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O Chico Buarque, uma de suas faces

Chico Buarque usa meme para estrear perfil no Instagram | VEJA

Por: Lino TXIII

Certamente todos conhecem e reconhecem o valor artístico de Chico
Buarque, pelo menos por suas composições e peças teatrais. No entanto, uma
faceta mais recente e menos divulgada do artista são seus romances. Autor de
títulos como Budapeste, Estorvo e Leite Derramado, vencedores do prêmio
Jabuti nos seus anos de publicação, Chico ganhou em 2019 o maior prêmio da
lusofonia, o Prêmio Camões, contudo, mais do que registrar aqui uma
admiração enquanto leitor, é objetivo do artigo estimular a leitura desse escritor
contemporâneo.
Em “Leite Derramado”, Chico traça de forma original uma análise da
mentalidade aristocrática brasileira, por meio da mimese de um decadente
homem que em seu leito de morte relata sua história para uma enfermeira em
seus delírios, acreditando estar falando com a filha.
Bom, a semelhança com o maior clássico brasileiro é latente, pois em
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado dá voz a um aristocrata
escrevendo sua autobiografia do além-túmulo. Porém, não se engane ou
subestime a história de Eulálio, nome do protagonista de Chico, mas
surpreenda-se em constatar, assim como eu, que a realidade social do final do
século XIX e a do século XXI pouco mudou.
Vejamos, o autor consegue tratar de assuntos como a herança de séculos
de escravidão de maneira sutil, de tal forma que leitores menos atentos nem
notem, ou ainda trata do machismo estrutural da sociedade brasileira por meio
da relação existente entre o protagonista e sua mulher, Matilde. Tudo isso sem
incorrer em uma imitação de obras que provavelmente o autor se inspirou.
As semelhanças não se restringem apenas ao conteúdo e a crítica, mas vão
além, lembrando a forma e o estilo “ébrio” do autor realista, isso porque o
moribundo oscila em momentos de lucidez e loucura tornando a história não
linear tal qual a obra machadiana. Esse fato além de criar a semelhança citada,
também proporciona um recurso estético peculiar no romance: um proposital
embaralhamento das ideias centrais da narrativa, causando em um primeiro momento um estranhamento, mas nem por isso torna a leitura menos acessível
ao leitor, já que o escritor dispõe de um vocabulário prosaico e escrito em
ordem direta.
Chama atenção também a caraterização do narrador, já que ambas as
obras aqui mencionadas possuem o foco narrativo em primeira pessoa,
contudo nem por isso, carregam traços individuais do autor, pelo contrário,
tanto Brás Cubas quanto Eulálio, são resultados da aglutinação de todos os
elementos e comportamentos considerados repulsivos pelos seus respectivos
autores.
Outro importante ponto em ler Chico Buarque é o fato de sua leitura em si
ser um ato de resistência. Sim, afinal, em toda sua obra houve acentuada
crítica ao conservadorismo e ao autoritarismo, coisas que infelizmente, assim
como no momento histórico de lançamento do artista, permanecem fortalecidas
na sociedade brasileira. A ratificação dessa afirmação se mostra na declaração
do autor ao saber que o “Presidente Bolsonaro” não iria assinar seu prêmio
Camões, ”A não assinatura de Bolsonaro no diploma é para mim um segundo
Prêmio Camões“, nesse posicionamento feito de maneira educada e discreta,
qualidades que jamais poderiam ser atribuídas ao senhor presidente, ficando
clara assim a importância dos artistas e da arte frente ao autoritarismo tosco
pelo qual o país tem passado nos últimos anos.

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