CPFDRP · Entrevista

Da periferia ribeirão-pretana a USP: uma entrevista com Fabrício Oliveira, ex-aluno do CPFDRP e graduando na MAN (USP-RP)

WhatsApp Image 2019-11-13 at 19.53.08 (1)
Acervo pessoal | Flávia Gomes | Entrevistado: Fabrício Oliveira

Por Flávia Gomes (Dora) – TXII e Ana Paula Silveira (Boto) – TXI

Nos corredores da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, passam todos os dias centenas de pessoas com histórias e visões de mundo bastantes diferentes. Ao contrário da maioria que habita a faculdade, aquelas escadas não são utilizadas apenas pelos filhos da elite e da classe média brasileira, graças a projetos incríveis como o Cursinho Popular da FDRP e o CEJUSC – que agora foi realocado para outro prédio no campus -, diversas camadas sociais passam e passaram pela faculdade, porém, nem todas disfrutando igualmente dos privilégios de estar numa daquelas salas de aula cursando Direito.

Dentro da bolha da FDRP, muitas vezes a maioria se esquece da realidade do mundo afora, que muitos das e dos ingressantes cotistas, e das e dos  alunos do CPFDRP vivem. E o Fabrício, com muito brilho no olhar, uma voz calma, uma preocupação tão grande em não ser “capaz” de responder algumas de nossas perguntas, e um coração que além de grandioso estava aberto para trocar experiências, compartilhou conosco do Ócios de Ofício sua vivência antes e depois de ingressar na Universidade de São Paulo, para que todos conheçam a realidade de muitos nos bairros periféricos e pobres da rica sede do Agrishow, Ribeirão Preto.

A seguir a entrevista na íntegra.

Ócios de Ofício: Nós gostaríamos de saber da sua trajetória até o momento atual.

Fabrício: No ensino fundamental, eu comecei a estudar em escola pública, à tarde. Só que eu tive uns problemas, porque eu brigava na escola – aí eu mudei para de manhã, o que foi bem melhor. De manhã eu fiquei mais tranquilo. E assim eu fui indo pelo ensino fundamental.

Depois eu entrei no ensino médio, nas escola Vilhena, que é perto da minha casa. Eu saí de lá e fui para o Antoniel, sai do do Antoniel e fui para o Cônego, do Cônego eu fui para o Cid, de lá voltei para o Cônego (sic). Em 2014, eu fiz Senai, porque eu precisava de dinheiro, mas eu não queria trabalhar. Me falaram do Senai, eu fui fazendo e gostei. Primeiro eu fiz Mecânica, mas eu não gostei, nem trabalhei com isso. Eles me ofereceram para fazer outro curso, de assistente administrativo, que foi o que eu fiz. Lá era muito rígido, tinha que ser tudo certinho. Não era esse curso como um todo que eu gostava, eu gostava de algumas coisas, porque tinha matemática envolvida, e eu sempre gostei de Matemática.

Depois, eu saí e entrei no Cursinho Popular da FDRP, em 2017, eu já tinha terminado a escola. Foi um amigo meu que me disse “por que você não faz um cursinho popular?”. Ele também fez o cursinho aqui, hoje ele estuda Arquitetura e Urbanismo na USP de São Carlos. Eu achava que era fazer um concurso assim, para trabalhar. Não sabia que era para estudar. Eu me inscrevi, fiz a prova e passei. Quando eu estava no cursinho que eu entendi que era para entrar na faculdade, e eu não sabia de nada. Da USP, eu só sabia do HC, não conhecia nem o Direito, eu só vim aqui no dia de fazer a prova mesmo. Eu não tinha noção da USP. Quando ele disse para eu fazer um cursinho popular da USP eu pensei que era algo no HC, porque era a única coisa que eu tinha referência. Eu cheguei aqui e só dentro do cursinho que eu fui descobrir o que era ENEM, o que era a USP. Eu já tinha feito ENEM antes, mas eu chutava tudo, porque eu não ligava, sabe? Eu não entendia para o que servia. Eu não sabia o que era SISU, FIES, FUVEST, nada disso. Eu só fiz porque eu consegui isenção no ENEM, a escola disse para a gente se inscrever.

