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Óciosfork: Cosmo de Cícero

Cícero preserva introspecções na expansão sonora de 'Cosmo' | Blog ...

Por Lukas Moret (Gallo) – TXIII

O que é o infinito? O mais novo disco do artista carioca Cícero Rosa Lins apresenta o infinito emoldurado em sua capa e propõe algumas comparações implícitas. Tratando sobre sentimentos, o carioca evidencia que os sentimentos podem ser entendidos e interpretados das mais diversas formas. Apesar da construção geral e comum, cada um enxerga de um jeito o que é a felicidade, por exemplo, baseando-se em suas experiências pessoas. Assim também é o infinito.

Lançado em 16 de março, o quinto álbum de Cícero exprime sentimentos dolorosos e acolhedores na mesma proporção. Sucedendo o colaborativo Cícero & Albatroz (2017), o novo disco do cantor e compositor fluminense manteve a introspecção singular do artista, mas também introduziu elementos inovadores e conceituais em uma busca por aportar em novos territórios criativos. Aqueles que acompanham o carioca desde sua estreia conseguem constatar a evolução dele sem perder as suas raízes.

Em meio a tensão causada pela expansão do coronavírus, as canções da nova produção de Cícero vieram a público em um momento no qual os sentimentos expressos por algumas faixas não poderiam exprimir melhor as sensações de solidão e ansiedade que muitos estão sentindo durante a necessária medida de isolamento social. Entretanto, essas canções foram produzidas antes de tal providência ser adotada.

Desde seu primeiro álbum, Canções de Apartamento (2011), Cícero passou por diversas transformações artísticas ao longo da década até a chegada de Cosmo, este gravado ano passado em sessões entre Portugal e Brasil. Marcado pelo registro de experiências pessoais do músico, o novo disco de Cícero nasce por meio de uma nítida evolução musical do artista, caracterizada por refinamentos nas composições e arranjos, guitarras realizando riffs, ambientações experimentais e o amplo uso da tecnologia na construção das harmonias.

Aliás, vamos falar sobre as faixas. ‘’Céu não há, hoje foi embora…’’ são com esses versos que o trabalho de Cícero é aberto pela melancólica ‘’Falso Azul’’, construída por meio da sustentação de acordes em um sintetizador, pelo canto aconchegante e sem pressa de Cícero e pelas vozes complementares de Beatriz Pessoa, Mari Milani e Leonor Arnaut, de modo que a faixa cresce progressivamente com a adição de instrumentos como o baixo elétrico e a guitarra.

‘’Falso Azul’’ foi lançada acompanhada de um videoclipe, este que retrata um pouco do cotidiano do artista durante a produção do álbum, composto por cenas de solidão devido à distância do Brasil e pelo aspecto sonhador metaforizado no céu e no infinito, temas explicitados pela capa do álbum. Além disso, a sensação passada pelo videoclipe progride junto da música, o que se explicita em um começo mais angustiante e marcado por cores cinzas e em um final leve, com o músico mais enérgico.

Em contraste com ‘’Falso Azul’’, a segunda faixa ‘’Some Lazy Days’’ é marcada por guitarras ensolaradas e de uma letra alegre, que retrata o amor no cotidiano e sobre questões mais corriqueiras (‘A gente vai ficar de vez / vai passar lá na Tijuca / perto do ponto do 433 / e aquele vestido lindo que você tem’’). Cabe destacar a qualidade dessa faixa, escolhida por muitos como a favorita do álbum.

Dando prosseguimento a obra, ‘’Esquinas’’ continua buscando narrativas para cenas cotidianas, mas dessa vez utiliza-se de figuras grandiosas como o mar. O instrumental é minimalista e o tempo é marcado pelo movimento das guitarras.

Terminada a introspecção, começa uma levada de bateria contagiante e mais acelerada na faixa ‘’Às Luzes’’ marcada por uma letra existencialista em uma medida bem-vinda. A guitarra swingada garante a música uma boa continuação, de modo que a letra angustiante se torna mais suave.

Prosseguindo, temos ‘’Marinheiro Astronauta’’, uma das faixas mais singulares da nova obra de Cícero, visto que apresenta uma estrutura livre e dinâmica regular. Cabe destacar a icônica virada presente no final da música, dando uma atmosfera completamente nova ao som.

Em seguida, ‘’Miradouro Nova Esperança’’ surge como uma das faixas mais fiéis à temática de Cosmo (É, são dias estranhos / Também não sei onde vai dar / Ares e cores de algum lugar / Me amiguei do vento, que é pra não cansar). Ao se aproximar de seu fim, ‘’Miradouro Nova Esperança’’ cresce e conta com a participação de alguns instrumentos orquestrais que garantem uma atmosfera de grandiosidade.

Passado o brilho, ‘’O Que Ficou’’ repete alguns temas da última faixa, porém os apresenta de maneira bem mais detalhista e com uma melodia que se acomoda nos timbres de piano. ‘’O Que Ficou’’ é uma faixa que combina perfeitamente com o pôr do sol e toda a reflexão que o acompanha.

Cessado o piano, começam os instrumentos de sopro em ‘’A Chuva’’, acompanhada de uma letra que trata sobre a pequenez humana e sobre como a dor é inevitável com o passar do tempo. Cabe ressaltar as semelhanças entre a faixa e o som típico do Los Hermanos, comparação que não é inovadora, visto que Cícero já fez versões cover de músicas da banda carioca.

Aproximando-se do fim, ‘’Banzo’’  se apresenta como uma poesia triste e necessária, tratando sobre a saudade, um tema inevitável nesse conjunto composto pro Cícero. Tratando de uma temática muito presente na vida de todos, é uma das canções com a qual os ouvintes podem mais se identificar.

Por fim, temos ‘’Nada ao Redor’’ mostrando o artista em seu momento mais reflexivo, acompanhado por sintetizador, vocais sussurrados e falsetes. A última faixa vem para fechar a temática existencialista do autor (‘’Não somos o centro / Nada é só sobre nós / Sem segredos’’).

Cosmo é um disco complexo e exige atenção daqueles que buscam por tudo que ele pode oferecer. O misto de sentimentos exprimidos por ele explicitam o quanto Cícero evoluiu desde 2011 – de uma vez por todas, o artista parece ter se firmado como cantor, instrumentista, produtor, compositor ou qualquer função que ele já tenha desempenhado.  E mais do que nunca, sabendo equilibrar introspecções e expansões, o carioca se firma como poeta, sutil ao tratar dos mais delicados e necessários temas porém consistente, o que o coloca mais uma vez em uma posição de protagonismo no cenário nacional. Cosmo não é o melhor álbum do artista, mas com certeza é um dos mais importantes e que expressam seu esforço constante em busca do melhor som que puder oferecer.

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