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Ruídos

São Paulo rejeita adensamento que poderia deixá-la mais aprazível ...

Por Isabela Silva (Abu) – TXI

Naquele dia, acordar fora quase uma vitória. Dezembro nunca fora um mês fácil para mim. Os dias quentes e secos, entrecortados pelo som alto das notícias de jornais nos rádios e TVs, com suas arrogâncias e fobias, constantemente me traziam a sensação de prisão. O barulho dos carros nas ruas e suas buzinas só perdiam para os gritos sufocados de algumas almas perdidas espalhadas ao longo dos quilômetros na larga avenida do centro da cidade.

As dimensões exageradas e grotescas só refletiam o cinza da cidade. Grandes gestos extraordinários, bilhões de dólares capitaneados diariamente, a exibição da abundância contrastando com a miséria e a fome. Tudo indo muito bem.

Eu me lembrava de 2020.

Há vinte anos atrás o país havia se recusado a parar pela grande pandemia que chegara no Brasil. Recordava-me do medo, da fome, da insegurança, da falta de esperança e de um estúpido na presidência. E o meu corpo fervia em pensar que duas décadas depois quase nada havia mudado: a desigualdade não diminuíra e continuamos a ser um país defendendo os interesses de rentistas e do grande capital. A diferença agora era que entre as classes ricas e pobres não havia o meio termo paneleiro. Agora o rico era muitíssimo rico e o pobre era muitíssimo miserável. Eu me lembrava do desgosto e do nojo que sentia há vinte anos pelos discursos de um presidente falido, mas que teve um fim merecido. Nunca imaginei que pudesse haver um grande acordo nacional, reforçado por pressões externas, em que o presidente fosse retirado do cargo e acabasse preso com toda sua família miliciana. Os que sobreviveram permanecem lá.

O cheiro de esgoto ao andar nas ruas me deixa enjoada e uma mosca senta no meu
braço. Eu a espanto. E, espantada, sento-me numa cadeira à vista. Mais um dia cinza. Uma nova crise se aproxima. O desemprego não mais diminuiu e o trabalho informal gerou a muitos a fome. Famílias despejadas e sem seguro-desemprego. Sem crédito na praça, endividadas até a quarta geração. A previdência social é incapaz de oferecer um futuro a quem quer que seja. E no noticiário apenas notícias de vítimas do suicídio e da bolsa que fechou em alta naquele dia, orgulho brasileiro.

A mosca volta a sentar no meu braço. Eu a espanto novamente, mas o susto que levo ao senti-la me encarando sem se mexer me enfurece. Nervosa, me levanto e saio caminhando por entre as vielas da cidade. Meus pensamentos ainda em vinte anos atrás me obrigam a pensar onde foi que erramos. Em menos de 48h, o enfurecimento das classes sociais pareciam ser uma nova oportunidade de reorganização da base social e da esquerda brasileira. Em menos de 48h, o asno do Executivo converte os gados sanguinários a uma postura intransigente: os mais de 1 milhão de mortos naquele ano talvez tenha sido o choque mais duro de se confortar.

Sinto que não respiro direito, alguns andam de máscaras, no Senado discutem se ela deve ser de uso obrigatório. Não há como respirar direito com tanta poluição na maior capital da América Latina. Ao chegar na esquina, a mosca volta. Novamente eu me irrito, sua petulância em importunar minha rotina é algo que me tira do sério.

Volto a pensar no ano divisor de águas do Brasil. Militares não tomam o poder em novo golpe por um grande acordo com a elite “limpa” e reacionária de governadores, deputados, senadores. No ano seguinte à queda do presidente, houve um histórico genocídio nas favelas do Rio e de São Paulo, com intervenção da ONU no Brasil. Mesmo com os boicotes internacionais, os EUA ‘nos’ apoiaram e os livros de história nunca contaram sobre o ocorrido. Não passou na TV. Eu soube porque um amigo que na época fazia faculdade comigo foi assassinado – ele tinha passado pelo SISU. Aliás, nenhum novo programa voltado à população se sucedeu no Brasil depois dos governos de Lula e Dilma – já faz quase trinta anos. Além desse genocídio, a morte assolou aos milhares de miseráveis pela miséria das privatizações e sucateamento do SUS.

Novamente sinto necessidade de me sentar. Peço uma água e respiro enquanto deixo a tensão diminuir. Bebo um gole e me refresco. Mas a mosca em minha frente continua a me encarar. Não sei em que momento começo a entender. De repente me sinto pequena como ela. E os milhares de ruídos já não são mais distinguíveis em meu ouvido. Já não sinto coisas como frio e fome. O seu nojo e o meu nojo são o mesmo. Mas minha fraqueza nunca foi tanta. Bastava que uma batida de jornal me esmagasse por inteira.

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