Filosofia · Starbooks

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo

WhatsApp Image 2020-05-08 at 17.25.19

Por Flávia Gomes (Dora) – TXII

A depender da sua memória, talvez você consiga se lembrar de como é ter quinze anos. De ter um monte de dúvidas sobre tudo a sua volta e não encontrar respostas para a maioria delas. De ver mudanças em si mesmo e na maneira de enxergar o que te cerca. Com os anos passando, você tem dezessete e uma mão invisível te empurra para decidir qual será sua profissão e onde você estará quando o colégio acabar. Aristóteles e Dante também são assim. 

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo conta a história de dois adolescentes descendentes de mexicanos que moram nos Estados Unidos, nos anos 80. A semelhança deles acaba aí, mas talvez nem nisso. 

Enquanto Aristóteles se reconhece como um verdadeiro descendente de mexicano, Dante não sabe onde se encaixa nesse mundo latino que ele nunca teve contato. Mais que isso, a personalidade dos dois são totalmente discrepantes: Dante é extrovertido, adora teorizar sobre tudo a sua volta e pensa muito sobre os outros e si mesmo. Ele argumenta, é bem articulado e vive perguntando sobre tudo que não acha a resposta. Já Aristóteles é extremamente reservado, não sabe se comunicar bem e tem uma grande dificuldade de expressar o que sente. 

“Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Algumas pessoas você entende de primeira. Outras você simplesmente não entende… e nunca entenderá.”

Fica subentendido que toda a dificuldade que Aristóteles sente para se expressar provém de dois fatos: primeiro, do seu relacionamento interno dentro de casa – onde não se fala das coisas importantes. Seu irmão foi preso quando o mesmo tinha quatro ano e ninguém nunca explicou para ele o que aconteceu, não existem mais fotos pela casa e todos estão proibidos de citar o nome do mais velho. Depois, seu pai é um ex-militar sobrevivente da guerra do Vietnã que sofre com as memórias e não se comunica muito com Aristóteles. 

“É muito difícil viver com um homem que tem o Vietnã dentro de si.”

Acima de tudo isso, Aristóteles demonstra, durante todo o livro, uma guerra interna muito grande. Qual o meu papel no universo? Onde eu me encaixo nesse mundo? Ele é somente um adolescente perdido, tentando se entender para que isso defina a forma como ele entende a dinâmica do mundo. 

– Você acha que vai ser sempre assim? 

– O quê? 

– Quer dizer, quando vamos ter a sensação de que o mundo nos pertence? 

Quis dizer que o mundo nunca nos pertenceria. 

– Não sei – respondi – amanhã. 

Aristóteles é um personagem extremamente tangível. Ele é um pouquinho do que todos nós somos e faz questionamentos que pelo menos uma vez na vida nós também já fizemos. Se conectar com ele é tão fácil que parece ser um conhecido de décadas contando a sua história, só para você. 

O encontro dos dois se dá em um dia de verão, em uma piscina pública, quando Dante se oferece para ensinar Aristóteles a nadar. É com as aulas que Dante se torna o primeiro amigo de Ari. 

– Meu nome é Dante – ele disse. 

Seu nome me fez rir ainda mais. 

– Desculpe – eu disse.

– Tudo bem. As pessoas costumam rir do meu nome.

– Não, não – acrescentei – é que o meu é Aristóteles.

Algum (muito) crédito tem que ser dado para a maneira de escrita do autor, Benjamin. Os capítulos são pequenos, o que dá a ideia de a história flui de maneira rápida, assim com o crescimento dos personagens. O bom é que podemos acompanhar os personagens desde os quatorze anos até os dezessete, dezoito, o que dá a sensação de que crescemos junto com eles. 

Não dava para deixar de citar também a escrita poética do livro, cheia de metáforas que faz o leitor se conectar e entender a profundidade dos sentimentos que se passam dentro de ambos os personagens. 

Com o tempo, a amizade de Aristóteles e Dante vai sendo construída diante dos nossos olhos. Algumas barreiras pessoais existem entre eles – principalmente da parte de Aristóteles – e juntos eles descobrem como ir desconstruindo cada uma delas. 

Amo nadar. 

– Eu sei. 

– Amo nadar. – Dante repetiu. Depois, ficou em silêncio por uns instantes. E então continuou: Amo nadar… E você. 

Fiquei calado. 

– Nadar e você, Ari. São as coisas que mais amo. 

Existem dois pontos da história que são cruciais para o desenvolvimento dos personagens: a partida de Dante e o espancamento do mesmo. 

“Senti vontade de dizer que nunca tivera um amigo, nenhum, nenhum de verdade. Até Dante. Senti vontade de dizer que não sabia que existia gente como Dante no mundo, gente que observava estrelas, que conhecia os mistérios da água, que sabia o suficiente para entender que os pássaros pertenciam ao céu e não deveriam ser derrubados de seu voo gracioso por tiros de moleques idiotas e cruéis. Senti vontade de dizer que Dante transformara minha vida e que eu jamais seria o mesmo, jamais”.

Algum tempo depois que Aristóteles e Dante se conhecem, o pai do último recebe uma proposta de emprego de seis meses em Chicago. É com sua ida que Aristóteles consegue crescer, não sendo mais tão dependente de Dante e eles possuem trocas mais maduras através das cartas. São nelas que conversam sobre sexualidade – onde Dante assume que sim, beijou uma menina pela primeira vez e logo depois se toca que prefere beijar meninos -, bebidas, desabafos, sexo. Ver que Dante estava tendo tantas experiências novas em outra cidade, e pior, sem Aristóteles, faz com que Ari vá atrás de algumas experiências por si próprio – a primeira vez que isso acontece. 

– Vejo você em uns meses – ele disse .

– É.

– Vou escrever.

 

– Eu sabia que ele ia.

Não tinha certeza se responderia.

[…]

– Amo a chuva – minha mãe disse baixinho.

Eu também amo. Eu também amo. 

Me senti o garoto mais triste do universo. O verão tinha chegado e partido.

Com o retorno de Dante a El Paso, a amizade deles se intensifica. Muito confortável com a sua sexualidade, mas ciente dos preconceitos que estava sujeito, Dante revela a Aristóteles que está beijando outro garoto. É em um beco do bairro, beijando Daniel, que um grupo de garotos espanca Dante até deformar seu rosto e quebrar suas costelas. O episódio é importante porque é ele que faz Aristóteles perceber o quão importante Dante é para ele e quão a amizade deles transformou sua vida. 

– Posso contar um segredo, Ari?

– Adianta eu dizer não?

– Você não gosta de conhecer meus segredos.

– De vez em quando seus segredos me assustam.

Dante riu. 

– Eu não estava beijando Daniel de verdade. Na minha cabeça, estava beijando você.

É com um último “se toque” de seus pais que Aristóteles finalmente compreende que está apaixonado por Dante e descobre todos os segredos do universo.  

“Passara todo aquele tempo tentando descobrir os segredos do Universo, os segredos do corpo, do coração. Todas essas respostas estavam tão próximas e, contudo, sempre as combati sem saber”.

2 comentários em “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s