austen revoluciona os padrões românticos da época em que escreve: sua protagonista é egoísta, intrigante e manipuladora. Ela é o sujeito ativo da história quando as mulheres só faziam papéis passivos da “boa moça esperando por um casamento”. Susan não é apenas bonita, rica ou parada no status de viúva – ela é inteligente e viva.

“Há algo agradável em sentimentos tão facilmente manipuláveis, não que eu o inveje por tê-los – nem eu mesma os teria, por nada neste mundo – mas são tão convenientes quando um deseja influenciar as paixões do outro!”

Além disso, Austen discute temas importantíssimos como o adultério, o papel social de homens e mulheres dentro do século XIX e as manipulações dentro da aristocracia londrina. Lady Susan é o romance menos conhecidos, mas com certeza mais emblemático, de Jane Austen.

“Aonde eu vá pouca importância tem para ninguém. Inclusive para mim mesma.”

 

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