Política internacional · Política Nacional e Internacional

Sem respostas

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Abdelghani Dahdouh | Cartoon Movement

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

A Europa será forjada em crises e será a soma das respostas para essas crises.” O autor desta frase, Jean Monnet, diplomata francês e primeiro presidente da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), é considerado um dos onze pais fundadores da União Europeia. É com a frase desta personalidade que me inspiro para a conversa de hoje: como a crise do coronavírus afetará a União Europeia?

Para quem leu meu recente texto sobre a China e espera uma resposta direta, já aviso logo de cara que este não é o caso. De forma distinta à análise feita sobre o país asiático, em que sua ascensão como principal potência global é algo objetivamente demonstrável, o destino da União Europeia depende de muitos fatores subjetivos. Afinal, como em todo bloco político-econômico, tão importante quanto os resultados e benefícios, é a confiança mútua entre os países membros, e isso não é mensurável.

No caso específico da União Europeia, essa confiança se sustenta em um fundamental pilar: multilateralidade das ações e decisões. A partir deste pilar, todo o sistema europeu pôde ser formado, sendo suas principais bandeiras, o mercado comum e a livre-circulação de pessoas. E foram justamente esses os pontos que os países membros, agindo de forma unilateral, romperam.

Tudo gira em torno da dicotomia multilateralidade e unilateralidade. Por omissão da UE, a resposta do continente ao vírus veio por meio de atos unilaterais dos países membros. Atos estes muitas vezes realizados em detrimento de seus pares europeus. 

Quem não se lembra da Alemanha e da França barrando a exportação de álcool em gel e máscaras? Quem não viu o acordo de Schengen se esfacelando de forma sistemática sem uma discussão conjunta sobre a livre-circulação de pessoas? Quem não se indignou com a UE virar as costas para a Itália em seu momento mais difícil? Quem não estranhou a China suprindo esse vácuo gerado pela UE e auxiliando os países mais afetados no continente?

A imagem que a UE tem passado até o momento é que, em momentos de crise, a união vai pro espaço e o modus operandi é o famoso cada um por si (e Deus contra todos). Uma imagem podre, que não presta a nenhum papel além de fortalecer movimentos e partidos ultranacionalistas. Mas uma imagem verdadeira.

Porém, como salientado na frase de abertura, a Europa será a resposta a essas crises. Apesar de um começo absolutamente desastroso, é plenamente possível que os países achem o rumo da solidariedade e multilateralidade novamente, e com essa nova bagagem, fortaleçam os mecanismos e instituições do bloco para que uma situação trágica como essa não se repita. Tentativas para chegar a isso já estão na pauta em Bruxelas, onde se discute pacotes para salvar as empresas, assim como empréstimos aos países mais afetados. Tarde? Sim. Mas é um sinal na direção correta.

Da mesma forma que as rusgas geradas nesta crise podem ser o início do fim do bloco. Principalmente por desilusão de países que foram profundamente afetados pelo vírus e viram seus pares virarem as costas. A Itália, por exemplo, é um país que vê o sentimento anti-Europa crescendo diariamente, principalmente após as ações unilaterais da Alemanha e França. O que seria da UE se os países membros decidirem que estão melhores sozinhos? Que não é possível confiar em seus vizinhos? 

Como disse no começo do texto, esse não é um texto que traz uma resposta. É um texto que apresenta os dois cenários possíveis e traz algumas perguntas. O único fato é: a UE não será mais a mesma depois desta crise. Não será mais a mesma porque tem falhas colossais que foram expostas pelo vírus e que fizeram com que se omitisse quando era mais necessária. Resta saber se essas falhas serão sanadas e a União ficará mais forte, ou se essas falhas se mostrarão insanáveis, fazendo com que a comunidade perca força.

Finalizo este texto que não respondeu absolutamente nada com um breve compilado de dados, para todo mundo entender que a situação é séria e que é necessário solidariedade e ações coerentes e conjuntas para superar essa crise.

Com 1.020.219 casos (30,38% dos casos globais), a UE é o segundo maior foco global do vírus, atrás apenas dos EUA. A UE representa o maior número de mortos, com 105.378 (44,44% dos casos globais), ao mesmo tempo que representa o maior número de casos recuperados, com 468.535 (43,88% dos casos globais), o que faz com que a taxa de mortalidade do vírus no bloco seja de 18,2% – praticamente a mesma da média global. 

Peço desculpas por ter gerado mais dúvidas que conclusões. Não é apenas a Europa, mas o mundo todo passará por mudanças profundas em decorrência dessa crise. E esse novo mundo necessariamente será a soma das respostas. Para isso, precisamos das respostas certas e, principalmente, das perguntas certas. A lição que já podemos aprender da história recente da UE é que, atualmente, não se pode pecar por omissão.

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