x

Sobre a necessidade de ter um pouco de Poliana dentro de si em tempos de caos

Por Flávia Gomes (Dora) TXII

Não me considero uma pessoa otimista sobre as coisas, no geral. Talvez a
mistura de ansiedade com realidade faz com que minha cabeça sempre pense nos
piores cenários possíveis. Sandro, meu antigo psicólogo, costumava dizer que isso
é uma forma de proteção contra expectativas – se as coisas ocorressem melhor do
que eu espera, ótimo. Se não, ao menos eu não me decepcionava. Sendo isso ou
não, a verdade é que é péssimo pensar nos piores cenários possíveis quando o
mundo em si está em um cenário já caótico e tudo que você pensa é “ainda dá para
piorar”.

Para ser sincera, não sei qual foi a primeira vez que li Poliana. Tudo que
lembro é que era criança e guardava a ideia geral do que eu achava que era o livro
comigo. Anos mais tardes, durante uma das muitas sessões com Sandro, ele
acabou citando o livro. Aí eu lembro muito mais da leitura. Li agora, de novo.

Então, falo aqui sobre Poliana Moça – o segundo livro da coleção -, apenas
porque acredito que se encaixa mais no que quero.

O livro se divide em duas partes: na primeira, Poliana ainda está com seus 13
anos, como se conhece do primeiro livro. Na segunda, ela está com seus 20 anos. A
passagem de tempo é o ponto-chave do livro – é onde fica o questionamento se o
jogo do contente é somente uma utopia e, portanto, só funciona para a Poliana
criança.

Falando nele, o jogo do contente é peça-chave da vida e história de Poliana.
Como o nome mesmo diz, o jogo consiste em tentar achar o lado bom das coisas e
situações. Quando Poliana ainda é criança, tudo parece até um tanto forçado – a
menina procura ver o lado bom até no fato de não gostar da segunda-feira. Com o
amadurecimento da personagem e o encontro com realidades diferentes, o jogo do
contente muda de sentido.

“ – Que o lugar mais solitário do mundo é uma multidão na cidade grande.”

Com a chegada em Boston, uma cidade muito maior do que a sua própria,
Poliana começa a ter os primeiros confrontos com outras realidades. A começar
pela cidade em si, cheia de pessoas que não tem tempo para nada. Rapidamente,
ela chega a conclusão – que pode muito bem ser usada para nós, aqui e agora – que
essas pessoas corriam tanto sem saber nem para onde iam e, acima de tudo, só
pensam nos seus próprios umbigos.

“Para uma mulher que espera que alguém lhe diga que é preciso enfrentar
um dia de cada vez já que as coisas são muito ruins, é, no mínimo, difícil reagir
quando ouve uma criança lhe dizer que, porque as coisas são muito boas, é uma
sorte não ter de viver mais do que um dia de cada vez.”

Sejamos claros, Poliana e o jogo do contente não é sobre ver as coisas da
melhor forma possível e fingir que nada de ruim existe no mundo. A medida que
Poliana cresce e tem contato com problemas reais do mundo – pobreza,
necessidade alheia, fome – ela reconhece que nada disso tem lado bom. O que
precisa existir, na verdade, é o senso de coletivo para que essas situações mudem,
apesar de acreditar que nunca vamos conseguir salvar o mundo todo. Poliana é,
sobretudo, um livro sobre manter viva a esperança.

“Olhava nos olhos das pessoas que encontrava e sorria. Em seguida, ficava
desapontada, mas não surpreendida por não receber um sorriso de volta. Já estava
acostumada a isso. Mas sorria assim mesmo, esperançosa: quem sabe alguém,
alguma hora, corresponderia ao seu sorriso?”

Se, em tempos normais, todos precisamos de um pouco de Poliana dentro de
nós, em tempos de caos ela se torna uma necessidade. Não é sobre tentar ver o
lado bom em ficar uma semana inteira dentro de casa, ou de milhares de pessoas
estarem morrendo, ou ainda sobre o sistema de saúde não estar preparado para
isso. É sobre ter consciência de que o senso de coletivo é necessário e que, se
cada um fizer a sua parte, menos pessoas morrem. Sobre conseguir ver o mundo
como ele é, mas não deixar de acreditar que há algo bom por aí.

É sobre manter um filete de esperança aceso para que os pensamentos de
piores-cenários-possíveis não te consumam por dentro.

“O que homens e mulheres precisam é de encorajamento. Os poderes
naturais de resistência devem ser fortalecidos, não enfraquecidos… em vez de
sempre falar dos erros de um homem, fale a ele sobre suas virtudes. […] As
pessoas irradiam o que vai em sua mente e em seu coração.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s