x

“The King” e a Adaptação Consciente de um Clássico

Resultado de imagem para the king

Por Julia Gallo (Post) – T.XII

O mais novo filme da Netflix, protagonizado por Timothée Chalamet e Robert Pattinson, narra uma das histórias mais repetidas dentre as dos reis ingleses: a vida de Henrique V.

Provavelmente o maior responsável pela sua popularização tenha sido Shakespeare, que imortalizou a jornada de “Jovem Hal” até tornar-se o sanguinário “Rei Henrique”.

É muito característico de todas as adaptações da história do rei concordarem num mesmo ponto; o papel de rei é “natural” assim como a monarquia e ele estava fadado a corroborar com eles (por mais que se rebelasse contra tal e chegasse até mesmo a recusa a coroa) e é inevitável que – ao exercer o papel de rei – Henrique fosse incapaz de escapar do destino de tornar-se exatamente como seu pai: um alcoólatra paranóico que afastava todos à sua volta e começava guerras quando bem entendia por motivos fúteis.

Um ponto já muito bem demonstrado do perigo das narrativas shakespearianas está justamente aí, essa defesa da monarquia e dos lugares sociais “naturais” dos indivíduos serve de plano de fundo para outra adaptação da história do rei Henrique: “Master Harold… and the boys” que demonstra como esse tipo pensamento serve de sustentação para barbaridades como o apartheid, porque sustenta a uma hipótese em que os indivíduos têm papéis naturais à servir na sociedade e, portanto, não são iguais ou livres.

E é aí que a genialidade de “The King” aparece; após ordenar – de forma sanguinária, que serviria para mostrar como ele agora tornou-se o seu pai, a execução de todos os prisioneiros franceses adventos da batalha final – Henrique tem um diálogo decisivo com sua esposa que mudaria toda a mensagem do enredo: Katherine revela para ele como toda a guerra contra a França tinha sido um fruto da sua própria paranóia crescente que, por motivos fúteis, o levou a matar centenas de homens e como ele não poderia ser destinado para aquilo porque toda monarquia é ilegítima e ele mesmo é filho de um usurpador que jamais “naturalmente” deveria ter sido rei. 

A representação feminina no filme é escassa até mesmo para uma história de época e ele fica MUITO longe de ser aprovado no teste Bechdel, mas, ao fazer tanto a irmã de Henrique (Philippa) como a sua esposa (Katherine) assumirem papéis de conselheiras valorosas para o rei e realmente lhe dizerem coisas decisivas para o sucesso de seu reinado o filme atribui às mulheres um papel importante que, raramente, filmes de época tem a coragem de dar.

Por isso “The King” é um perfeito exemplo de como é possível fazer uma adaptação ao mesmo tempo fiel e responsável o suficiente para não corroborar com ideologias perigosas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s