Política internacional · Política Nacional e Internacional

Zhongnanhai

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Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Todos conhecem, ou ao menos já viram, linhas cronológicas. Nessas linhas destacam-se eventos relevantes para a situação que está sendo descrita. Normalmente, esses eventos são situações de ruptura, isto é, eventos que interrompem o que estava acontecendo antes. Um exemplo disso é colocar a Batalha de Stalingrado como um evento relevante em uma linha cronológica sobre a Segunda Guerra Mundial, uma vez que esta batalha rompeu com a sequência de vitórias nazistas na invasão à Rússia. A pergunta é: qual a relação disso tudo que foi falado com o título do texto? Ora, o mundo está vivendo mais um evento que vai fazer parte de futuras linhas cronológicas: a pandemia do COVID-19 e a ruptura dos EUA como principal potência mundial. Quem vai dar as cartas do jogo não é mais a Casa Branca, mas Zhongnanhai. Contemplem o nascimento da Era Chinesa.

As linhas cronológicas são excelentes para dar o devido destaque para os eventos importantes. Porém, passam uma impressão de absoluta espontaneidade desses eventos, algo que passa longe de ser verdade. Isso não quer dizer que sou adepto a teorias conspiracionistas que dizem que o coronavírus foi uma arma chinesa para dominação global. O que estou dizendo é que a pandemia, essa sim natural e espontânea, apenas deixou o terreno pronto para uma China que há anos se prepara para assumir seu papel como principal potência global. Teremos um evento para marcar na linha, mas esse evento apenas vai acontecer porque tudo indicava que, cedo ou tarde, iria ocorrer.

Não é segredo o acelerado desenvolvimento chinês nas últimas quatro décadas. Para os fins deste texto, analisaremos quatro dados relativos a áreas estratégicas que confirmam como a China vai emergir como principal potência após essa crise: economia, investimentos e cooperação internacional, ciência e tecnologia, e capacidade industrial.

Começando pelo mais fácil de analisar: economia. Desde 1976, o país asiático não sabe o que é recessão. São 44 anos contínuos de crescimento, e com taxas de crescimento de PIB que são incomparáveis com qualquer outro país. Para se ter ideia, o pior ano no período foi 1990, em que a China cresceu “apenas” 3,9%. Na última crise global, a de 2008, os EUA viram seu PIB cair 0,29% e 2,78% no ano seguinte, enquanto a China cresceu ao menos 9% ao ano no mesmo período.

Embora a economia chinesa cresça em ritmos que os norte americanos sequer sonhariam, os EUA ainda possuem um PIB de 6 a 8 trilhões de dólares mais forte que o chinês. Contudo, ao considerarmos o critério de paridade de poder de compra, isto é, adequando o valor os preços de cada país, a economia chinesa já é a maior do globo. Devido a essas disparidades metodológicas e critérios de análise, é fundamental analisar a economia além do PIB. Uma forma é avaliar a dependência global em cada economia. Até o ano 2000, 80% dos países do mundo faziam mais comércio com os EUA que com a China, porém, a partir da entrada do país na Organização Mundial do Comércio, em 2001, esse número foi praticamente invertido e hoje 128 dos 190 países reconhecidos pela ONU tem a China, e não os EUA, como principal parceiro comercial. Um ponto muito importante é que a China também vence em comércio com o Movimento Não Alinhado, maior bloco de países na ONU, com 115 membros, fundado para demarcar a independência dos países membros durante a Guerra Fria. Toda essa relação com outros países faz com que a China seja o país com o maior número de missões diplomáticas no planeta, com 169 embaixadas.

Além da economia, é fundamental avaliar a produção científica de cada país, uma vez que isso é um indicativo de inovação e de desenvolvimento de novas tecnologias. Nesse quesito, a China é, desde 2016, o país que mais publica artigos científicos no planeta, assim como, o que mais registra patentes desde 2011. O país também é líder em produção sobre Inteligência Artificial, 5G, métodos renováveis de produção de energia, dentre outros.

Uma demonstração um tanto quanto cômica do futuro científico dos dois países é uma pesquisa encomendada pela empresa dinamarquesa Lego que perguntava para crianças de 8 a 12 anos “o que você quer ser quando crescer?”. Resposta chinesa: astronautas. Resposta estadunidense: youtubers. Vale lembrar que a China foi o primeiro e único país a pousar uma sonda no lado escuro da lua.

Além de todos os dados acima mencionados, a crise do coronavírus demonstrou que de nada adianta o país ter uma economia forte se essa economia não tem um forte lastro em capacidade produtiva. Ora, todos vimos o desespero da maioria dos países para conseguir respiradores e outros equipamentos médicos para conseguir suportar a crise. O que também foi visto é que a maioria desses países recorreu a China para conseguir esse equipamentos, inclusive os EUA. Considerando que mais de 41% do PIB da China é graças a indústria, enquanto o setor representa apenas 20% do PIB estadunidense, essa movimentação global é natural. 

