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Óciosfork: Letrux Aos Prantos

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Thadeu Vilas – TXII

“Todo corpo tem água, lágrima, suor e gozo”. E é com esse verso que a artista carioca Letícia Novaes (Letrux) abre seu mais novo disco: Letrux Aos Prantos (2020). Sucessor do ótimo Letrux em Noite de Climão (2017), Letrux reimprime sua estética extremamente performática e debochada, mas enquanto seu disco de estreia, solo, girava em torno de uma festa, seu mais novo registro cresce dentro da ressaca do outro dia.

Com uma produção mais elaborada que a do álbum anterior, em “Letrux Aos Prantos”, Letrux conseguiu dar mais corpo as letras, fazendo com o ritmo que acompanha seus versos seja tão interessante quanto eles próprios. Versos estes marcados por dores, tristezas e desespero, temáticas que já apareciam no trabalho anterior, mas que ganham protagonismo no atual, reflexo da vivência pessoal da artista e de seu sentimento em relação aos rumos que país está tomando desde a eleição do atual presidente. Porém, mesmo rico lírico e sonoramente, por vezes o disco soa repetitivo e cansativo, mas não a ponto de estragar a experiência.

O abre-alas do trabalho é a pessimista “Dejà-Vu Frenesi”, na qual Letrux canta de forma arrastada /Se organizar direito, todo mundo chora/ Se organizar direito, todo mundo cansa/ Mas nem todo mundo transa/ Nem todo mundo goza/ encima de um ritmo crescente que ao final da música explode em uma melodia assombrosa repleta de uivos entrecortados com a voz, agora extremamente expressiva, da cantora, resultando em uma das melhores faixas do álbum. Em seguida começa a dolorosa Dorme Com Essa, com uma produção mais simples que a anterior, porém que acompanha bem a letra mais pé no chão desta; o tom confessional pelo qual Letrux é tão conhecida se mostra nessa faixa, mas enquanto geralmente ela conta uma história cheia de elementos oníricos e psicodélicos, nessa é somente uma história de um amor que não deu certo, que ela tenta deixar para trás, mas que ainda não está completamente preparada pra abrir mão (Dorme com essa / Dorme com ela / Dorme comigo / Pinta o cabelo / Vai pra Lisboa / Some da minha vida); apesar de simples, não deixa de ser um dos pontos altos do trabalho. A terceira é “Fora da Foda”, a faixa que talvez mais lembre os dias de Noite de Climão, é uma fuga erótica da melancolia do restante do trabalho, mas que ainda mantém presente uns sentimentos mais negativos (It’s so hard to find the right people to fuck / Threesome is hard, an orgy is harder). Logo em seguida chega a faixa que dá nome ao disco “Eu Estou aos Prantos”, que de início se mostra muito interessante, mas acaba caindo num loop cansativo até chegar nos seus 40 segundos finais, quando a letra acaba e dá espaço para o crescimento da produção, servindo como um sopro de ar fresco.

Após alguns momentos baixos, “Contanto Até Que” chega para elevar o disco novamente; com um ritmo mais agitado e uma letra intensa, a música consegue trazer o melhor da Letrux: a energia dos palcos, uma letra agressiva e performática, uma construção não linear do ritmo, tudo se encaixa perfeitamente e faz uma das melhores do álbum. E o padrão elevado segue com a ressentida “Vai Brotar”, que, embalada por uma melodia mais retrô, serve como um resgate bem sucedido à Noite de Climão, mas não deixando de lado elementos novos característicos do atual trabalho. Ainda numa ótima sequência, chega a minha favorita do álbum: Cuidado, Paixão; essa é a faixa mais diferente do restante do álbum, o ritmo agitado das faixas anteriores cai numa melodia lenta e repleta de detalhes que acompanha uma letra sobre uma ida ao mercadinho que despertou um amor impossível; a cadência da música segue de forma instável até chegar em um sambinha melancólico ao som de um coral de vozes cantando /Não dei conta, vou chorar / Sempre nunca é melhor nadar / Eu te amo, mas isso é tchau /, resultando na mais triste e bela canção do trabalho.

Terminado o momento intimista, chega uma colaboração interessante: Sente o Drama (part. de Liniker e os Caramelows), uma música que parece ser duas ao mesmo tempo: uma de Letrux e outra de Liniker, o que de início é legal, mas deixa a canção parecendo ser interminável, apesar de ambas cantoras brilharem, a construção da faixa tirou um pouco de suas luzes. A próxima é a, toda em espanhol, El Dia Que no Me Quieras, que acaba sendo o ponto mais baixo de todo o trabalho, apesar de fofinha, não acrescentou nada ao todo, e só aumentou o sentimento de cansaço. Aparecendo com uma batida diferente do resto do trabalho de Letícia, surge Abalos Sísmicos, uma canção que fala diretamente sobre seu jeito excêntrico (Me abalo e me abalo muito / Nasci abalada, um tanto enrolada / Por isso eu canto com essa cara de espanto) e sobre um relacionamento fracassado devido as diferenças de personalidade entre ela e a outra pessoa; uma faixa cativante, mas que traz o sentimento de que você já ouviu algo parecido. Nos aproximando cada vez mais do final, aparece a divertida Salve Poseidon, uma daquelas músicas com cara de Letrux, tanto em letra quanto em ritmo, afinal não é qualquer pessoa que escreveria /Eu queria estar lá / Na hora em que a Shakira disse / Que nasceu dia 2 de fevereiro /E o marido disse: “Eu também!”/ e que conseguiria encaixar de uma forma boa numa batida apática (num bom sentido). Penúltima música: Esse Filme Que Passou Foi Bom, uma faixa interessante, com uma letra carismática e boa, uma produção única, mas que faltou algo para que ela pudesse ser colocada entre as melhores; apesar de ter ouvido repentinas vezes, sempre me parece que o início não deveria estar lá, que os primeiros segundos parecem desconexos do restante, e que a música definitivamente seria melhor sem eles. O encerramento se dá com Cry Something Awkward, um interlude que parece ter saído diretamente de um sonho da Letrux, que mistura uma crítica aos relacionamentos modernos e uma mensagem de autoaceitação.

Letrux Aos Prantos é uma viagem pelos sentimentos de Letícia Novaes. Apesar de possuir momentos belíssimos, o álbum por vezes soa repetitivo e isso não é exatamente culpa de uma ou duas músicas. No geral, não houve grandes mudanças do primeiro trabalho para este e talvez por isso o atual soe menos impressionante que o anterior. Os momentos mais brilhantes são aqueles em que a artista propõe algo novo ou quando apresenta o melhor de sua identidade, não a fórmula usada no primeiro disco, mas sim a sua própria personalidade, afinal a individualidade de Letrux é algo que a mesma tem para se orgulhar.

Este novo trabalho está muito longe de ser ruim, mas também poderia ser melhor. De qualquer forma, vale muito a pena dar uma chance, afinal Letrux nunca erra, somente dá uns deslizes e até mesmo os pontos mais opacos de seu trabalho são bonitos.

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