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Sinapse de Férias

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Claus M.

Meu pai sempre gostou de filmes de “brucutus”, aqueles personagens com excesso de testosterona e que salvam o mundo com socos e tiros. Populares nas décadas de 80 e 90, os brucutus de Hollywood estrelaram pérolas cinematográficas que os nostálgicos não cansam de rever. Outro detalhe que devo dar sobre meu pai: foi (e espero que esse verbo se mantenha no pretérito) eleitor de Bolsonaro e é grande admirador do ex-juiz Sérgio Moro.

Em merecidas férias, decidi compartilhar o sofá da sala com meu pai numa tarde e, como sempre, quem mandou no controle remoto foi ele. Tiro e queda, o filme escolhido foi uma dessas pérola dos anos 90, “Juiz Dredd”, uma sofrível adaptação do homônimo HQ. Em um futuro distópico, em que os recursos naturais se tornaram escassos e o clima foi pro brejo (ou melhor, pro deserto), a criminalidade reina na sociedade. Para buscar uma nova ordem, foi criado uma força de segurança, os juízes, um grupo de vigilantes munidos de um duro Código Penal e de pistolas. Os juízes tinham, ao mesmo tempo, poderes de policiais, de promotores e de carrascos. O rei dos brucutus Sylvester Stallone encarna Joseph Dredd, o lendário e feroz juiz. Como um soberano da justiça, Dredd enche a colônia penal, o quarto de despejo da moribunda cidade, e é admirado por isso. O roteiro é mais do mesmo e não vale a pena comentá-lo, basta saber que o dia é salvo pelo mocinho (“inho” não combina com o Stallone, mas paciência). Após consumir esse enlatado hollywoodiano, dois neurônios decidiram, não sei por que, criar uma sinapse que gritou lá da minha mente: “ei, esse Dredd lembra muito o nosso ministro da Justiça”. Deixem-me ampliar essa ideia.

Não pretendo analisar juridicamente as sentenças do Moro, afinal, eu mal entrei na faculdade de Direito. Posso, contudo, questionar alguns de seus métodos – aqueles divulgados por Greenwald – já que não requerem de ninguém um grande conhecimento jurídico, basta um pouco de bom senso e de isenção política (sim, eu acho que tenho). Parece-me que Moro tirou sua toga e vestiu o uniforme de Dredd – o do Superman, aparentemente, não coube mais  no seu ego gigante. As trocas de mensagem entre Moro e Dalagnol evidenciaram orientações, dicas e combinações de operações entre a acusação e o julgador, práticas nada democráticas e esperadas de um juiz real, mas plenamente condizentes com o trabalho do fictício juiz Dredd. Nesse jogo de cartas marcadas, é possível que inocentes tenham sido condenados (não estou pensando no Lula, prometo). Mas para Moro, o juiz que vestia farda debaixo de sua toga, os vazamentos não provam nada demais. Já para mim, provam que a função do juiz Dredd é muito sedutora, e o poder, de fato, corrompe homens e mulheres. Se o papel de Dredd não chegou a render a Stallone um Oscar, pelo menos renderá a Moro uma cadeira no STF.

Os roteiristas de Hollywood foram simpáticos com Dredd, já que o personagem acabou percebendo que ser um juiz talvez seja poder demais nas mãos de uma pessoa. Já os roteiristas do Brasil, os eleitores, pensam o contrário. O superministro tem simpatia de milhões de pessoas as quais, assim como eu, estão descontentes com tanta corrupção. Mas, diferentemente de mim, essas pessoas não ligam se houve ilegalidade no processo. Meu pai não se interessou com os vazamentos (“não foram hackers malvados?”), e após desligar a TV, ligou o celular para consumir as notícias do Whatsapp (“esse Greenwald é comunista né?”). Tanto o brucutu Stallone quanto o herói Moro são admirados por meu pai, um homem que não percebe (ou não quer perceber) que o Brasil caminha rumo a uma distopia bem semelhante ao filme que acabou de assistir.

 

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