Como podemos ver, e como foi afirmado no início desse texto, a China já se prepara há anos para assumir o posto de principal potência mundial. Então, qual o papel do coronavírus nisso? Primeiramente, tudo indica que 2020 será um ano de recessão global, com alguns analistas indicando que será a maior crise desde 1929. Considerando o exposto acima, principalmente a dependência de outros países em relação à economia dos EUA ou da China, e os resultados obtidos na crise de 2008, podemos ter certa segurança ao afirmar que os impactos econômicos serão mais graves na economia estadunidense do que na chinesa. Além disso, a China conseguiu controlar a doença de maneira que poucos países conseguiram reproduzir. Enquanto os EUA já ultrapassou o país asiático em mais de 5 vezes o número de infectados, sendo que esse valor tende a aumentar nas próximas semanas. Nem preciso dizer que quanto maior o número de infectados, maior o investimento necessário em saúde, maior o tempo de quarentena e maior o impacto econômico da pandemia.

Quem leu o texto até agora deve estar pensando: então para ser a principal potência mundial basta ser a principal economia! Não! Ser a principal potência global diz muito mais respeito a sua capacidade de influenciar outros países e de ser visto como a principal referência para estes países. Nos últimos anos, mais especificamente desde a eleição de Donald Trump, o prestígio estadunidense vem sendo diminuído pela mídia global de forma sistemática, e isso foi aprofundado com a pandemia do coronavírus. Por outro lado, a imagem da China só tem melhorado, principalmente devido a postura do país perante a mesma crise. Para a maioria do mundo os EUA é o país que age como um pirata global sequestrando equipamentos médicos e tentando comprar empresas de vacina para uso exclusivo, enquanto a China é o país que mais faz doações para o combate à doença, ajudando mais de uma centena de países, seja através de envio de profissionais de saúde, até doação de máscaras e equipamentos e investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos, tratamentos e vacinas. Na narrativa mundial, o vírus até pode ter nascido na China, mas o vilão é os EUA.

Falando em narrativa, a China tem se apropriado muito bem dela, fazendo investimentos e doações estratégicas para atingir seus interesses globais. Exemplo disso foi o massivo apoio à Itália, em comparação ao apoio quase que inexistente ao país por parte da União Europeia. Isso fez com que diversas autoridades italianas exaltassem Beijing, ao mesmo tempo que criticassem muito Bruxelas, enfraquecendo aos poucos essa outra liderança global. Lembrando que a UE é a principal adversária da Iniciativa do Cinturão Econômico da Rota da Seda, principal programa chinês para integração regional e aumento de presença em mercados estrangeiros. A iniciativa é o programa com maiores investimentos em infraestrutura no planeta, com projetos espalhados pela Ásia, África e Europa, com custo total avaliado em até 8 trilhões de dólares até a data de conclusão prevista para 2049. 

Poderia ainda citar que o país tirou mais de 850 milhões de pessoas da linha da pobreza; é o país com os planos mais concretos para colocar pessoas na lua novamente; é o país com maior população do planeta e com a maior capacidade agrícola, líder absoluto em importação de commodities.

O mundo precisa da China. E a China tem plena consciência disso. quando o mundo inteiro desesperadamente bateu às portas do país pedindo ajuda, ela atendeu. Se vai sair mais forte da crise, eu não posso afirmar com certeza, mas que vai sair menos enfraquecida é um fato, e, na atual conjuntura, era tudo que Beijing precisava para ser a nova referência global. 

Linha cronológica é aquela que dá destaque para os eventos relevantes. A pandemia é um evento relevante e, ao menos, uma das consequência dela é aquela que já estava em construção há alguns anos: a China como principal potência global. O que o país fará com esse protagonismo todo é assunto para outro texto, por ora, basta aprender que Zhongnanhai é a nova Casa Branca e que seu significado diz respeito aos lagos presentes na capital chinesa Beijing, mais especificamente “mares do centro e do sul”. Algo de certa forma poético, considerando que um país dito periférico poucas décadas atrás, que historicamente desenvolvia uma política diplomática no modelo sul-sul – aquela feita entre países pobres ou em desenvolvimento e independente de grandes potências ocidentais -,  está prestes a se consolidar como o centro do mundo. A Era da China está apenas começando.

(podem tirar print e me cobrar depois)

———————

*Os dados deste texto foram retirados de: 

https://data.worldbank.org/country/china

https://data.worldbank.org/country/united-states

https://www.card.iastate.edu/ag_policy_review/article/?a=40

https://www.weforum.org/agenda/2016/12/the-world-s-top-economy-the-us-vs-china-in-five-charts/

https://www.nature.com/articles/d41586-020-00084-7

https://www.wsj.com/articles/how-the-u-s-surrendered-to-china-on-scientific-research-11555666200

https://www.weforum.org/agenda/2020/02/countries-manufacturing-trade-exports-economics/

https://www.worldometers.info/coronavirus/

2 comentários em “Zhongnanhai

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