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Conversando com Fantasmas

martin

Por Thomas Henrique Garcia (Palmirinha) – TIX

“O homem não é mais do que a série dos seus atos.”

Hegel

                O cinema é um conjunto de imagens em movimento. Assim, poderia ser uma forma de diferenciação do cinema para as outras artes. Essas imagens, sequenciadas, causam uma noção de continuidade. A imagem anterior encaminha a próxima em uma sequência lógica que cria um significado final.

                A princípio[1], toda fotografia retrata um momento que de fato aconteceu. Durante as filmagens de Pulp Fiction, por alguns momentos John Travolta e Uma Thurman realmente dançaram em um cenário que aparentava ser uma Lanchonte. As fotos tiradas estão aí para provar isso. Entretanto, é inegável que Vincent Vega e Mia Wallace, os personagens interpretados pelos atores, nunca existiram. A sequência de imagens produzidas pelo diretor Quentin Tarantino fez com que a gente conheça os personagens, envolvesse-se com a história deles. Foi criada uma simulação do real, que não o representa, mas que se usa de sua similitude para criar um proximidade com a gente enquanto conta suas histórias.

                Usando dessa ferramenta, muitos sonhos e signos foram construídos no imaginário coletivo de nossa sociedade ocidental. A indústria do cinema construiu padrões de beleza, arquétipos de Heróis e contribuiu para disseminar muito da ideologia que seguimos até hoje na sociedade moderna.

                Da sequência de imagens, percebemos a inabalável passagem do tempo. Outro aspecto que aproxima a vida do filme é justamente essa relação com o tempo. Mesmo quando o ritmo do filme for devagar, lento quase parando, há a passagem de um instante para outro. É claro que no cinema a lógica do tempo funciona diferente, conseguimos cortar alguns momentos da vida que seriam ditos como desinteressantes para se construir um ritmo condizente com o pedido peça história que se pretende contar.

                O próprio filme anteriormente mencionado, Pulp Fiction, consegue fazer uma brincadeira muito interessante com o tempo, deixando os planos fora da ordem natural que seguimos em vida. A morte de um personagem acontece, e alguns planos a frente, ele está vivíssimo pilotando um carro ou comendo um hambúrguer.  Entretanto, é inegável que o tempo se passou, tivemos o contato com vários momentos do personagem, mas sabemos que a história evoluiu do ponta A, para o ponto B.

                Por ter uma enorme noção sobre toda essas filosofias descritas anteriormente, e por se posicionar perante a elas de maneira tão madura, que eu considero que O Irlandês, de Martin Scorsese, é um filme sublime.

                O filme começa com um plano sequência da câmera se movimentando por corredores até chegar no nosso protagonista, Frank Sheeran, que, logo de cara, é introduzido como um idoso. Ele está morando em uma espécie de asilo para a terceira idade e aparentemente está solitário. Esse tipo de plano sequência, que em outros momentos foi utilizado anteriormente nos filmes do próprio Scorsese para retratar cenas de luxuria e êxtase dos Gangsters, agora, com um certo tom irônico, mostra a decadência e a banalidade dos últimos momentos de mais um desses bandidos.

                É quase impossível desassociar Martin Scorsese da popularização que os Filmes de Gangsters tiveram nos anos 70/80. Junto com diretores igualmente talentosos Francis Ford Coppola e Brian de Palma, Martin realizou grandes filmes da renovação do gênero à época e fez filmes conhecidos até hoje, como Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros e Cassino. Grande parte da imagem que eu tenho – e imagino que muitos outros igual a mim tem – sobre a figura do Gangster foi construída nesses filmes. Mesmo quando não diretamente, já que até hoje várias series, filmes e animações se inspiram nesses filmes para criar a figura do gangster. Um exemplo de referência são os gangsters que aparecem no início da segunda temporada de Brokliin Nine Nine, serie policial que tem feito sucesso ultimamente.

                Sendo assim, é no mínimo intrigante que quase 30 anos depois dos filmes que ele mesmo consagrou, o Diretor decidiu revisar o gênero que ele próprio ajudou a construir. Para tanto, ele se utiliza de alguns dos principais atores da época em que esses filmes foram feitos. Vemos Robert Deniro, Al Pacino e Joe Pesci voltando mais uma vez ao gênero que os consagrou com atuações de personagens como Noodles, Michael Corleone e Tommy DeVitto.

