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Ser Lésbica Dói

lesbofeminismo

Por Clara Monteiro, acadêmica em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Amazonas.

Mulher, gorda e lésbica. Estas são as 3 coisas que e definem minha vida, que explanam minhas vulnerabilidades dentro de uma sociedade patriarcal. Ainda possuo privilégios por não fazer parte de nenhuma minoria racial, mas ainda assim, existir dói. Doía ouvir do pastor da igreja da minha mãe que a homossexualidade é abominada por Deus. Doeu, ao escrever esse texto, lembrar de Luana Barbosa, negra lésbica e periférica que foi assassinada por policiais (homens). Dói saber que ela não foi a primeira, e nem a última de nós a morrer pelas mãos da misoginia. Viver dói.

Desde criança fui sexualizada como boa parte das meninas, e com frequência eu ouvia “e os namoradinhos?”, mesmo eu sendo uma criança sem noção alguma do que era desejo e obviamente sem condições de ter namoradinho algum. Logo que entrei na adolescência, fiquei com a cabeça dada um nó depois de um selinho tímido no banheiro do colégio, que me fez pensar que talvez eu não me interessasse tanto assim pelos namoradinhos, e sim pela menina dona dos lábios que encontraram os meus por meio segundo. Mesmo desenvolvendo minha sexualidade nos anos seguintes, vivendo amores adolescentes e com meu coração partido todas as vezes por outras meninas, durante muito tempo fui refém da lesbofobia que fui ensinada a reproduzir. E continuei, precisamente até o fim da minha adolescência, aos 17 anos, eu ainda fantasiava sobre encontrar o homem certo, por que afinal de contas era necessário seguir o curso natural das coisas. Eu tinha aprendido isso tudo, eu sei, era esse o certo. Minha mãe que me disse, tava na tevê, tava na bíblia…

Ironicamente, um selinho também me fez perceber que eu nunca ia encontrar o homem certo, que não havia príncipe pra mim. Por mais que eu quisesse, eu não gostava disso. Tamanha ojeriza tomou conta do meu corpo, que senti o gosto azedo no fundo da garganta. Não tinha o que fazer, era isso. Lésbica. Tomar a palavra lésbica para mim como adjetivo e definição da minha sexualidade foi o primeiro passo para entender a minha opressão.

Hoje, lésbica e feminista materialista, reconheço padrões que se repetem dentro do processo de descoberta da lesbiandade de muitas mulheres, e que possuem raízes muito profundas no processo histórico do desenvolvimento do modelo econômico capitalista. A demonização do sexo não procriativo está diretamente ligada á capitalização da sexualidade feminina, e remete aos tempos da idade média, mais precisamente ao período da inquisição e à caça ás bruxas.

“A homossexualidade, que em muitas partes da Europa era plenamente aceita, inclusive durante o Renascimento, mas logo foi erradicada na época da caça as bruxas. A perseguição aos homossexuais foi tão feroz que sua memória ainda está sedimentada na nossa linguagem. Faggot é um termo que remete ao fato de que os homossexuais eram, às vezes, usados para acender a fogueira onde as bruxas eram queimadas (…).” FREDERICI, 2017.

A palavra faggot é uma palavra cujo significado original é “feixe de lenha para o fogo”, e em países de língua inglesa, é uma palavra ofensiva utilizada para se referir á homossexuais, como explica Frederici. Com isso, a associação que faço com as implicações deste passado é que, ser uma mulher lésbica é queimar na fogueira duas vezes. Ser feminista e se olhar no espelho feconhecendo uma mulher lésbica ali parada na sua frente é doloroso, por que enxergamos refletidas em nossa imagem marcas históricas e sabemos que o que nos espera não é tão diferente. Só mudaram as fogueiras.

Enxergo, de forma muito clara, o que em grosseira síntese diz Andrea Dworkin em Intercourse (1987): o sexo heterossexual nada mais é que uma relação de dominação e submissão, e rejeitar seu intercurso violento é uma transgressão. É inadmissível para uma sociedade, cuja pedra fundamental é a existência do sexo feminino encabrestado, não sermos submissas aos homens em aspecto algum de nossas vidas e rejeitar o falo e a masculinidade não somente nas relações sociais mas também em nossas relações afetivas e sexuais. Com isso, observamos fenômenos a validação da coerção e do corretivismo da homossexualidade feminina, e a hipersexualização do sáfico através da pornografia, sob a máscara de um discurso progressista mas que é em sua essência, desonesto e culpabilizador. Estas coisas são apenas a ponta do iceberg da lesbofobia, e fortalecem de forma sutil, mas efetiva, estas relações de poder que tanto lutamos para abolir. Admitir isto possui um peso absurdo, pois significa que lutar e ocupar espaços enquanto mulheres que se relacionam exclusivamente com pessoas do mesmo sexo não é uma escolha, é a nossa única saída. Ser lésbica dói. Todavia seguimos em nossa insubordinação, negando o falocentrismo que nos cerca, direcionando afeto à outras mulheres, mantendo viva a memória de mulheres que exerceram durante a idade média o que outrora chamavam de bruxaria, mas que hoje, chamamos de resistência.

Referências:

 FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa. São Paulo: Editora Elefante, 2017.

ANDREA, Dworkin. Intercourse. 1987

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