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Sacada

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(Créditos: foto de Victor Moriyama para o The New York Times, sobre o isolamento em SP)

Por Ana Toller (Curta) – TX

Estava ansiosa. Lia um texto em meu quarto quando percebi que usava o artifício da leitura em voz alta; a cabeça definitivamente em outro lugar. Quando preciso desse recurso para concentrar, sei que é inútil permanecer tentando e o momento propício para usar o truque da Sacada.

Explico. É aquele lugar do prédio onde você sente o ar do mundo. No interior do apartamento circulamos por um ofurô aromático repleto do ar dos nossos pertences e do próprio suor. Minha técnica consiste em abrir a sacada, apoiar um pé no outro e os braços no gradil. Depois, respiro 10 vezes profundamente.

O privilégio de morar no último andar é para além do discreto charme da burguesia, porque o mundo visto da sacada não é só privilégio, mas afronta minhas ansiedades. Ademais, eu duvido que a verdadeira burguesia saiba aproveitar o ar que vem da rua, sabe? O ar que vem intenso, com todos os encantos e dissabores do passeio público, resultantes do fluxo de quilômetros de uma cidade toda.

O ar que chega na sacada é o ar do monóxido de carbono, mas para chegar aqui no 16º  ele também já foi filtrado nas árvores e agora carrega inúmeros outros odores, mas principalmente o cheiro do alho sendo frito no apartamento do andar de baixo.

Enquanto dou meu “respiro” anti ansiedade,  a premissa é focar em três situações simultaneamente. A primeira, e que sempre me intriga, é a de ver as coisas pelo ângulo de um drone. Sinto-me incomodada porque a maior parte das nossas vidas vemos os objetos tridimensionalmente na altura dos olhos ou até onde a cabeça pende. Da sacada, em contrapartida, conseguimos intensamente observar o formato da árvore bem podada,  das sombras e dos carros se movimentando, como se pudessem ser recolhidos e colocados na parede de um garotinho colecionador.

A segunda são as luzes da cidade. Elas me lembram que existe um número quase imensurável de gente vivendo a própria vida. Quase imensurável porque nasce e morre gente o tempo todo, então, esse sempre será um número de pouquíssima confiabilidade.

Você deve pensar: “mas esse fato deve piorar sua ansiedade”.

E lhe respondo que está equivocado, pois me alivia.

Alivia porque é satisfatório pensar no tanto de seres humanos que lidam com as próprias vitórias, derrotas e acendem e apagam suas luzes o tempo todo.  Se olhasse a vida acontecendo pela perspectiva da minha sacada no período de uma noite completa, a filmasse e depois acelerasse o vídeo,  notaria que na verdade estamos rodeados por um gigantesco pisca-pisca que dura o ano todo, de humanos acendendo e apagando luzes.  É isso: ver as luzes da cidade de forma a se encantar com um natal permanente.

 Em terceiro lugar, porém não menos importante, está o olhar que deposito sobre as sacadas das outras pessoas. Sempre que saio pro respiro e me deparo com outros seres tirando seu tempo em sua própria sacada, balanço a cabeça num cumprimento que sei que nunca será correspondido. Mesmo assim, crio verdadeiro  vínculo com o meu parceiro de sacada. É interessante porque apesar de enxergá-lo, nunca é nítido para mim o que ele está fazendo na sua sacada. Ah, cabe lembrar que também tenho parceiros de sacada mais tímidos, os quais apenas deixam as luzes acessas, mas se mantêm  dentro da própria sala de estar, normalmente assistindo à televisão. Esses são os que mais reparo, fico tentando adivinhar o que assistem e penso se estão cansados,  se trabalharam hoje ou se estão ali porque há alguma licença médica em vigência.

Infelizmente, o lado negativo de me sentir próxima dos parceiros de sacada é o breve momento de tristeza que me causam quando partem. As vezes distraio a visão  em outro ponto do meu panorama e quando retorno o olhar eles já não se encontram mais ali: as luzes se apagaram. Normalmente me consolo pensando: “tudo bem, ainda  é cedo, tenho muitos colegas de sacada para assistir; aliás..será que eles também me assistem?”.

Após esse tempo de observação, noto que meu chá já acabou e me preparo para voltar à clausura do ar abafado do meu apartamento.

Como quem termina um encontro casual por falta de assunto, suspiro ensimesmada um profundo “é isso aí”. Depois, fecho a sacada, apago as luzes e cerro a cortina.

Espero que alguém, em algum prédio vizinho também sinta-se ferido por perder a minha companhia de sacada. Mas, tudo bem amigo, amanhã, sem dúvidas eu voltarei.

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