                A questão é que tudo aquilo já foi real em outro momento, foi transformado com o passar do tempo. Nenhum desses atores tem o mesmo porte físico de outrora. A imagem do homem viril que eles representavam não mais se sustenta pelo seus físico atual. A velhice é devastadora na vida real.

                As imagens em movimento construídas por Scorcese também envelheceram. A imagem daqueles filmes, hoje parece datada com o advento da câmera digital com ótima definição. Hoje a população vai cada vez menos ao cinema, e o Streaming tem ganhando relevância como forma de consumir as nossas imagens em movimento.

                Hoje em dia, é impossível fazer filmes iguais àqueles do passado. Filmes assim provavelmente nem seriam interessantes.

                O Irlandês tem sua força justamente nisso, ele se usa do gênero de gangster e do passado do diretor justamente dar mais força a visão que o Scorcese tenta passar sobre os tempos atuais. O passado do personagem, uma representação nova para o já conhecido filme do gênero de gangster, serve aqui para dar peso a amargura e o ressentimento que o personagem do Frank tem no presente.

                As estilizações de filmagem, tipicamente Scorceseanas, tem na primeira parte do filme maior espaço. Com cenas de personagens falando com a câmera e com cenas mais gráficas de violência. Com o evoluir da trama, os tons vão ficando mais sérios, a montagem mais linear e pouco inventiva e o filme vai se aproximando cada vez mais de uma estética mais clássica. A violência ao decorrer do filme, vai perdendo seu caráter gráfico e vai recebendo um tom mais seco e cru se afastando de qualquer glamourização a essas atitudes.

                O filme como um todo tem uma visão mais seca da figura do gangster. Ele não é aqui um maníaco, um alcoólatra ou nada do tipo. Os gangsters do filme, vividos por DeNiro e Pesci, deixam de lado qualquer excentricidade do passado e adoram um tom sóbrio, muitas vezes frio. O personagem do DeNiro, que muitas vezes não consegue externalizar seus pensamentos de forma concreta e que tem uma visão passiva em frente as adversidades da vida, se resume em aceitar o mundo apresentado e buscar o sustento para sua família.

                Na medida em que a questão central debatida pelo filme é sobre o fator imbatível sobre o tempo e as ideais, nada mais justo do que sua duração estendida de 3h30. Mais interessante ainda é o ritmo lento, arrastado e melancólico que temos no terço final do filme. Onde podemos ver uma nítida frustação e arrependimento de Frank pelas suas ações passadas, ao mesmo tempo que ele apresenta alguma busca vazia por sentido em suas ações se negando a contar detalhes do passado.

                O arrependimento e a melancolia do personagem, quando integradas nessa obra revisionista sobre o gênero cinematográfico dizem muito. Os filmes e a estilização passadas do diretor tiveram consequências no mundo moderno. As sequência mais aceleradas, que antigamente podiam se refletir em renovação, tomaram conta dos filmes atuais ao ponto que informação é vomitada em nossas caras. A uma banalização da violência, que deixou de ser uns instrumento de representação crua da realidade e passou a reforçar certos fetiches da sociedade moderna.

                O cinema é marcado constantemente por um certo saudosismo por tempos passados. Clássicos como Crepúsculo dos Deuses e filmes modernos como Era Uma Vez em Hollywood tem sua força nisso. A visão crítica e melancólica toma a frente do saudosismo em O Irlandês, é uma revisão tão forte do Filme de Gangster, como “Onde os Fracos Não têm Vez” é dos westerns, mas com a diferença de ser feito não por um estudante daqueles filmes, mas pelo gigante que os consagrou.

                É um filme sobre o passado impactando no presente, de como as imagens se movimentam nos filmes e na vida.

                No fim, a vida, como nos filmes, as ideias que tínhamos no começo não são as mesmas que temos no final. Elas estão em constante mudança. O tempo é implacável.

[1] Vamos excluir daqui as noções de manipulação de imagem ou animação para esse debate, podendo ser tratadas novamente em algum momento oportuno.

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