Eu mudei muito de escola pública, como eu disse, acho que porque eu não conseguia ficar parado. Por eu não encontrar minha família dentro de casa, eu buscava minha família na rua. Eu entendia que a rua era minha família, mesmo tendo minha casa e tudo mais, eu vivia na rua. Nisso, eu via muitos problemas. Teve uma vez que eu, com uns 13, 14 anos, tava andando com um amigo meu e vi um cara dar um tiro na cabeça de outra pessoa (sic). Eu saí correndo. Foi aí que eu percebi que a vida é um sopro, sabe? Foi isso que me fez querer sair do Vilhena para o Antoniel: eu não queria mais ficar no meu bairro, eu queria ir estudar no centro. Eu sai do Antoniel, porque eu vi minha vida indo para um caminho que eu não queria. Eu tava sentado com um mendigo do meu bairro que me disse “quando você mora na rua, se você consegue algum trocado, ou você vai usar crack, ou vai dividir sua marmita com os que estão com você” (sic). Nesse momento eu percebi que precisava me desviar disso, eu estava acabando com uma pessoa que estava tão mal quanto eu. Hoje eu consigo entender que tem muito mais coisas no meio do caminho, mas, na época, eu só queria sair para não ficar preso àquilo.

Quando eu estava no cursinho, eu continuava trabalhando nisso, porque eu precisava do dinheiro, mas também entendia que estudar era importante. Depois desse ano do cursinho eu ainda continuei. Eu queria mudar, mas eu precisava do dinheiro. Até porque a rua era minha família e eu queria fazer algo para mudar a situação de quem estava lá.

Eu não gostava do Cônego, de lá, das pessoas, de ninguém. Por isso, eu procurei uma vaga no Cid, e consegui. Só que eu percebi que o Cônego era melhor, os professores, o ensino. Eles se preocupavam com a gente, assim como no SENAI. Aí eu volte para o Cônego. Só que eu nunca deixei que alguma coisa da rua afetasse a minha casa, eu não queria ser motivo de mais uma briga. Eu colava, não porque eu tinha medo de não passar, mas para minha mãe não discutir por conta da minha nota. Eu não entendia o que estava acontecendo na minha casa também. Na minha cabeça, quando a briga não era sobre mim, era só entre meus pais, eu não precisava me preocupar, porque não me envolvia, não me afetava. Teve uma briga mais séria entre minha mãe e meu pai, eu devia ter uns 6 anos, e eu vi tudo. Foi depois disso que, apesar de eu não ter entendido, não queria mais trazer briga para dentro de casa.

Sempre me falaram que eu tinha que estudar, só que eu nem entendia para que eu precisava. Na escola, uma professora me disse que eu ia sempre continuar do jeito que estava. Aqui, já na USP, um outro aluno disse que eu “devia continuar a fazer o que fazia, não querer vir estudar aqui”.

Quando eu entrei no Cursinho, minha mente abriu. A primeira aula foi de debate, que eu me lembro, e era sobre cotas. Na hora, eu perguntei “sobre o que vocês estão falando?”, porque eu nem entendia. Só dentro do cursinho eu fui entender o que isso era, entender o contexto social, conseguir conectar isso às coisas ao meu redor e relacionar. Foi com o cursinho que eu consegui adquirir uma consciência emocional ligada a minha vida. Foi quando eu me assumi, também. O projeto que eu faço parte hoje, que se chama “Aprender na comunidade”, pela FMRP, eu consigo colocar em práticas as coisas que eu aprendi aqui. Eu sinto que eu precisava disso, porque eu lido com crianças, e eu precisava desse apoio, de alguém que me explicasse para o que servia o estudo, porque a escola pública não te dá essa estrutura. A capacidade da criança não é estimulada.

Ócios de Ofício: Uma vez dentro, como você enxergou a USP? Você acha que foi bem acolhido?

Fabrício: Não. Quando eu entrei, não tinha ninguém com que eu me identificasse. Logo quando eu fui fazer a matrícula, a mulher já veio “O que você quer?”, eu disse que ia fazer minha matrícula, e ela me tratou super mal, o que já me deixou triste. Eu passei na segunda lista, antes de ir para o serviço, eu vim correndo aqui fazer minha matrícula, e já ia pedir baixa do serviço. Logo nos primeiros meses, era como se eu fosse um estranho, eu tava aqui, mas não pertencia (sic). Até hoje, ainda é assim. Eu entendo que é muito importante a gente estar aqui dentro, mas se sentir daqui, eu não me sinto. Mesmo na minha sala, é como se eu fosse invisível. Mesmo os professores, tem uns que são bem legais, bem acolhedores, mas tem outros que não ligam mesmo.

