x

Princesa Mononoke E O Olhar Sobre O Ambientalismo

PRINCESS MONONOKE | Hollywood Forever

Por Thadeu Vilas (Amante) – TXII

Que Hayao Miyazaki é responsável por alguns dos melhores filmes de animação (tanto do ocidente quanto do oriente) não é nenhuma novidade. Obras repletas de detalhes e com alto teor filosófico são algumas de suas marcas e em Princesa Mononoke (1997) elas se mantêm presentes, mas enquanto nos demais filmes a mensagem principal é de teor subjetivo, a desse clássico é bem mais objetiva: a importância do ambientalismo.

O enredo do filme se passa no Japão medieval – sendo um pouco mais específico, no Período Muromachi – e tem como protagonista o Príncipe Ashitaka, que após entrar em um confronto com um demônio-javali para salvar seu vilarejo, acabou sofrendo graves consequências: um dano físico em seu braço e a expulsão de sua aldeia. Devido a isso, o herói parte em busca de uma cura para seu braço e de respostas do motivo daquele demônio ter atacado seu domínio – seu povo vivia em paz com a natureza até então -. Conforme a história progride, vamos conhecendo os demais personagens principais: San (a Princesa Mononoke) e Lady Eboshi.

San é uma garota que foi criada entre deuses-lobos, por isso se vê mais como animal do que humana. Lady Eboshi é uma mulher da alta sociedade que governa a Ilha de Ferro, uma espécie de vila, cujo funcionamento se dá pela divisão de tarefas: os responsáveis pela primeira linha defesa, caça e plantio no geral são homens, enquanto as mulheres são responsáveis pela produção do ferro – mulheres, estas, que costumavam trabalhar na prostituição em bordéis – e por último, há uma parte reservada para pessoas com hanseníase responsáveis pela produção de armas de fogo. Uma vila pacífica – para as pessoas de dentro -, com pouquíssimo grau de discriminação e formada por pessoas que antes estavam em situações vulneráveis que foram recolhidas e dadas a chance de viver uma vida digna.

A responsável direta pela fúria dos espíritos da floresta é Lady Eboshi, pois o método com que ela conduz a produção de ferro agride demasiadamente o meio ambiente. Para tentar parar o processo de degradação, San e sua família de lobos começam a tentar matar os humanos da Ilha de Ferro, enquanto Lady Eboshi retalia o ataque e começa a destruir cada vez mais a floresta, concentrando seus esforços na caça aos lobos e, posteriormente, na caça ao grande espírito da floresta.

Em um extremo temos uma garota que não se vê como humana e que pretende matar todos os residentes da Ilha de Ferro como forma de assegurar o equilíbrio do meio ambiente, diametralmente oposto temos uma mulher da alta sociedade que não se importa com o meio ambiente, mas que foi graças a ela que diversas pessoas conseguiram uma melhoria significativa de vida, e no meio temos o príncipe herói, que quer que ambos possam coexistir em harmonia.

Fazendo-se as devidas ressalvas, é possível analisar os 3 personagens sobre a seguinte ótica: Lady Eboshi representaria a burguesia antipreservação, San é uma alegoria ao ambientalismo exacerbado e completamente utópico (e levemente terrorista) e Ashitaka, o desenvolvimento sustentável.

Lady Eboshi não se preocupa com o estado no meio ambiente, visto que ela só o vê como uma forma de se obter matéria-prima para a produção do ferro. Ela desmata e provoca incêndios como forma de afastar os espíritos da floresta da Ilha de Ferro e com isso acaba desregulando toda a dinâmica ambiental. A supervalorização do humano em detrimento da natureza não se mostra beneficial para nenhum dos lados, visto que os deuses que começam a se enfurecer e declarar guerra contra os humanos, e por ser um recurso não renovável, Eboshi encontraria dificuldades em manter sua alta produção e enfrentaria crises no futuro caso continuasse no mesmo ritmo.

Apesar de absurdo, o comportamento de Lady Eboshi fica longe de permanecer somente na ficção. Há uma corrente muito forte de pessoas que desmerecem o movimento ambientalista devido a crença de que a economia deve sempre vir antes do equilíbrio ambiental. Há exemplos de lideranças mundiais que seguem esse ideal e como exemplo atual temos os atuais presidentes dos EUA e Brasil: Donald Trump e Jair Bolsonaro. Bolsonaro em seus primeiros cinco meses de governo promoveu o desmante das políticas ambientais vigentes por meio do enfraquecimento do Ministério do Meio Ambiente, revisão de todas as Unidades de Conservação, desmantelamento da política climática, entre outras ações. Trump (espelho moral de Bolsonaro) também segue uma linha de mudanças na política ambiental deixada por seu antecessor (Obama) e retirou os EUA do Acordo de Paris. Há muita rejeição em assuntos relacionados a ambientalismo, pois, inevitavelmente, toda medida “verde” adotada acaba provocando uma diminuição no ritmo econômico, consequência que nem todos querem enfrentar.

Já no outro lado tem-se o ambientalismo exacerbado de San, que defende a não existência de humanos na região a fim de manter a natureza como estava. Com essa meta em mente, ela planeja matar Lady Eboshi, a líder, e espera que com isso as demais pessoas fiquem com medo e deixem a região, mas em nenhum momento Mononoke hesita quando vê a necessidade de matar outros humanos, deixando a entender que não veria problema caso necessitasse matar a Ilha de Ferro inteira. Esse ambientalismo é completamente fantasioso e terrorista quando aplicado ao todo, pois prega a completa não interferência do homem, propondo a separação completa da civilização humana da natureza, mesmo que pela força. Porém, analisando-se o contexto especificamente, o objetivo de San de isolar a área não era ruim, pois o espírito mais importante da floresta residia nessa área e como os humanos não demonstravam preocupação com o meio ambiente e estavam dispostos a botar a mata inteira a baixo e matar os deuses-animais de lá, é possível compreender a preocupação da “princesa”. Fazendo uma analogia com a realidade brasileira, San buscava criar uma Unidade de Conservação.

