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Machado de Assis e Eça de Queiroz: entre desacordos e magias.

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Por Tiago Augustini – TX

 

Obs: Considerando a regra que o Starbooks fala sobre impressões, resenhas e conselhos literários, peço a todos que tenham paciência com esta coluna de hoje: trata-se de uma fofoca literária não obsoleta, mas isso é opinião do degas aqui, claro; é a briga que permeou o final do XIX? Nem tanto e superada há muito, mas reviver-la-ei novamente! Andiamo (saudade de acabrunhar Jejum pelos corredores – pensei e escrevi uma palavra em italiano e me lembrei de Jejueiros; o que a quarentena anda a fazer com nossas mentes, caros e caras?!).

Pois bem, vocês gostam do Machado? (agora que entrou para fatídica lista de proibidões de Roraima suas vendas propeliram) Vejam, entendo perfeitamente quem responda não; a fase é outra, o mundo de Machado era outro, o português corrente no XIX e início do XX se liquifez; então, isso não é bom nem ruim, apenas é a história da sociedade seguindo seu rumo – Hegel teria acertado que o fim da história era a chegada de Napoleão com seus Direitos Humanos? (eu sei que não é dessa história a que Hegel aduz, mas deu toque especial e salvo-conduto à aleatoriedade).

Ora, quanto a mim, o sentimento ao Bruxo do Cosme Velho é puro e simplesmente o deleite do amor, ultrapassei a querela da admiração, é meu autor predileto; o único autor que li uma vasta teoria crítica – nem sequer a metade, serei justo para que Mefistófeles mantenha-se longe de minha alma – mas li, inclusive, sua biografia feita pela incrível Lúcia Miguel Pereira e, no atual momento, restam apenas 2 romances para completar sua obra toda (ressalva também para algumas crônicas que não consigo achar; com essa sinceridade vou me mantendo próximo aos desígnios de Deus? acredito que não, pois Virgílio, creio, irá me levar a uma viagem sem volta ao sexto círculo do inferno, o dos hereges).

Mas não estou aqui para exaltar as mágicas e seus feitiços que me contagiaram; o brejeiro, o traquinas Joaquim Maria Machado de Assis meteu-se em treta, em arrelia e, se fosse por esses tempos, eles teriam feito isso em textões no facebook, ele e Eça de Queiroz, como o título traiu a surpresa.

O “causo” se deu da seguinte maneira: Eça publica O Primo Basílio em 1874 e, no ano seguinte, O Crime do Padre Amaro (uma revolução na literatura da época, os dois livros) e alcançou sucesso imediato em todo velho continente e também por terra brasilis, o realismo torna-se ultramares, como as lágrimas de Portugal. Machado, que possuía fama grande por essas bandas tupiniquins e também na terra de Almeida Garret, era conhecido, à época, como um autor romântico e, sobretudo, por seus contos; era um autor de contos, como a crítica gostava de referi-lo ao período de sua escrita anterior a 1881. O Bruxo era crítico de teatro e literário nos periódicos desde os idos da meninice; começou a vida no jornal escrevendo tais crônicas e por isso resolveu ler as obras a que tantos elogiavam (fico imaginando ele comentando os livros com Nabuco e Quintino Bocaiúva, não é atoa que surge a ABL).

A ressalva aqui merece parágrafo especial: no séc XIX, sobretudo no período anterior a 1888 e, especificamente, no censo de 1872, havia, ao que tudo indica, 9 milhões de habitantes no Brasil e, desse montante, 1.510.806 eram escravos e, lógico, analfabetos na língua portuguesa, mas a questão é: quem eram os alfabetos desse período em que somente a elite havia de estudar? Daí retiramos a afirmação de que quem lera Eça e Machado em sua contemporaneidade fora uma quantidade ínfima de pessoas; por isso esses se conheciam, circulavam os mesmos livros por estes grupos e daí o sucesso de um ou de outro autor em meio ao pequeno, mas profícuo e culto, mundo letrado.

