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OCIOSFORK: FETCH THE BOLT CUTTERS

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Por Thadeu Vilas (Amante) – TXII

Uma das artistas mais interessantes atualmente é a estadunidense Fiona Apple. Ao longo de 24 anos de carreira, lançou somente 5 discos: Tidal (1996), When The Pawn (1999), Extraordinary Machine (2005), The Idler Wheel (2012), e após 8 anos de espera, Fetch The Bolt Cutters (2020). Desde seu debut, Fiona atraiu a atenção da crítica por sua poesia afiada e produção nem sempre convencional, elementos que aparecem em FTBC em sua melhor forma.

            Sua voz performática, poesia visceral e piano são desde o início a base da música de Fiona, mas com o tempo ela começou a se aventurar com uma percussão mais marcada. FTCH conta com tudo isso, e ainda com outros elementos inusitados, como a utilização de colheres, latidos de cachorros e ossos de sua falecida pitbull Jane. Alguns dos temas abordados por seus versos são o amor, bullying, feminismo, o assédio sexual que sofreu quando mais jovem, depressão e a própria vida.

            A faixa escolhida para abrir o trabalho é a íntima I Want You To Love Me. Começando com sintetizadores pequenos e pratos, em questão de segundos a música toma um outro rumo ao Fiona introduzir seu piano, fazendo com que todo o resto desapareça. A música cresce com os vocais ficando cada vez menos sussurrados enquanto os versos tornam-se mais agressivos. Apple canta sobre aceitar o rumo que sua vida tomou e que todas as experiências passadas foram necessárias para chegar até onde está, e agora a mesma só espera encontrar a resolução amorosa. Cantando sobre a própria natureza passageira da vida, Fiona canta “E eu sei que quando eu me for / Todas as minhas partículas irão se separar e dispersar / E eu estarei de volta para o pulso” (tal “pulso” é uma conclusão que a cantora chegou após passar 6 dias meditando consecutivamente na Spirit Rock em Woodacre, California, que seria basicamente o estado antes da vida e após a morte). A canção explode ao chegar na ponte, onde Apple grita a plenos pulmões que ela sabe que o parceiro que ela almeja tem a capacidade de se juntar a ela (Apple nunca foi muito boa no quesito escolher parceiros) e que no final de tudo, ela sempre será a mulher que deseja que ele tenha sucesso.

Ainda sobre a primeira faixa, é interessante notar o paralelo que ela faz com uma de suas canções antigas e mais populares: Paper Bag. Enquanto no refrão desta Fiona canta desolada “E eu o quero tanto que parece que vou morrer / Porque eu sei que sou uma bagunça que ele não vai querer arrumar”, na ponte de I Want You To Love Me ela grita com determinação “E eu sei que você sabe que tem o potencial para me arrumar / E eu quero que você o use”. Em uma entrevista Fiona admite que no começo, essa canção era dedicada para o autor Jonathan Ames, com quem tinha acabado de reatar o relacionamento em 2015, mas que após o término a canção mudou para algo novo, sobre alguém que um dia ela conheceria. Isso mesmo, Fiona, a esperança é a última que morre!

Já a segunda canção é a eufórica Shameika. Enquanto o ritmo na faixa anterior era crescente, em Shameika a estrutura da canção é imprevisível: uma hora calma e suave, outra extremamente rápida e caótica. Fiona mostra sua habilidade como pianista enquanto canta sobre uma série de desfortunas que aconteceram consigo durante a escola e que acabaram moldando partes de sua personalidade, como o bullying (Eu não sorria, porque o sorriso sempre parecia falso / Eu não temia os bullies, e isso só os fez piores), seu isolamento (Na sala, eu passava o tempo / Desenhando um traço pra cada momento). Mas também conta sobre um episódio em particular que uma garota desconhecida chega para ela e diz “Você tem potencial”, e que mesmo sem entender o que aquela palavra significava, acabou causando um grande impacto nela. Mesmo não se achando interessante na época escolar, agora ela consegue reconhecer seu valor.