Unidade de Conservação é um conceito estabelecido pela Lei n° 9.985, de 18/7/2000, e vem delimitada no artigo 2°, inciso I:

“I – unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção;”

Existem categorias de Unidades de Conservação, podendo estas serem do tipo de Proteção Integral ou Uso Sustentável. San planejava seguir o modelo do primeiro tipo. Ainda na Lei n° 9.985/00 vem previsto o que é uma área de proteção integral, no artigo 7°, parágrafo 1°:

“§ 1o O objetivo básico as Unidades de Proteção Integral é preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos nesta Lei.”

Dessa forma, não poderia ocorrer atividades econômicas dentro da área protegida e assim o grande espírito da floresta ficaria protegido, assim como os demais deuses. A preocupação de San mostrou-se legítima perto do fim do filme, quando o grande espírito é morto e tem sua cabeça roubada a mando de um governante. Portanto, é possível ver que a intenção de Mononoke não era viciosa, mas os meios que a mesma empregava para atingir seus objetivos eram.

A atitude violenta que San emprega pode ser comparada, com muitas ressalvas, as do chamados ecofascistas. Muitos tomaram conhecimento da existência dessa corrente em 2019, após o tiroteio ocorrido numa mesquita na Nova Zelândia. Segundo essa vertente da extrema-direita, que mescla a teoria malthusiana com nacionalismo, a superpopulação levará à destruição do meio-ambiente, principalmente o crescimento da população não branca. Essa visão não tem como base a preocupação ambiental, mas sim o ódio étnico-racial e o nacionalismo exacerbado, visto que o alvo do ódio dos ecofascistas são, sobretudo, imigrantes e a maioria dos apoiadores é composta por neonazistas. Com postura inflexível, membros dessa vertente promovem ações duras e terroristas contra imigrantes e populações minoritárias, como o atirador de El Paso – responsável pelo massacre que matou 22 pessoas num hipermercado do estado do Texas – e o atirador de Christchurch – responsável pelo massacre em uma mesquita da Nova Zelândia. O atirador do El Paso, em uma passagem de seu manifesto, afirma com convicção que a expansão urbana provocava a dizimação do meio ambiente e isso colocava em perigo as futuras gerações dos EUA – e que imigrantes, encorajados por corporações, eram os responsáveis-; já o atirador de Christchurch declarou-se ecofascista em seu manifesto e definia o movimento como “autonomia étnica para todas as pessoas com um foco na preservação da natureza e da ordem natural”. Porém é importante ressaltar que o ecofascismo é muito além de puramente atos terroristas, visto que ele é um movimento organizado, possui seus “intelectuais” e possui pessoas influentes o suficiente para opinar na política de imigração de países como EUA (a Federation for American Immigration Reform (FAIR) foi fundada pelo vanguardista do ecofascismo, John Tanton, e hoje 6 conselheiros do presidente Donald Trump têm laços com tal organização). O ecofascismo é uma forma da extrema-direita se aproveitar do campo da preocupação ambiental legítima para semear seu ódio étnico-racial.

Voltando para o filme, o nosso protagonista, o príncipe Ashitaka, não está nos extremos, pois vem de uma vila que vivia em comunhão com o meio ambiente. Porém, sua vila sobrevivia da agricultura e do artesanato, um quadro bem diferente daquele encontrado na Ilha de Ferro, mas mesmo assim o príncipe não desiste da sua ideia de uma convivência pacífica entre humanos e natureza. O desejo de Ashitaka pode ser comparado ao desenvolvimento sustentável, que é basicamente a utilização de recursos naturais de forma consciente para não afetar as próximas gerações. Observa-se ao final do filme que o desejo de Ashitaka foi alcançado e os habitantes da floresta e da Ilha de Ferro começaram a coexistir em paz, mas não são dados muitos detalhes de como o acordo foi realmente firmado. Ainda comparando com a realidade brasileira, devido a importância ecológica da área como já foi explicitado, o mais provável que acontecesse para permitir as atividades econômicas dentro da área, seria a criação do segundo tipo de Unidades de Conservação: as de Uso Sustentável. Elas estão previstas na Lei n° 9.985/00, artigo 7°, parágrafo 2°: “O objetivo básico das Unidades de Uso Sustentável é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais”. Dessa forma, o ecossistema mais importante da região não seria comprometido e as pessoas poderiam continuar vivendo e produzindo lá.

Princesa Mononoke é mais um filme genial de Miyazaki e que traz uma temática de extrema relevância, visto que as mudanças climáticas e degradação ambiental continuam ameaçando a estabilidade do planeta. É importante sempre se atentar para a questão ambiental, mas tão necessário quanto é garantir o bem estar da população, sem escolher um em detrimento do outro, planejar da melhor forma possível para que ambas as demandas sejam atendidas, sendo imprescindível que não caiamos nas falácias oferecidas pelo ecofascismo. Essa é a mensagem que Miyazaki passa em seu filme e ela não poderia ser melhor.

Um comentário em “Princesa Mononoke E O Olhar Sobre O Ambientalismo

  1. Vim em busca de informações para uma redação sobre as queimadas atuais no Pantanal, e nossa, que analise incrível sobre essa obra tão linda que é esse filme. Parabéns aos envolvidos! Vai ser de grande ajuda, obrigada!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s