Mas voltemos ao Imbróglio. Ao ler o romance O crime do Padre Amaro, Machado percebe uma semelhança com outra obra seminal em França: O Crime do Padre Mouret, de Émile Zola. Devemos levar em conta que Zola fora o precursor do naturalismo e Machado não era grande apreciador desse gênero (o realismo teve como precursor Gustave Flaubert, com Madame Bovary). O Bruxo, então, tem a grande ideia de realizar uma crítica; não se sabe se por ideia de quem – e se realmente fora influenciado – mas escreveu 15 páginas sob o pseudônimo de Eleazar (claramente será o nome de meu filho e, se caso eu realmente o tenha, que Deus o proteja do bullying escolar; ateu que sou, é melhor que ele tenha a proteção da divina providência que de uma nota de repúdio, credo em cruz).

Mas o que o treteiro, Machado, resolveu dizer? Pois bem, como alfinetar o comportamento alheio era tarefa desse maître da ironia, Machado fala da pouca densidade psicológica das personagens, da profundidade, do tempo, do espaço e uma infinitude de cousas – mas a pior crítica foi que, segundo o Bruxo, Eça plagiou a obra de Émile Zola – deixarei link ao final para que todos vejam a obra de Eleazar.

“E o Eça, como reagiu a tais críticas? Porque são sérias e vindas de alguém que transborda importância”, indagaria o leitor atento. Pois bem, o Eça de Queiroz, meus amigos e amigas, que era cônsul na terra de Shakespeare e conhecedor da escrita machadiana, responde nosso Bruxo. A resposta não é agradável aos brasileiros e não é, porque Machado errou, errou rude. O lusitano explica que sua obra não era um plágio porque ela fora publicada 2 anos antes que a obra de Émile Zola. Senhor Amado, que papelão nos aprontou o Machado, caros e caras. O burburinho foi imenso, sobretudo após a publicação dessas 15 páginas do Machado, porque a resposta de Eça veio após 6/7 meses e os intelectuais próximos a Machado resolveram manter isso – a resposta do lusitano, não pensem no áudio do Romero Jucá, por favor – por baixo dos panos.

Entretanto, como Portugal já estava e pregava o realismo, como todo momento de superação a um modelo, criticava os moldes ditos antigos do romantismo, sobretudo na faculdade de Coimbra, os realistas portugueses começam a provocar nosso heroi com frases do tipo: “tudo bem, você está criticando o realismo, mas você é um autor de contos” ou até mesmo: “você é um autor romântico, o que já fez além disso e de contos?”. É daí que realidade e ficção se misturam; há uma lenda que diz que, ao perceber tal movimentação quanto a sua obra, Machado se isola em sua casa em Petrópolis e começa a enviar aos poucos, em folhetim, para a Revista Brasileira, entre março e dezembro de 1880, o Memórias Póstumas de Braz Cubas (com “z” para resguardar a grafia original da época) e com isso torna-se nosso divisor de águas na literatura; como se Machado dissesse: “não sou bom o suficiente, então peguem essa obra matreira”. Outra parte dos críticos diz que ele não se abalou, o Machado, e apenas seguiu escrevendo.

Mas a obra foi uma revolução mesmo quando, em 1881, fora publicado em livro a primeira edição do Memórias Póstumas; Capistrano de Abreu chegou a enviar uma carta ao Bruxo indagando-o se as memórias de Braz Cubas era um romance (sic).

Machado sempre vai continuar sendo nosso maior escritor e presidente eterno, imortal da ABL, em sua cadeira 23. Essa história mostra-nos que até mesmo os gênios podem errar, pois humanos que são; e erros grandes, imensos; entretanto, que só engrandecem-lhes. O que dirá de nós, pobres viventes que apenas usufruímos de obras desses que criam, mas que também erram. Ele mudou nossa história como Napoleão, mas não pela imposição do Direito, da lei, da espada e de um cavalo branco, fez por meio das palavras, das artes e do talento tanto praticado; talento de alguém que não frequentou a escola formal, preto, gago e epilético numa sociedade escravocrata em vigência, pois ainda somos racistas, mesmo após ao 13 de maio de 1888 . Viva Machado de Assis, nesse dia posterior ao dia mundial do livro!

Link para o artigo do Bruxo e sua treta:

http://www.omarrare.uerj.br/numero13/pdfs/alfarrabios.pdf

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