Política nacional · Política Nacional e Internacional

Quatro anos de golpe: um mandato do neoliberalismo

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Por Lucca Vinha (Jejum) – TX e Ana Paula Silveira (Boto) – TXI

Seguindo a linha do último texto, existem alguns marcos fundamentais para se colocar em uma cronologia do Brasil pós-redemocratização. Na visão de quem vos escreve, os principais eventos são: a eleição de Lula em 2002, resultando na inclusão da população mais pobre no orçamento do governo (podem cobrar um texto sobre isso depois), e o rompimento do pacto democrático, com o golpe que derrubou Dilma, a primeira mulher presidenta do Brasil.

Como muitos de vocês sabem, o golpe está fazendo seu 4º aniversário, em outras palavras, já temos um mandato inteiro de políticas neoliberais sendo praticadas no país. Quatro anos em que a defesa do combate à corrupção, o respeito às contas públicas e a moralidade e os bons costumes são as pautas que ditam o ritmo do Executivo. Mas, será mesmo? O que mudou no país (e na sua vida) pós-golpe?

Para início de conversa, precisamos analisar algumas questões muito importantes, a começar pelo dólar, que tem sido utilizado como um indicativo (de merda) sobre desempenho econômico, mas que a ultradireitapseudonacionalistabrasileira faz questão de ressaltar desde as absurdas jornadas de junho de 2013 – o que prova que antes da esquerda pular de cabeça e já sair apoiando qualquer manifestação popular, ela deve analisar a pauta –, saltou de R$ 3,55* para R$ 5,29**. O mantra neoliberal dizia que, com o golpe e com menos participação do Estado na economia (leia-se: desmanche) o dólar despencaria, e que isso seria maravilhoso para a sua viagem para Disney e para o futuro do país. Pois bem, o dólar disparou de vez e o mantra desmanchista, com toda sua cara de pau, se transformou em “dólar alto é bom pra economia”. A lógica é absolutamente simplista e funciona da seguinte forma: o Brasil é um país exportador, as exportações são em dólar, logo, o país ganha mais dinheiro com o dólar alto. Isso funciona até virarmos para a página dois. Nesta página, o Brasil, embora exporte bastante, também importa muito e possui uma indústria voltada para o mercado interno, que também precisa importar muitos insumos para funcionar. A conta não fecha e o resultado é apenas um poder de compra reduzido e uma forte desindustrialização.

Ainda nessa questão, é importante falar sobre a Petrobras. Primeiramente, como uma empresa com forte participação estatal e monopolizadora, sua função jamais deveria ser o lucro, mas sim, o abastecimento do país. Desde o golpe, a empresa adotou o chamado “preço de mercado”, isto é, pauta o valor dos produtos no valor internacional do barril de petróleo, portanto, coloca o lucro – como uma empresa privada faria -, acima das necessidades do país. A lógica de mercado resulta automaticamente em dólar alto que, por sua vez, resulta em gasolina e derivados a preços altos. Para efeito de comparação, em 2016, a gasolina estava custando 3,76 reais o litro. No final de 2019, este valor estava em torno de 4,55 reais. Isto representa um aumento de 21% no período. Nem preciso falar do impacto disto sobre o frete, e, consequentemente, sobre toda a cadeia produtiva e de serviços. Importante salientar que a única razão para não termos iniciado um ciclo inflacionário é a redução do poder de compra do trabalhador, associado às reservas internacionais (herança dos governos petistas) que têm permitido que o governo, de certa forma, controle o aumento do câmbio.

Porém, não só pela economia que se deve analisar um país. Os apoiadores do golpe diziam que assim o faziam para combater a corrupção (ironicamente, o golpe apenas aconteceu porque o PT decidiu não fazer vista grossa para os diversos crimes cometidos pelo então Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha). O combate à corrupção melhorou após o golpe? Se eu perguntar para um eleitor do Bolsonaro, a resposta é sim, mas não porque houve um avanço legislativo, maior independência e fortalecimento das instituições, ou mudança de postura dos governantes. A resposta é “sim, porque prenderam o Lula”. Na ótica bolsonarista, um processo fraudulento que destruiu todos os pilares básicos do estado democrático de direito representou o maior avanço civilizatório da história do país. Enquanto isso, o Procurador Geral da República volta a assumir o papel de Engavetador Geral dos tempos de FHC, e a Polícia Federal, sob os mandos de Sérgio Moro, serve apenas como firewall da familícia Bolsonaro. Ou vocês acham que foi à toa a insistência do Executivo para federalizar a investigação do Caso Marielle, ou passar a COAF para as ilibadíssimas mãos do Moro?

A reforma trabalhista passou, a reforma da previdência também e, recentemente, a carteira de trabalho verde e amarela. O manual de Chicago foi seguido à risca. Um mandato inteiro de neoliberalismo extremo e a economia não melhorou. A vida do brasileiro piorou. Voltamos para o mapa da fome, o desemprego cresceu, os direitos trabalhistas foram desmanchados, o salário mínimo não teve um aumento real, a indústria vem perdendo participação no PIB, e as instituições da União foram enfraquecidas. Os impactos do golpe, e das políticas neoliberais, foram todos, sem exceção, negativos.

Como se todo esse cenário entorpecedor já não fosse o suficiente, o golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff foi um dos atos mais escancarados da sociedade misógina que é o Brasil. Com sua a retirada da presidência, ficou a nítida mensagem: não queremos mulheres presidentes. Mulheres em posições de poder assustam, amedrontam e intimidam homens. Mulheres em posições de poder são desumanizadas, são descaracterizadas, são colocadas à prova ao máximo, e qualquer manifestação de emoção vira alvo de um comentário machista: “você é dura demais” ou “você é desequilibrada”. Nos querem ou desumanizadas, ou loucas.

