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A Metafísica de uma Namorada

Dez lições de Vinicius para aprender a amar - GGN

Por Kaleo Dornaika – TVI

Com o passar dos dias em quarentena fica cada vez mais difícil ignorar algumas bagunças. Há o guarda-roupas, as gavetas do escritório, o porta-malas do carro, coisinhas jogadas aqui e ali. Aos poucos tento arrumar. Deixei a estante de livros para o final, pois todos sabemos: há sempre algumas decepções ao arrumar os livros. Livros começados que, irresponsáveis, abandonamos; livros que amargamente não tivemos jamais tempo de ler; Códigos e Manuais caríssimos e desatualizados, uma palavra do legislador e viram papel de embrulho; há os livros lidos, fichados, anotados, para sempre guardados e de repente, tudo se esvai da memória… Mas não podia ignorar que logo surgiria em minhas mãos o grande perigo das estantes: os livros que ganhamos de presente.

Como quem toca um ídolo de bronze, retiro “Para viver um grande amor – Crônicas e Poemas”, de Vinícius de Moraes, encaixado entre outros dois livros do autor. Sem surpresa, abro. Na dedicatória: “Para meu grande amor!”, nome e data. Aperto os olhos, com uma pontada no peito.

Nesse momento meu companheiro canino está a rondar a casa quando vê o dono, talvez com um olhar melancólico, diante da estante. Conhecedor das emoções que é, Petrúcio se aproxima. “Lembra dela, Petrus?”. Discreto, ele não responde. Kundera escreveu no capítulo final de sua grande obra que nós, seres humanos, mudamos muito desde e a Criação e também transformamos nosso entorno com o suor do trabalho, mas os bichos, Petrúcio e todos os outros, ainda vivem como no Éden, refastelados numa selvageria contente e ingênua, sem dor ou conhecimento. Talvez os primeiros anos da Criação tivessem sido, aliás, apenas um início de namoro, contente e ingênuo, na dança indiferente do cosmos prestes a formar a vida.

Haverá um dia de sucumbir todo namoro, lançando os dois à separação no término, ou juntando-os enfim, pois há numa namorada qualquer coisa de vida, e se há vida, há morte e eternidade. Eis a metafísica das namoradas. Esses seres enclausurados na memória, de rostos cada vez mais rarefeitos, às vezes mera nota, mero nome, por vezes tão tristes como a parede marcada pelos quadros que mudamos de lugar. Uma dessas marcas mora em meu peito e mora também naquela contracapa. “Mas que presepada”, penso, sair por aí deixando rastros inertes, indeléveis como o tempo que passou.

Não digo nada de novo. Tão antigas quanto as estrelas são os olhos de uma namorada, pousados sobre nós perscrutando os mil sentidos que nos conferem a cada palavra, a cada gesto. E pobres de nós! Se elas soubessem que, embasbacados com as belezas recém-descobertas, não pensamos em nada, nada. Somos aquela estranha confusão vivida a dois, prosseguindo nos amando e cogitando ficar para sempre juntos. Ou desviaremos o olhar, para pensar cada um consigo que não era bem aquilo. Ah, os futuros suspensos criados pela namorada… existem, sem dúvida, como existe tudo que há de belo no ofício de criar esperanças. E nesse milagre de encontrar alguém com quem dividir algo tão tortuoso que é um futuro, tantas e tantas vezes nos esquecemos do que é um eterno infinito – enquanto dura.

Confesso, Vinícius, que não tenho curiosidades quanto ao céu. Nunca me foi uma expectativa sincera. Mas se lá estiveres tu, com uma garrafa de whisky (e creio que esteja, com todos os grandes poetas), vale a pena uma vida santa. Aliás, vai ver seja o céu uma espécie de reencontro com várias namoradas, como no filme do Fellini, pois que criatura melhor para representar a eternidade do que esses seres que mais nos fizeram cogitar viver para sempre? E me pego a pensar nos mistérios gloriosos quando o próprio Deus veio a terra, foi crucificado, morto, sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e a pessoa quem o esperava chorando foi a primeira pessoa a quem Ele se revelou e era justamente – por que não? –  sua namorada.

Fecho o livro e encaixo-o novamente no mesmo lugar. Está bem alocado na estante, que falta pouco para estar organizada. Uma última memória me perpassa o espírito, como se transpusesse o lugar e tempo de uma noite estrelada na praia em que nos indagávamos se tínhamos visto um cometa. Eu sorria e te olhava com a serenidade de dezenas de anos que viveria para esquecer aquele instante. E os minutos passando, e os minutos passando. Aperto os olhos e vejo, mas a realidade inunda o meu redor.

Caminho até meu quarto. Petrúcio está dormindo ao pé da cama, sonhando sabe-se-lá com que coisa feliz.

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