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Starbooks: O Idiota

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Por Fred Cazu (TXIII)

Um final trágico, as relações superficiais da coletividade e, sobretudo, a singular loucura do ser humano são elementos indispensáveis nas obras de Fiódor Dostoiévski. O Idiota, portanto, não se diferencia dessas características e, ademais, eleva-as ao extremo, durante os meados do século XIX.

O detentor de tal epíteto é o ilustre príncipe Liev – último da linhagem de Míchkin, epilético como o escritor, de conhecimentos filosóficos avançados e, no entanto, demasiadamente ingênuo. Nosso protagonista se relaciona com diversas outras personagens marcantes, mas os dois mais relevantes para o enredo são a belíssima Nastácia Filíppovna e o cidadão honrado Rogójin. Entre esses, desenvolve-se uma relação amorosa que particularmente não sou capaz de explicá-la e, não obstante, é indispensável ao desenrolar do romance.

O inexperiente príncipe, afastado por um longo período da sociedade devido a sua doença, nos possibilita discussões alternativas às conversas rápidas do dia a dia. Indiferente ou inconsciente às regras de formalidade, o protagonista varia entre genuínos elogios que causam constrangimento geral até tabus de unânime estranhamento.

Elenco, desses temas propostos por Liev, três a serem brevemente comentados.

Da Morte: aos estudantes de Direito, a mais interessante. Por experiência própria, Dostoievski detalha, através do príncipe, o desespero de ser condenado à morte. Divaga enfaticamente sobre a ausência de esperança causada por uma sentença e, de maneira muita ousada, considera-a pior que um homicídio, pela mesma justificativa, isto é, não existem perspectivas ou chances de sobrevivência mesmo que ilusórias. Além disso, ainda sob o viés da morbidade, destaca-se o suicídio. Longos capítulos são dedicados aos últimos devaneios de um personagem em estado terminal que não somente repudia a tudo e a todos por poderem gozar de experiências a ele privadas, como também, sobretudo, prefere a morte ao sofrimento em vida.

Da Loucura: epilepsia, histeria e transtornos de personalidade. Também nesse aspecto, fora feito um trabalho sublime. À parte do nosso amável idiota, os coadjuvantes apresentam diversos tipos psicológicos complexos que, no entanto, convergem em um ponto comum: a alteração psicossocial causada por um desejo frustrado. Essas ambições, válidas ou não, são desmontadas pela realidade dura, competitiva e enganosa. Desse desmonte, surgem iras incomensuráveis, histéricas crises de riso e atitudes evidentemente contrárias à uma dignidade universal

Da Sociedade: mais um exímio crítico para a coleção. A Rússia de 1850 não viveu plenamente a Segunda Revolução Industrial, mas com certeza fora influenciada gerando uma associação com a Europa muito parecida como a nossa “Síndrome de vira-lata”. Como se não bastasse, era aristocrata, com concentração fundiária, dependente de almas (servos) e estritamente hierarquizada. Em suma, um prato cheio para deliberações categoricamente negativas. Na trama, veem-se todos os tipos de perfídias para aquisição de um status elevado; veem-se rebaixamentos humilhantes por títulos e dinheiro; veem-se desumanizações pela mera ausência de rigor formal; vê-se, sobretudo, a degeneração da raça humana

Por fim, caso surja o interesse de entender por que o nosso imprescindível príncipe tão sábio em questões humanistas é tido com tal desprezo, deixo as impressões de seu médico:

“Se o próprio Schneider chegasse agora da Suíça e olhasse seu ex-discípulo e paciente, ele, relembrando (…) do primeiro ano de tratamento, desistiria e diria como naqueles tempos ‘Idiota’”.

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