Para visualizar isso com mais facilidade, basta lembrarmos o dia do golpe: cartazes com a ironia do “tchau, querida” e diversas interrupções às falas das mulheres congressistas independentemente do lado que elas assumiram. Suas opiniões, quais fossem, valiam menos do que a dos homens presentes no Congresso. As diversas piadas misóginas, que denotam o ódio às mulheres durante todo o seu governo, e depois dele ainda. A mídia reproduzindo este mesmo discurso, a exemplo da edição nada bem-intencionada da revista Isto é, que retirou de contexto uma foto da presidenta gritando um gol do Brasil e pôs a manchete “As explosões nervosas da presidente”. Descaracterizada. Homens são naturalmente duros, mulheres têm que ser suaves, até sob momentos de pressão extrema. Se demonstramos emoções demais somos muito sensíveis, se temos pulso firme, somos frígidas. Se nos expressamos com consistência ou não abaixamos a cabeça, desequilibradas. Mulheres no poder são sempre uma ameaça à ordem. Mesmo com todo o constrangimento que os brasileiros têm em assumir terem elegido o Collor, eu afirmo com tranquilidade: ele não passou por nenhuma humilhação, não sofreu com discurso de ódio ou com preconceito desta mesma natureza.

E as expressões machistas não se limitam ao momento da votação do golpe e à parte significativa da motivação que tirou Dilma do poder, mas estavam – e de certa forma, ainda estão – presentes no cotidiano do brasileiro: adesivos com o rosto de Dilma com o corpo de uma mulher sentada de pernas abertas na porta do tanque dos carros. Uma representação grotesca, violenta e machista. Eu não sei para vocês, mas saber que existem pessoas que te odeiam o suficiente para circular por aí com representações assim sobre você e achando isso divertido, é traumático. E passar por tudo isso ilesa, é impossível. Nos desumanizam, para depois nos violentar, para nos enlouquecer. Porque loucas não podemos assumir o poder. Mas eles podem.

A saída de Dilma foi uma perda enorme para a conquista de direitos e de participação política das mulheres no Brasil. Ainda somos menos de 15% no Congresso Nacional, e tirar tão violentamente uma mulher, que fora eleita democraticamente, do poder, principalmente porque se enxerga na mulher o alvo mais frágil, e pessoas frágeis não dirigem países, é o grito silencioso que todas nós ouvimos todos os dias: mulheres são odiadas no Brasil e não podem ocupar espaços como a Presidência da República. Foi uma perda para todas nós, mas não é surpreendente que as reações à primeira mulher eleita presidente do país, e que tomou posse ao lado da filha, e que foi reeleita, não sejam de amores e pacificidade. Todas nós sofremos, em todo esse processo, um duro golpe. Um golpe que nos custa caro como mulheres, e nos custa caro como país. Porque o retrocesso que esse machismo estrutural nos mostra é que enquanto não enxergamos mulheres como capazes de assumir cargos de poder, sempre vamos ficar para trás. Até 2017, apenas 25 mulheres chefiavam nações entorno do globo, e ainda assim, em 2020, o que vemos é que as líderes mundiais mulheres são as que estão obtendo mais sucesso no combate ao COVID-19. Perdemos muito, como sociedade no geral, pelo patriarcalismo, pela misoginia, e pelo machismo introjetado. Perdemos não só lideranças brilhantes, mas perdemos também em avanços sociais, de aumento dos indicativos de qualidade de vida, de políticas públicas de acesso à educação, à saúde, de estruturação familiar e de educação sexual. Perdemos, simplesmente, porque excluímos alguém por ser quem é.

Toda ruptura democrática gera resultados nefastos. Ao derrubar Dilma, o centro e a direita moderada se aliaram ao discurso mais retrógrado e fascista presente no país. O fruto disto apenas poderia ser a eleição de uma pessoa que é a própria representação de retrocesso. No dia 17 de abril de 2016, o país assistiu a primeira votação do golpe conduzido pelo Congresso Nacional. Lá, Jair Bolsonaro fez uma homenagem ao torturador de Dilma. Algo chocante, violento e misógino, mas coerente com seus trinta anos de vida pública. O resultado não poderia ser outro.

Fica aqui nossa homenagem para esta batalhadora mulher, com uma frase que mostra a essência de sua grandeza, ao mesmo tempo que mostra o quão pequeno é o nosso atual mandatário:

Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira, só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, fiquei três anos na cadeia e fui barbaramente torturada, senador. E qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para os seus interrogadores, compromete a vida dos seus iguais e entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador, porque mentir na tortura não é fácil.

Agora, na democracia, se fala a verdade. Diante da tortura, quem tem coragem, dignidade, fala mentira. E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, que eu tenho imenso orgulho, e eu não estou falando de heróis. Feliz do povo que não tem heróis desse tipo, senador, porque aguentar a tortura é algo dificílimo, porque todos nós somos muito frágeis, todos nós. Nós somos humanos, temos dor, e a sedução, a tentação de falar o que ocorreu e dizer a verdade é muito grande, senador, a dor é insuportável, o senhor não imagina quanto é insuportável. Então, eu me orgulho de ter mentido, eu me orgulho imensamente de ter mentido”.

Já se passaram quatro anos do golpe. Quatro anos de neoliberalismo e de avanço ultraconservador. Sim, o Brasil mudou. Mudou para pior. Com o golpe, quem perdeu não foi a Dilma, não foi o PT, não foi o Lula, ou a esquerda. Quem perdeu, na verdade, fomos todos nós.

 

 

* Valor do dólar em 17 de abril de 2016 .

** Valor do dólar em 17 de abril de 2020.

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