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Fausto: Primeira parte da tragédia

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Por Frederico Cazu dos Santos – TXIII

Goethe propõe sem dúvidas uma leitura enriquecedora. Suas obras são daquelas que cada leitor se sente tocado intimamente em pelo menos alguma passagem, aflorando sentimentos antes esquecidos ou até mesmo desconhecidos. Sempre carrega na escrita qualquer coisa de desilusão e, por vezes, traz a ironia como fuga à esse pessimismo constante. Seu Fausto não somente é embebido de todas essas características, sobretudo é estruturado em peça – permitindo construções típicas da fala que realçam tais elementos.

                A princípio, antes mesmo do enredo, destaca-se o cuidado à forma. O texto é por todo rimado e sua metrificação depende da circunstância da cena, tal como do ânimo daquele que profere. Conquanto acarrete em uma linguagem mais arcaica, as mensagens são irrisoriamente comprometidas, permanecendo desde tácitos deboches a evidentes angústias.

                A trama em si é baseada em uma lenda popular alemã, na qual se configura um pacto entre um médico e um demônio. Goethe parte dessa sintética base para uma aposta épica entre Fausto e Mefistófeles. Em um polo, um doutor angustiado, crente que houvera adquirido todo o conhecimento disponível (na época, resumido a medicina, jurisprudência, teologia e filosofia) e que não mais encontrava prazeres em quaisquer atividades mundanas. No polo oposto, um demônio demasiadamente experiente, com chifres e cascos de cavalo, que por força divina ou pelo acaso, encontra-se com nosso derrotado erudito.

                Não demorou muito para realização da aposta pactual. Mefistófeles convencia nesse momento um arrogante homem sem nada a perder – irritá-lo ou persuadi-lo não seria tarefa árdua. Dito e feito, Fausto compromete-se à disputa: quando o demônio o fizesse verdadeiramente feliz, Fausto a perderia.

                Deste momento em diante, inicia-se a acidez maravilhosa das ações e conversas do antagonista. As críticas são diversas, porém possuem maior recorrência a moral religiosa e a estrutura de ensino das Universidades. Aparentemente condenar ações regidas pelos desejos e regurgitar conhecimentos sobre livros não são problemáticas da contemporaneidade – surpreendendo um total de nenhum leitor. Não obstante, certas passagens, no momento histórico de suas publicações, foram de tamanha ousadia que receberam a censura do próprio autor, para proteção da própria veiculação. Ironicamente, a realização de atos antiéticos era especialidade do querido Mefistófeles e, portanto, daquilo não retirado fez-se muitos comentários.

                Ora, um homem respeitado e culto abdicava de tudo para viver os anseios mais proibidos, poderia algo fazê-lo retornar a vida de princípios? Neste ponto, surge Margarida – religiosa, jovem, esperançosa – dotada da função de tornar-se oposição aos prazeres proporcionados pelo desvirtuamento. Infelizmente, não tão desconstruído poderia ser um cavalheiro do século XVIII.

                Poderia me prolongar e dizer aos caros leitores do Ócios quem fora vitorioso, ou ainda, se Margarida viveu em sucesso. Reduzo-me, no entanto, a instiga-los a descoberta própria, pois não seria um mero calouro o mais apto para destrinchar as considerações filosóficas expostas na obra. Sendo assim, encerro essas mísera resenha mencionando que a tragédia possui duas partes e, ademais, não recebe esse nome à toa.

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