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A “heroicização”: Um sonho de uma noite de quarentena com Bolsonaro e Pugliesi, passando por desinfetantes, Kelsen e Freud.

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Por Pedro Sberni Rodrigues (TX) em 01/05/2020

Olá, JusLeitores em quarentena!
Tempos estranhos e difíceis, não é mesmo?
Eis que reflexões das mais diversas, ideias novas, percepções latentes ou antes
subjugadas a segundo plano e a nossa própria existência saltam à mente. Ao que parece, até o subconsciente anda pregando peças e promovendo sonhos bizarros, marcantes.
Em meio ao clima onírico instalado, “pesadelesco”, uma realidade inebriante, até
então pouco imaginada, que induz o contato com o hoje e consigo mesmo, fui surpreendido: as pessoas estão tomando desinfetante nos Estados Unidos da América após conselho presidencial de Donald Trump em uma tentativa de engrandecer “novamente” a América, a Gabriela Pugliesi  perdeu milhares de seguidores em um cancelamento dos mais fortes já registrados, o Kim Jong-Un morreu mas já voltou à vida  e o Bolsonaro não é coveiro (me pergunto se eu atribuía ao PR tal ocupação antes dessa clarividente mórbida revelação).A essa confusão de temas, adicione a obra A Democracia de Hans Kelsen, o clamor de preparação para a guerra de Vladimir Safatle, bastante Freud (que já fora objeto de discussão em todas essas referências alhures), e vamos à labuta.
Gostaria de ressaltar o fio conector de todas essas facetas apresentadas, a relação entre
o seguido e o seguidor, nomenclatura ultra moderna para a relação de poder (ouso dizer
alguma coisa parecida com Senhor X Escravo, Súdito X Princípe), aquela em que o vínculo é desenhado por uma flechinha que aponta para os dois lados, ainda que, no caso do Líder Supremo (o norte coreano) possa se dizer que uma das extremidades da flecha seja um pouco aleijada, ela ainda existe e é aí que está o cerne dessa reflexão.
Freud, em suas diversas análises da dinâmica de uma psicologia social, reconhece a
existência de algo, um vínculo, um fenômeno vinculante, entre os indivíduos que compõem um grupo. Mais ainda, um vínculo entre o indivíduo e a figura/objeto de liderança desse grupo que teria origem de instinto libidinal, na acepção ampla da palavra, EROS, um afeto platônico. Em suma, tal orquestra conduz a uma “identificação” (enquanto conceito, por isso as aspas) paralela, entre as partes dessas relações ou até membros da sociedade e seu “chefe”,um desvio dessa força libidinal em investimento desse objeto alçado.
Para o pai da psicanálise, os grupos parecem ser a volta da “horda primordial”, isto é,
da dinâmica da família, do grupo familiar. Com essa descoberta, Sigmund se aprofundou nas análises das dinâmicas de poder, encontrando o “assassinato do Pai Primígeno”, também conhecido como Parricídio, como recorrente resultado da rebelião (rato roeu a roupa do Rei de Roma) dos filhos contra o pai despótico, ou figura paterna.
Verifica-se que a história cuidou de ensinar e verter exemplos das figuras paternas
como símbolo do poder, reduzo meus exemplos aos nossos recentes Velho do Retrato,
Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres” e também aos bem mais democráticos, FHC, pai do plano real, Lula “Pai dos pobres e mãe dos ricos” (desculpe-me, Jejum).
Kelsen afirma que a comunidade autocrata é a “comunidade patriarcal por sua própria
natureza”. O “Tiranicídio” seria equivalente, pois, ao parricídio, isto é o assassinato dos
chefes das sociedades principalmente Autocratas, isto é, sociedades em que se concentra o poder em um só governante, “poder por si próprio”. Ainda por esses tempos a imagem de Mussolini pendurado reverberou na mídia a completar 75 anos de sua execução, lembra-se das diversas aniquilações das famílias reais europeias dos anos de Revolução Francesa (aqui fica uma dica musical, vocês sabiam que Viva la Vida do Coldplay se trata da ótica do rei francês derrubado na revolução?), ainda os Czares russos na revolução russa.
Nas democracias, conforme Kelsen se atreve dizer, enquanto o pai é o arquétipo de
autoridade, a democracia seria uma “sociedade sem pai”, uma comunidade de iguais,
“organização matriarcal onde os homens que vivem juntos são irmãos, filhos da mesma mãe”. Giacomo Gavazzi (no prefácio de A Democracia, Kelsen) apresenta, o chefe ou os
chefes não são pais ou membros de uma dinastia, uma vez que os cidadãos que os escolhem, podendo ser substituídos sem que haja o tiranicídio. Kelsen, assim, espera que a energia “libidinal”, de identificação, de investimento seja menos gravosa, menos cruel, menos totalitário e, portanto, relativa, temporária, parcial, racionalizada na democracia.
Esse investimento, porém, não acaba. E é nesse ponto que gostaria de atrair a atenção
do leitor.
Sinto que nesse momento de crise das democracias (vide o lançamento de 3521 obras
com “morte”, “crise” e “democracia” em um mesmo período, e fica aqui a sugestão de leitura de “Como as democracias morrem”), aliado à uma pandemia histórica e ao nível máximo de conexão digital já experimentada pelo homem, esse investimento de identificação, essa estrutura libidinal do poder, platônica, é cada vez mais forte.
Chama-se de “Fla-Flu” político, ânimos acirrados, populismo, avanço autoritário, ou o
que for, um aumento do poder irracional “de cima pra baixo”, isto é, dessas figuras do poder,objetos de investimento, em influenciar os indivíduos desse grupo.