A terceira música do álbum é a que dá o nome do projeto: Fetch The Bolt Cutters. Com a produção mais alternativa, a faixa é recheada pelos sons de objetos domésticos como percussão e um teclado mais eletrônico, além de claro, dos latidos de seus 5 cachorros (que foram, inclusive, devidamente creditados). Já no conteúdo lírico, a mensagem de Apple é simples: pegue um alicate e se liberte das amarras!

Um ponto interessante da canção é a referência a obra de Kate Bush – a quem Apple já se referiu como uma de suas maiores inspirações -, nos versos “Eu cresci nos sapatos que eles me falaram que eu cabia / Sapatos que não foram feitos para subir aquela colina / E eu preciso subir aquela colina / E eu vou”.

A quarta música é a Under The Table. Nessa faixa, Fiona conta a história de quando seu namorado a forçou a acompanhá-lo em um jantar com os amigos, e durante o encontro ela começou a brigar com as outras pessoas por não concordar com as coisas que estavam sendo conversadas (Eu te disse que não queria vir para esse jantar / Você sabe que eu não gosto daquelas pessoas que você ‘tanto se importa’ / Então quando eles falarem algo que me faça ferver / Esse vinho fino não vai conseguir apagar meu fogo – Fiona, nós te compreendemos irmã -). Levemente cômica, a faixa é acompanhada por uma produção mais convencional, piano e percussão normais, que ajudam a criar uma cena perfeita de um jantar caro sendo arruinado por uma discussão. Fiona tem uma incrível capacidade de criar imagens para suas canções, então apreciar sua música não é somente ouvir, mas sim desfrutar de uma experiência audiovisual.

Seguindo com a quinta música, aparece a cheia de camadas Relay. O piano descansa e a percussão toma conta, mas o foco se dá principalmente na letra. Aqui, Fiona simplesmente explode e toda a sua raiva vem à tona. Raiva dos influenciadores que vendem uma vida perfeita, raiva das pessoas que tiveram uma boa criação, raiva de tudo, mas principalmente raiva do homem que a estuprou quando a mesma tinha 12 anos. Fiona já tinha mencionado no início da carreira tal situação traumática, mas falava que preferia não escrever sobre isso porque não era uma dor poética; além disso, falou que por ter estudado em um colégio católico, uma das coisas que aprendera era rezar pelas pessoas más, para que elas pudessem mudar um dia, e que após o crime, a primeira coisa que ela fez foi rezar pela alma de seu violador. Ela reprimiu todos os sentimentos decorrentes dessa experiência até 2018, quando ocorreu toda a polêmica envolvendo Brett Kavanaugh, juiz indicado por Donald Trump para assumir cadeira na Suprema Corte do país, e suas diversas acusações de assédio sexual. Fiona, em uma entrevista, disse que ver um homem desses em tal cargo simplesmente era demais, e foi aí que toda a raiva reprimida durante a anos finalmente foi externalizada. Na mesma entrevista, Apple também brinca com o fato do verso de abertura da canção (O mal é um esporte de relay / Quando aquele que está queimado / Passa a dar a tocha) ser tão profundo e ter sido escrito quando tinha 15 anos, e hoje, com 42, ela basicamente mandou um “vai se foder” ao longo da música toda.

A sexta música é a amargurada Rack Of His. O piano volta para acompanhar a bateria em uma música que lembra o início de sua carreira. Em seus versos, Fiona fala sobre dois relacionamentos que teve e foram parecidos no sentido que: todas as suas ações amorosas não eram entendidas ou retribuídas pela outra parte. Ela canta indiferente “E eu já fui usada tantas vezes / Que já aprendi a como me usar quando isso acontece / Eu tento batucar, eu tento escrever / Não consigo fazer nenhuma dessas coisas bem / Mas tudo bem, eu acho / Pelo menos sei como passar meu tempo”, mostrando que essas relações já se tornaram tão comuns que ela nem se afeta mais e pelo menos servem de material para composição.

