Feminismo · opinião · Semana temática na FDRP

Não existe sororidade na FDRP

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Por Ana Paula Silveira (Boto) – TXI

Este texto é principalmente um diálogo entre mulheres.

Ainda que inseridas na das mais prestigiadas universidades da América Latina, dentro de um contexto extremamente privilegiado – salvas as exceções à regra propiciadas pela inclusão de cotas nos vestibulares -, e o acesso à informação sendo algo comum e até banal, é indiscutível que existe um abismo entre saber que algo é errado e remodelar comportamentos para não fazê-lo. E o que isso tem a ver com feminismo?

Nota-se nos corredores da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto que, muito embora, a população feminina se identifique com o movimento feminista, em seu leque amplo de vertentes, a distância entre a teoria e a prática correspondente com aquilo que você acredita é excepcionalmente extensa, em boa parte das relações femininas estabelecidas na faculdade. Vamos por partes: ninguém está questionando o feminismo de ninguém. Mas não podemos fechar os olhos para a competição feminina desenfreada e a falta de sororidade gritante que existe em boa parte das relações que tenho observado nesses dois anos. Este texto trata não apenas de experiências pessoais minhas, é um cenário escancarado em que todas nós colocamos um véu por cima e agimos como se nosso feminismo fosse para todas da faculdade. Não é.

Para começar, gostaria de pontuar aqui que independentemente de você participar de um coletivo feminista ou não, se participa de eventos, reuniões ou projetos voltados para discussão de gênero, se você faz somente a leitura de materiais com o intuito de formação pessoal, sem necessariamente fazer parte de um grupo de discussão, deve ter em mente um dever moral para com todo esse movimento: ter sororidade pelas mulheres que vivem ao seu redor. Ninguém está defendendo passar pano para quem utiliza a liberdade pregada pelo feminismo para passar por cima de sentimentos de outra mulher, mas justamente o contrário: o exercício pleno da empatia. Seja pelas mulheres que constroem projetos dos quais você não participa ou não concorda, seja pelas moças que limpam a sua faculdade todos os dias, seja pelas mulheres que servem sua comida nos restaurantes (seja ele a cantina da faculdade, o bandejão ou o restaurante chique você vai com o contatinho no final do expediente), seja pelas mulheres que edificaram a melhor condição de vida que elas puderam te proporcionar para você estar aqui, e no domingo você achar ruim ter que ajudar com a louça. Tudo que outra mulher constrói deveria ser celebrado por todas nós, produtos artesanais, um artigo científico, uma roda de conversa, uma posição importante no trabalho. Todas nós sabemos quão importante é ter apoio num mundo tão opressivo e machista, ainda mais como é o universo do Direito.

Este texto não tem o objetivo de expor ao ridículo nenhuma mulher, nem fazer com que se sintam mortalmente culpadas se cometem algumas das ações que já foram ou serão listadas ainda. É para ser algo reflexivo sobre todas nós: sobre minha própria reinvenção diária, tentando romper com minhas próprias ações abusivas ou machistas, sobre a reinvenção das minhas amigas, sobre a transformação na postura das mulheres ao meu redor que amadurecem a cada dia. É, principalmente, sobre as ações individuais que denotam a incontestável competição feminina que ainda se alastra pela faculdade. E, irmãs, nós precisamos falar disso.

O que você faria se encontrasse uma garota da sua turma, que pode até não ser tão próxima de você, com o mesmo vestido que o seu na festa de formatura? Opções: 1. dar de ombros, essas coisas acontecem; 2. rir da situação, pelo menos as duas têm bom gosto; 3. ficar brava, e reclamar para todo mundo que puder, como aquela garota é invejosa, e não é possível, como ela descobriu sua produção perfeita e copiou justo nesse dia tão importante? A opção 3 parece muito uma fala que estaria em qualquer filme adolescente que atualmente vemos com maus olhos por tratar de maneira irresponsável a competição feminina, mas, não foge da realidade vivida na faculdade nos tempos atuais. Atitudes para evitar esse tipo de situação de vestidos iguais, e até mesmo, para tentar superar a outra em quesito de beleza e exuberância – como se não fôssemos nós mesmas que insistíssemos em falar “sou mais que minha aparência física, quer me elogiar, fale o quanto me acha inteligente, não bonita” -, são mascaradas por um discurso de “vamos deixar cada uma brilhar, sororidade”. Por que te importa tanto se existem mulheres bonitas no mesmo espaço que você? Por que só você tem que se destacar? A luta contra padrões de beleza, não te ensinou a se amar? Nossa luta é constante, e é processo árduo, já que estamos todas, cada uma no seu nível, oprimidas pelo padrão, mas bonitas somos todas. No dia da sua formatura eu tenho certeza que você vai estar exuberante. E se eu for sua colega de turma, pode ter certeza que tudo que eu gostar vou elogiar com o coração. A gente vê o mundo mais bonito quando rompe, mesmo que aos poucos, com os padrões.