Traduz-se, por exemplo, em estadunidenses tomando desinfetantes, centenas de brigas
políticas violentas, manifestações pedindo a volta da ditadura (que eu enxergo como um grito exasperado e irracional de um povo desorientado: “O Paiê, “eles” tão me sacaneando) em uma clara “mimese” referente ao Presidente do Brasil que banaliza a violência, as mortes e por diversas vezes exalta torturadores, mas representa e muito a figura em questão.
Não obstante os feitos presidenciais, cabe aqui ressaltar a imensa quantidade de vezes
em que o Messias se afigura Pai, seja quando está enumerando a tabuada do um (1):
01,02,03,04 (seria cômico caso não mostrasse quão patológica é a criação desses
enumerados), seja quando equivale todos os seus subordinados a figura do cônjuge, já o fez com Paulo Guedes, Moro, etc, não obstante seja um “casamento” em que ele é que manda, como vimos no momento de “reestabelecimento da verdade”. Para fechar a configuração institucional, aposta também, assim como a figura paterna estudada por Freud, em campanhas de castração/abstinência 5 sexual, através de sua “ministra-cônje” Damares.
Dando sequência as notícias dos jornais, Kim Jong-Un líder supremo/pai da Coreia do
Norte, do outro lado do planeta, foi morto pelo ocidente democrático. Faltou dizer que quem “mata” o Pai, nesse caso, são os “filhos/seguidores” e, aparentemente, os de Kim Jong-Um continuam a reverberar sua autocracia e o ilustre reapareceu vivo, fumante, bebedor e obeso, como pintaram os tabloides.
Falando em forma física, resolveram cancelar a Gabriela Pugliesi depois da ilustre
blogueira furar a quarentena. Ódio destilado, marcas mais felizes do que nunca por poderem cancelar seus gastos com a influencer em um momento de crise e ainda fazerem propaganda de consciência social.
O cancelamento é a negação. Para manter o primeiro modelo, aquele filho que foge de
casa e diz não mais ter pais, ao invés de reconhecer e aceitar seus genitores e brigar
racionalmente por sua vontade dentro do modelo familiar.
A diferença, nesse caso, é que resolveram alçar à posição de poder ídolos influencers
mimetizados por todo lado (para não falar viralizados) e os dois movimentos possíveis são seguir e cancelar, a velocidade da rede não permite a substância, facilita o linchamento virtual, que não deixa de ser linchamento.
É justamente o instinto de dar poder, cultivar, investir esse afeto virtual e irracional a
personagens como a referida, seguir o presidente e ir às lágrimas bradando contra os
comunistas (como o João Dória) que me reforçam a posição de que esse processo de
identificação está exacerbado por esses dias, meses e anos estranhos.

Falta-me conclusão pra esse imbróglio. Parece-me que, mais do que nunca, a
consciência de poder e de responsabilidade desses senhores ídolos poderiam conduzir maior suavidade a esses tempos difíceis. No entanto, só o reconhecimento da irracionalidade que nos permeia, através da profunda consciência de (para/por) si e a cidadania enquanto liberdade me parecem apontar caminhos a velejar, ainda que sujeitos à mudança do vento.
Ufa! Será que foi só um sonho?

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