Eu entrei pelo ENEM, queria Economia. Eu passaria na UFF, ou na UnB. Só que eu não tinha condições de ir, e minha mãe também não queria. No último dia do SISU, eu mudei. Quem me ajudou foi o Rodolfo, que era meu professor aqui do cursinho. Todo mundo  do cursinho me ajudou muito. Eu não estava conseguindo mudar, ele pegou minha senha, meu CPF e fez para mim. Aí eu passei para Matemática Aplicada, aqui.

WhatsApp Image 2019-11-13 at 19.53.08
Acervo pessoal | Flávia Gomes | Entrevistadoras Flávia e Ana Paula, e Fabrício, aluno da MAN.

Ócios de Ofício: Quais são os principais problemas dentro da USP?

Fabrício: Acho que, para as pessoas que vem de escola pública que nem eu, uma das dificuldades iniciais são às matérias. Principalmente o meu curso, que tem muita matemática. Porque a escola pública não te dá uma base para ir bem nas matérias, por exemplo. Nisso, a gente sente dificuldade de acompanhar o ritmo, porque as matérias não começam do zero. Os professores querem que você já tenha uma bagagem, que eu não tinha.

Eu recebo auxílio transporte, né. Só que, o que eu sinto, é que eu também precisava de auxílio financeiro mesmo, porque eu também preciso me manter. Eu “devia” estar trabalhando, ajudando em casa, mas eu tô estudando, é um privilégio (sic). Minha família não tem como me bancar, até por conta do desemprego. É por isso que eu tenho que trabalhar, e é muito difícil conseguir conciliar o estudo e o trabalho, mas não tem jeito. Eu tenho aula de manhã e de tarde e ainda tenho que trabalhar. A sorte foi que eu consegui um trabalho intermitente, no Ribeirão Shopping. Eu trabalho 3 dias por semana, incluindo sábado e domingo, que eram os dias que eu tinha para estudar. É muito difícil, mas eu não vejo como perda de tempo estar na universidade. Eu também tenho a ajuda com o Projeto que eu faço parte, da FMRP, que sou bolsista, já é uma ajuda.

Ócios de Ofício: Como você acredita que as novas medidas do Governo Federal podem impactar da vida de pessoas que estudam em escola pública?

Fabrício: Vou falar sobre a Reforma do Ensino Médio, que é o que eu tenho mais propriedade. Tirar essas matérias obrigatórias do currículo, achando que são perda  de tempo, é totalmente errado. São as matérias que fazem a gente pensar, refletir sobre o que está acontecendo, refletir sobre a gente e o nosso contexto social. É isso realmente o que eles querem, que a gente não pense. A gente também tem que mudar isso dentro das escolas, porque os alunos não querem ter aula de Filosofia e Sociologia, eu não queria. Hoje eu entendo a importância. Os alunos precisam pensar. Do jeito que está, o aluno só vai saber Português, para saber falar, e Matemática, para fazer umas contas. Tudo isso só pra entrar no mercado de trabalho, o mercado não quer que você pense, que você entenda os problemas que estão ao seu redor.

Ócios de Ofício: Como a educação modificou sua vida?

Fabrício: A educação mudou minha vida em todas as partes: enxergar que eu preciso olhar para mim também, me entender, entender meu lado racional e emocional. Entender que eu posso me colocar no lugar de outra pessoa e ajudar. Que eu posso fazer acontecer com palavras. Eu aprendi isso também no cursinho, porque eles olhavam para gente de outra forma, sem dinheiro envolvido nem nada, e era só isso que eu precisava. Foi isso que me motivou a estudar, continuar no cursinho – a maneira como eles olhavam para a gente. Hoje eu consigo entender os problemas da minha comunidade, e até as coisas mais básicas, que eu não posso jogar o lixo na rua, sabe? A educação me ajudou a me construir como um todo.

Um comentário em “Da periferia ribeirão-pretana a USP: uma entrevista com Fabrício Oliveira, ex-aluno do CPFDRP e graduando na MAN (USP-RP)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s