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Estamos todos (tão) cansados

ocios

Por Ana Paula Silveira (Boto) – TXI

Não é todo dia que a gente acorda se sentindo satisfeita consigo mesma. Não é todo dia, que tudo ocorre como o planejado. Não é todo dia que damos conta das tarefas estabelecidas (na verdade, na maioria dos dias não). E não é todo dia que estamos dispostos a interagir com tanta gente, e captar tanta informação.

As pessoas estão cansadas. Eu estou cansada. O bombardeio de informações diárias que recebemos nos cansa: as notícias do mundo na TV e nas redes sociais, as (des)informações nos grupos de whatsapp, a rotina (quase sempre) desinteressante da maioria do Instagram, isso quando a atividade realizada pelas outras pessoas não se torna gatilho de ansiedade para você. Sempre alguém parece estar fazendo o que você deveria estar fazendo, e você se coloca à prova. E se afoga nos próprios anseios.

Estamos tão cansados. Tão cansados que conversas simples parecem enfadonhas. Tão cansados que não conseguimos arranjar tempo para áudios de 26 segundos que estejam fora da esfera estágio-pesquisa-alemão-faculdade-família-namorado. Não preciso falar com ninguém agora. Não quero falar com ninguém agora. Minha cama parece o melhor lugar do mundo, mas ao mesmo tempo parece que me aprisiona. Me prende, me suga. Minha energia aprisionada pede para se espalhar. O leque de possibilidades fora dela parece ao mesmo tempo tão imediato como distante. A lista enorme de afazeres que deveria caber em 24h não cabe. Nunca coube, e nem agora caberá.

Estou cansada de linchamento virtual. De hipocrisia. De competição completamente desnecessária. De burburinhos. De má interpretação de texto. De pessoas que abandonam. De pessoas que não se importam. De pessoas distantes. De pessoas que fazem de qualquer jeito. De pessoas. De obrigações. De só querer não ser má-interpretada. De, finalmente, fazer o que está além da minha conta. Estamos todos cansados. De tudo e de todos. Porque o mundo que a gente quer abraçar parece não caber nos nossos braços.

Este não é um texto de desistência, ou de lamúrias, como talvez você esteja achando até agora. É a constatação de um fenômeno que nos atinge comunitariamente, e está tão introjetado, que já faz parte da nossa rotina, da nossa vida, se sentir cansado assim. Você acha mesmo que as pessoas antes de nós colecionavam funções e ficavam absurdamente sobrecarregadas como nos sentimos hoje em dia? Que o consumo excessivo de informações as adoecia como nos adoece hoje em dia ? Que elas derrubavam caldo de miojo na cama, porque era a única refeição rápida que podia ser feita, e não há tempo para jantar e entregar as coisas dentro do prazo?

Estamos cansados de sempre sabermos de tudo o tempo todo: do que acontece na China ao que acontece com aquela colega da sua turma de ensino fundamental que você nem se recordava quem era até o Facebook voltar a estar em evidência. Estamos cansados de sempre termos que achar algo sobre alguma coisa o tempo todo. Eu não sei o que achar da maioria das informações que me atingem no dia-a-dia. Inclusive, não faço a menor ideia do que achar deste texto agora, mesmo que eu seja a autora dele. Estamos cansados de combater falsas informações. Estamos cansados, simplesmente, de cumprir rotinas. Das 7 da manhã às 7 da noite. Estamos cansados de simplesmente ter que lidar com o outro do outro lado da tela: muito mais corajoso pela proteção de vidro e a distância entre nós.

E todo esse cansaço, não é apenas motivo de desânimo. Entender que não estou cansada sozinha, que não estou sofrendo tudo isso sozinha, ressignifica esse processo. É preocupante em sua escala planetária (global, não plana), mas é reconfortante, olhar para o lado – ou para a tela, no caso da quarentena – e saber que a pessoa que está ali te entende. Ou minimamente tenta. Porque o tempo que temos é só nosso, os anseios que temos são só nossos, e o poder que temos do que fazer com isso, de nadar ou não contra a correnteza, é só nosso. Ou aprendemos a boiar, ou vamos nos afogar.

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