Padrão de beleza · Texto da semana · Transtornos Alimentares

[TW: Transtornos alimentares] Por onde começo a falar sobre você?

WhatsApp Image 2020-04-20 at 18.21.32

Por A.D. (autora anônima)

Bem, o transtorno alimentar para mim tem a ver com o peso da pressão estética que enfrentamos. Tem a ver com o discurso massacrante que nós mulheres (embora também existam homens com distúrbios alimentares) ouvimos: você não tem valor se não for magra. E vem da família, vem dos amigos e dos conhecidos, vem dos nossos parceiros, vem do inconsciente coletivo que reverbera crenças na nossa mente. É de cortar o coração, mas parte de mim acreditou, desde sempre, que um corpo padrão era um pré-requisito para eu ser digna de amor e aceitação.

Mas, hoje, com a terapia e com tudo o que vivi, sei que o distúrbio alimentar também nasce de dentro. A experiência também vem de angústias e dores muito singulares e individuais. É a mente fugindo de suas questões mais viscerais, é a expressão da dor, a dificuldade de encarar as próprias sombras, de se amar com suas partes mais escuras.

Sei também, que o transtorno começa com uma dieta, que é bem discreto e silencioso, que vem os pouquinhos e chega com contornos bem inocentes. É oportunista, porque se aproveita das fragilidades emocionais que mencionei e conta para nossa cabecinha a perigosa ladainha de que vale a pena controlar o corpo para fugir das mais sérias questões psicológicas.

E as influências diversas que mencionei são a armadilha da mente. A gente cai. Começou com uma simples dieta sabe? É sútil. Começa na matrícula na academia. Na low carb. Na balança comprada. Meu Deus, como eu queria voltar nesse pedacinho de tempo e me proteger de tudo isso!

E ele cresce aos poucos e gradativamente, sempre. E o T.A. se alimentou dos resultados e elogios, maquiando as dores existenciais e reforçando a crença de que sou tão vazia a ponto de só ter valor ao atingir um padrão estético que sequer existe.

E assim eu fiquei doente, indo na academia todo dia por mais de duas horas, pesando cada grama de comida. É só uma dieta!

Em meio a tudo isso começaram as crises de compulsão esporádicas, as quais se tornaram ao decorrer do tempo cada vez mais ligadas a episódios de tristeza profunda. E eu tentava estancar a dor com comida. É comer sem sentir o gosto, o que tem pela frente, o que gostava e o que não gostava, perder o controle, sem pensar, sem saber o porquê. E depois vinham os comportamentos compensatórios: aperta a dieta, mais tempo de exercício. Eu só descobri depois, mas isso já é bulimia.

Foi quando, em um dia muito muito escuro, de fato me forcei a vomitar. É terrivelmente difícil de explicar, vergonhoso e triste. De repente, eu vomitava todos os dias. E me sinto exposta todas a vezes que conto isso, porque bem sei que é difícil de entender. Toda vez que conto para alguém, encontro a mesma expressão de incompreensão, me sinto fraca e fútil. É uma voz sabe? Uma voz insistente e aterrorizante que mora em sua cabeça e martela o dia todo que você é incapaz, insuficiente e precisa vomitar. Todos os dias, o dia inteiro, de maneira ensurdecedora.

Quando notei estava muito, muito doente, o transtorno alimentar te rouba de você sabe? Te deixa fraca, faz você se sentir suja e incapaz de ser amada, te tira as forças, te coloca em lugares muito tristes e escuros.

E as pessoas seguiam dizendo que eu estava linda e mais magra. E era terrível porque eu sabia que estava arrebentada por dentro.

E dói demais. Dói cada pedacinho de mim que me foi tirado. Transtorno alimentar é assim. É pensar em comida cada segundo do dia, mas nunca comer. É contar calorias, se exercitar e ver o corpo aos poucos agonizar; mas não ter forças para parar. É pesar, cortar, restringir, compensar. É ver cada momento especial ser tirado de você.

Dói os jantares com os meus pais que perdi depois de semanas longe, dói cada almoço na vovó que não vivi de verdade com as pessoas que mais amo , dói cada noite de pizza com meus amigos que não aproveitei de fato porque estava contando calorias. Me sinto a pior das pessoas por tudo isso, porém sem forças para ter feito diferente, a verdade é que não havia espaço para momentos felizes em corpo tão doente.

Presa em um corpo que não era meu, vivendo uma vida que não era minha. Queria conseguir explicar para mim mesma e para todas as pessoas que não existe beleza em um corpo doente.

E esse texto é um grito de desabafo e a esperança de um abraço de acolhimento para alguém que também sofre.

Sei que não é fácil se curar, e que é, por diversas vezes, muito solitário, que são dias e dias, que se dá um passinho de cada vez. Mas me promete que vai buscar ajuda, tá bem? Promete que não vai desistir. Faz do seu corpo uma casinha onde cabe alguém feliz, acredita em mim quando digo que sua alma vale quinhentas vezes mais que qualquer padrão estético. Por que, meu bem, eu e você, a gente bem sabe, que não existe beleza (vida feliz) em um corpo doente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s