Os latidos voltam para anunciar o início da sétima música: Newspaper. Ainda com sabor de féu, agora Apple fala sobre dois relacionamentos que teve: um que havia muito contato e outro que havia falta, e como no fim, ambos eram ruins. A produção é vazia intencionalmente, para que a voz cheia de raiva de Fiona ganhe espaço.

A oitava música é a delicada Ladies, um grito contra o patriarcado. Essa é a música de letra mais complexa do álbum, cantada por uma voz calma e produção vazia também, como se Fiona estivesse deitada no sofá de sua casa em Venice Beach enquanto reflete sobre sua relação com as mulheres (Ninguém pode substituir ninguém / Então seria vergonhoso transformar isso em uma competição / E nenhum amor é que nem outro amor / Então seria insano fazer uma comparação com você).

Em seguida vem a dramática Heavy Baloon. A música com o instrumental mais pesado e escuro do álbum trata sobre um tema que sempre esteve presente tanto na vida de Apple quanto das pessoas ao seu redor: a depressão. A doença é tratada como um balão pesado com o qual as pessoas são obrigadas a brincar. Ainda assim, no refrão ela faz uma espécie de brincadeira em que canta “Eu me espalho como morangos / Eu escalo como ervilhas e feijões” e em uma entrevista, Apple revelou que extraiu esses versos de um livro infantil para dar a ideia de “olha só eu estou bem hahaha morangos são doces e fofos, estou ótima hahaha” e logo em seguida ela fala a realidade “Eu já tenho me envolvido tanto nisso / Que estou arrebentando todas as costuras”. Uma música muito densa, mas extremamente necessária.

A décima música é uma das melhores do álbum: Cosmonauts. Nessa música, Fiona compara um relacionamento com a decolagem de astronautas “Porque você e eu seremos como um casal de cosmonautas / Com a diferença de que teremos muito mais gravidade do quando começamos”, pois conforme o tempo passa, a relação vai se tornando mais pesada. A produção tem um piano forte e percussão também, e a música também oscila entre espaços vazios e espaços extremamente preenchidos, dando a impressão das turbinas do foguete se ativando, decolando, e finalmente parando quando sai do planeta.

Aproximando cada vez mais do final, aparece a visceral For Her. Uma música com diversas histórias, de outras pessoas além da própria Fiona. A cantora deu uma entrevista e falou que essa foi uma das músicas mais difíceis de escrever, porque além da quantidade de histórias envolvidas, ela não queria deixar a música muito literal, mas também queria passar uma mensagem poderosa. A música gira em torno de relacionamento heterossexuais abusivos, como o verso forte: “Bom dia / Você me estuprou na mesma cama que a sua filha nasceu

As duas últimas músicas do trabalho são Drumset e On I Go. Drumset é a Fiona remoendo um término e as razões que levaram a falência do relacionamento e On I Go, faixa que fecha o trabalho, é segundo Apple “a minha versão de Vipassana chant que cantei na prisão” – Fiona foi presa por posse de Haxixe -.

Fetch The Bolt Cutters é o trabalho mais íntimo de Fiona Apple. Decepções, episódios traumáticos, amor, sua relação com a vida, saudade, Fiona expõe tudo de forma poética e visceral, como se estivesse cantando nua na frente dos ouvintes. Porém, ao contrário de outros trabalhos, a arte de Fiona não parece com a música de nenhum outro artista. Extremamente autêntica, Fiona pega elementos conhecidos e faz um uso completamente inusitado deles, provando que não é necessário recorrer a dispositivos eletrônicos para criar algo novo.

Fiona Apple pegou todos os seus demônios, matou a maioria, aceitou alguns, e criou um dos melhores álbuns do século. É importante ressaltar que a obra de Fiona, por não ser muito familiar, pode causar estranhamento no primeiro encontro, mas se você estiver disposto a dar mais chances, tenho certeza que o trabalho dessa artista brilhante irá te cativar.

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