Aproveitando a linha de pensamento sobre padrões de beleza, se faz necessário lembrar que, incontestavelmente, devemos respeitar o corpo da próxima. Seja sua amiga, seja seu desafeto, seja apenas alguém que não faz diferença para você. Não te interessa se a pessoa é gorda ou magra, tem muita espinha ou não, se alisa o cabelo ou deixa ele ao natural. Ser magra não é sinônimo de saúde, pessoas magras podem ter colesterol alto, diabetes, problemas de hipertensão. E pessoas gordas podem não ter nenhum desses problemas. Os números da balança são apenas números. Você quer ficar magra por saúde e bem-estar, ou porque te disseram que tem que ser assim?

Sua amiga engordou e você não sabe o porquê. Será que está ansiosa, com compulsão alimentar? Num cenário que existe esta possibilidade, não seria mais interessante perguntar se ela precisa conversar, se precisa de alguma ajuda, do que simplesmente falar para ela que está gorda e tem que fechar a boca? Eu te garanto: ela se olha no espelho todos os dias, e se até agora, ela não te disse para cuidar da sua vida, é porque cada vez que você diz isso, o coração dela se aperta, porque ela sabe. A sociedade o tempo todo diz a ela que ela não deveria estar assim. Você não. Nós não. Nós deveríamos ser porto-seguro uma das outras, armadura para o machismo estrutural. Engordou, e daí? Ela continua não somente linda, mas inteligente para caramba e a mulher mais competente que eu já vi. Você já viu os cadernos dela? É um exemplo de organização e eficiência. Não é tão difícil elogiar outra mulher. Todas nós podemos ser boas ao mesmo tempo em diversas coisas e caminhar lado a lado.

Não podemos nos esquecer também de que o machismo se manifesta por nós de diversas outras maneiras: como difamar outra mulher pela faculdade, distorcendo seus discursos e espalhando rumores sobre sua postura, suas opiniões, sua vida. Além de denotar falta de caráter, aponta ainda mais falta de sororidade, como podemos ter coragem de espalhar algo comprometedor ou mentiras umas sobre as outras de maneira tão irresponsável? Expondo não somente a imagem da pessoa numa faculdade tão minúscula, mas comprometendo a imagem das atividades que ela realiza em prol da vivência nesta comunidade. Nenhuma de nós gostaria de passar por uma situação como essas, e se colocar no lugar da outra é fundamental. O espaço deveria ser de diálogo entre mulheres, principalmente entre mulheres que buscam o mesmo objetivo e sabem que podem contar umas com as outras.

Superar o machismo não é apenas combater o hábito de chamar umas às outras de “puta” ou “vadia”, ou não brigar em público por motivos fúteis, com puxões de cabelo como se idealiza no imaginário popular. A competição feminina se manifesta das formas mais sutis possíveis, é incentivada estruturalmente, e reproduzida vez após vez nas nossas relações. Você pode ficar feliz se sua amiga foi melhor que você no concurso público, se ela tem um relacionamento saudável ou contatinhos para todos os dias da semana, se ela teve um desempenho melhor em uma matéria complicada, se ela conseguiu um intercâmbio, ou se ela dá conta e faz bem feito o trabalho em diversas entidades. Capacidade todas nós temos, e prezar pela conversa é fundamental. Se em alguma situação você sentir a necessidade de apontar para sua amiga alguns comportamentos tóxicos ou competitivos, converse.

Diálogo entre mulheres é precioso, porque vai justamente contra tudo que nos ensinaram até aqui: odiar umas às outras. E se não fossem pelas mulheres que morreram queimadas, e todas as outras que vieram depois, não sabemos se estaríamos aqui discutindo quanto podemos melhorar na nossa concepção de feminismo. Não podemos deixar de caminhar lado a lado agora, sem competição, porque temos que garantir que as mulheres que virão 3 gerações depois da nossa, possam estar em outro patamar, discutindo questões além, com a competição feminina superada. Por nossas mães, por nossas avós, por nossas professoras, por nossas amigas, pelas que não temos afinidade, por mulheres que trabalham com limpeza da faculdade ou em nossas casas, pelas nossas filhas se um dia tivermos, pelo fim do discurso vazio. Nenhuma a menos e todas companheiras. Irmãs.

E fogo no patriarcado.

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