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Starbooks: O Conto de Aia

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Por Flávia Gomes (Dora) – TXII

Sempre gostei de distopias. Para mim, a melhor parte delas é a forma que conseguem conectar com eventos reais, do agora, mesmo se passando em lugares que não existem, realidades ficcionadas. O Conto de Aia, livro que descobri por um acaso, por conta de um e-mail da saraiva de “indicados para você”, é exatamente assim.

Não se engane: o livro não foi escrito ano passado, quando se tornou uma febre por aí, mas sim em 1985. Acredito que seu estouro se deve ao processo político-social que estamos vivendo e como o livro se conecta a nossa realidade. Ou pode só ter sido porque The Handmaid’s Tale se inspirou nele para escrever seu roteiro. Vai saber.

O fato é: Atwood nos leva a um Estado teocrático e totalitário onde as mulheres são propriedade do governo. Isso mesmo que você leu: propriedade. Isso porque Gileade, nome do país, passou por uma guerra que dizimou milhares e a radiação deixou a maior parte das mulheres inférteis. Assim, a ideia do governo é, nada mais nada menos, que tomar a liberdade das mulheres não atingidas, de forma que elas se tornem “reprodutoras oficiais do Estado”.

É nesse sentido que conhecemos Offred, de 30 anos. Uma Aia. Ou seja, uma dentre tantas mulheres que foram treinadas para reproduzir. É a partir daí que você se conecta com a personagem: antes, ela era June, uma trabalhadora, cheia de projetos, defensora do progressismo antes da tomada de poder que gerou Gileade. Agora, é uma reprodutora, enviada pelo próprio Estado para a casa de algum comandante importante do governo, onde deve passar dois anos de sua vida – somente reproduzindo.

O Conto de Aia é, portanto, uma denúncia do que extremismo pode gerar. Durante todo o livro, a autora se utiliza de trechos da bíblia, já que Gileade é uma teocracia, para nos fazer questionar até que ponto as atitudes do governo são realmente baseadas no livro sagrado.

O livro é a descrição de um regime abusivo, ditatorial, que não se importa e muito menos leva em consideração os direitos humanos. O mais impactante no livro é quando descobrimos que, no início, a tomada de poder foi apoiada – e até mesmo pedida – pelo povo. O desespero pós-guerra, pós-crise, os colocou ali. Offred foi colocada contra sua vontade ali: em uma sociedade onde todos as suas condutas são pré-determinadas por Gilead. Suas visitas ao mercado são regradas. Onde não possui autonomia para escolher o que comer ou para o que vai olhar. E, acima de tudo, onde não há uma perspectiva de mudança de cenário.

É nesse sentido que Atwood nos trás, provavelmente, o maior questionamento do livro: se Gilead é um estado teocrático, onde foi parar o princípio do livre arbítrio?

Um grito de alerta é dado através das páginas: sempre há um grupo de pessoas preparadas para tomar o poder em momentos de desespero. Apresentando soluções rápidas para problemas que duram anos, pedem em troca todo tipo de coisa, inclusive nossa liberdade. O que acontece em larga escala em Gilead ocorre todos os dias em cada cantinho desse mundo: são mulheres levadas pelo tráfico de pessoas, forçadas pela religião a não utilizar contraceptivos, estupradas. São grupos políticos sendo perseguidos por não concordar com regimes radicais. É por isso que ler O Conto de Aia é tão angustiante – você chega ao final sabendo que não leu a distopia, mas sim a realidade.

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