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Kúchelev, em: A Palavra Ituveravense, um velho mundo.

Itu

Por Tiago Augustini – TX

Em Ituverava há um Conde. E que registre-se nos anais desse Ócios que o nobiliárquico está vivo e utilizando de plenas faculdades a que esse honorífico título lhe confere, claro, não é muita coisa em pleno séc. XXI em Terra de Santa Cruz, contudo, está lá, vivinho da silva, o Conde. Para tanto, vossa alteza partira numa longa peregrinação à Itália, ainda como mero plebeu, para que lhe confirmassem que era ele, realmente, o herdeiro deste magnânimo título e, como vemos pasmados, conseguiu, o prazenteiro. Como se não bastasse (a todos nós e também aos convivas ituveravenses, coitados), o bendito é deputado federal na Itália e aí é que a história aperta; isso não é tudo, caros e caras, nosso Valete possui fotos com o papa Karol Józef Wojtyła (google, gurizada, porque a direita católica sabe bem quem seja, não cancelem conservadores de verdade, esquerda canceladora, por favor, pedido em genuflexo); com Bill Clinton, Lula, Dilma, entre outras variadas personagens políticas relevantes desse mundão de Cristo. Mas por que vocês não verão esses belíssimos encontros retratados em fotos pelas redes? Simples, vossa alteza resolveu, como todo populista, jogar o jogo, estar sempre na e pela situação; pois bem, meus amigos e amigas, como imaginam, o Conde resolve apoiar o Bolsonaro e precisa apagar todas essas fotos das redes, permanecendo apenas os retratos com o PR e com o deputado federal tido como 03. Acredito que faltava espaço em suas contas sociais, jamais poderia imaginar apoiadores do PR sendo hostis à diversidade, isso nunca, jamais, jogaria meu nome ao d’abo!

Como também sabem todos e todas, a pandemia do corona pegou a Itália de uma forma brutal, ocasionando comoção ao planeta (é horrível ter que afirmar que a Terra é redonda em 2020, imaginei carros voadores, cazzo; não os algozes de Galileu na presidência). Conde, portanto e diante do sinal apocalíptico, deixa seus trabalhos legislativos italianos e retorna à Ituverava, pois, nessa urbe, nosso herói possui uma vinícola na zona rural, bem próxima à cidade e é nessa belíssima propriedade que planta-se a videira, colhe-se o fruto, fermenta-se a uva, engarrafa-se a bebida sacra e encontram-se a elite local. Daí, a população ituveravense, cuidadosa e preocupada com os seus, inicia o envio de muitas mensagens ao nosso Valete, indagando-o sobre o estado de sua saúde, benfazejos, os ituveravenses, vejam vocês. Enfim, conseguiram uma resposta do Conde. E que triste foi essa resposta, senhoras e senhores.

Tristes aos cidadãos ituveravenses todos, não obstante o delegado da cidade preso e também policiais envolvidos com o jogo do bicho, mas isso fica para outra oportunidade, pois Ituverava é a cidade das aleatoriedades, dizem os antigos anciãos de lá. Ainda, para que tenham ideia de contexto e de que não se trata de pouca coisa, a cidade é berço de gente ilustre: o apresentador Marcelo Tas, o mestre cervejeiro Mendonça Cervejeiro, o nadador Gustavo Borges, o baluarte Cassim Doido, o compositor Vítor Martins, o mestre da retórica Xicão Argumentador, o estadista Lúcio Prefeito, o peculiar Pereira dos Petiscos, o pugilista sem vitória Joel Folgado, o advogado Chicote dos Posts, o passado Nathan dos Trocadilhos, a filantropa Vitória J. dando o que beber às pessoas em situação de rua, o cantor e compositor Ivan Lins (esse ainda preciso de confirmação, perguntem ao caçador de jogadores do bicho, Pedro Sberno, ituveravense de fio a pavio e cidadão que luta contra a jogatina ilegal por meio da combativa Associação Contra o Jogo do Bicho de Ituverava) e etc. A lista é longa, cada um desses herois ituveravenses apresentaria histórias que bateria o número de páginas de Guerra e Paz ou Dos Miseráveis facilmente, e que histórias.

São tantas memórias que a cidade me traz que já ia me esquecendo de nosso Valete. Pois vejam, ao responder a uma moradora, o Conde, via áudio, pediu que sua mensagem viralizasse – escolha lexical mórbida para o momento, mas respeitemos o nobre – pois o conteúdo tratava-se de acuidade moral e higiênica a todas e todos cidadãos. Não os revelo em detalhes aqui por rigor ao estilo, contudo, e em suma, Conde diz que nem ele, muito menos sua família, estão infectados pelo fatídico vírus (que não é uma “gripezinha”, PRIC) e que ele se sente triste por conta dos falatórios em relação a sua vida pelos viventes ituveravenses, “preocupar-se-iam com as vielas e vias desta cidadela, pois, estão puras bibocas”; nosso herói alega que a cidade está imunda, ruas esburacadas, parecendo o “Afeganistão”(sic) e que sua vinícola “é a Toscana naquela cidade”(sic). E agora, Conde? E agora diga tu! certamente ele diria. A população se revoltou, ora pois:

Tesconjuro! Tesconjuro! – bradavam os munícipes nas ruas e nas redes – que se vá embora, volte à Itália, volte a Ribeirão – sua terra – somos simples plebeus a construir um burgo para você!? – nosso Valete é natural da califórnia brasileira, que ironia, Senhor!

Mas Conde não pôs os pés para fora. Não por medo da população. Muito menos pelo vírus COVID-19; no áudio, que deveria ser publicizado em carros de som e no Pub 016, ponto de encontro dos heróis, ele diz que se trata de uma gripezinha, jamais seria infectado, pois tem higiene, educação e tem vinho para sorver ao espírito e que este – aqui reside o núcleo, atentem-se – por ser ingerido, mataria ou o imunizaria do vírus, não me recordo o verbo correto. O que resta a nós é saber se ele, o corona, morreria afogado no vinho, de cirrose, alcoolizado; pois, ao que tudo indica, ingerir etanol não nos torna imunes e, portanto, não há como não relembrar do bardo inglês, Guilherme SacodeaLança (Willian Shakspeare), em o Rei Lear, para retermo-nos à esfera da nobreza, que em certa parte da peça o bobo da corte pensa sobre Lear: “pobre Lear, ficou velho antes de ficar sábio”.

O resumo da ópera (alusão melhor à ópera Le Nozze Di Figaro, de Mozart, impossível): a polícia federal anda a visitar os cidadãos que bradaram contra a fala do Valete, mas ele conseguiu a publicidade ao seu fatídico áudio, porque não se desrespeita ordens de um nobre, o cadafalso é destino certo! (a PF pode realizar essas inquirições? É de sua competência? juristas ituveravenses estão à quebrar a cabeça). E, completando o ciclo de experiências daquela curiosa urbe, por esses dias chegara um ônibus em Ribeirão lotado, seus passageiros eram venezuelanos e índios (há um vídeo de uma TV local sobre a matéria); o fato interessante é que esse ônibus encaminhava-se para Ituverava. Mas por quê? Pois é, ninguém sabe! A polícia militar da cidade fora acionada e estavam indo ao encontro do ônibus! Os anciãos que residem atrás do Salto Belo, cachoeira magnífica da cidade, que moram precisamente atrás do véu d’água, pois bem, eles tinham razão, os sábios, mais aleatoriedades não há; só nos resta embarcar na caravela da praça da cidade e zarpar para longe do país governado por Bolsonaros, quando, assim, daremos nosso grito: “Terra à vista! É o novo mundo!”

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